O Ceará é, mais uma vez, o estado brasileiro com maior número de equipes classificadas para a etapa final da Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB). Dos 353 grupos que seguem para a grande final presencial da 18ª edição da competição, 135 são cearenses - quase 40% do total nacional.
O resultado desta fase saiu no dia 19. O desempenho amplia o protagonismo do Estado na olimpíada. Em 2025, a ONHB reuniu 351 equipes finalistas, das quais 107 eram do Ceará. Neste ano, são 28 equipes cearenses a mais na decisão, que será realizada nos dias 29 e 30 de agosto, em Campinas (SP).
Para o professor, historiador e mestre em Ensino de História, P.A. Damasceno, o resultado não é uma exceção, mas um reflexo do fortalecimento da educação cearense nos últimos anos.
“A marca da Olimpíada de História é um somatório, não uma exceção. O destaque dos cearenses no ITA, nas Olimpíadas de Química, de Física e nos vestibulares demonstra uma atuação muito forte da educação cearense nos diversos eixos que formam a vida escolar”, lembra o docente.
Segundo o professor, que já levou equipes de cinco escolas públicas diferentes à etapa presencial da competição, o sucesso não depende de instituições especializadas ou turmas exclusivas para olimpíadas. Em algumas escolas, a preparação para a competição já faz parte da rotina.
No Liceu do Conjunto Ceará, onde leciona, Damasceno conta que existem disciplinas eletivas voltadas ao desenvolvimento das habilidades trabalhadas pela ONHB. Fora do período da competição, as aulas permanecem dedicadas à leitura e interpretação de fontes históricas.
História construída em conjunto
Mais do que testar conhecimentos, a ONHB propõe que estudantes pesquisem, debatam e interpretem documentos históricos ao lado dos professores orientadores. As respostas raramente são objetivas e exigem argumentação, comparação de fontes e diferentes perspectivas sobre um mesmo acontecimento.
Para Damasceno, esse formato transforma a relação dos alunos com a disciplina.
O aluno entende que a História não está pronta. Ela é construída, interpretada e permanentemente questionada. Esse aprendizado faz com que ele se torne protagonista e desenvolva uma habilidade que não se perde nunca. A Olimpíada prepara o aluno para a vida real. Nem sempre existe uma única resposta correta. Existem perspectivas mais superficiais e outras mais complexas, e o exercício é justamente aprender a construir esse olhar.
Além da aprendizagem em História, o professor destaca impactos em outras áreas da formação. “O aluno ganha qualidade de leitura, capacidade argumentativa e repertório. Muitos utilizam temas debatidos na Olimpíada na redação do Enem, e isso faz diferença”, destaca
Estreia na final
Entre as equipes classificadas está a Cultus Clio, formada pelos estudantes Ana Beatriz Almeida Santana, Alonso Rocha de Aguiar Filho e Luiza Vidal Monteiro Oliveira, todos de 17 anos e alunos do 3º ano do ensino Médio do Colégio Luciano Feijão, em Sobral. O nome escolhido faz referência à musa da História na mitologia grega, e é a primeira vez dos três na Grande Final.
A afinidade do trio, porém, começou longe dos livros didáticos. Segundo eles, são grandes jogadores e criadores de RPG, o que inspira os alunos já que, acreditam, a Olimpíada também é um jogo. Ao longo das seis fases online, a rotina foi marcada por encontros frequentes, debates e muitas horas de pesquisa.
Para Ana Beatriz, um dos maiores diferenciais da ONHB é a possibilidade de conhecer temas e personagens pouco presentes no currículo tradicional.
“A gente pesquisou assuntos sobre os quais nunca tinha ouvido falar. Conhecemos histórias de mulheres cientistas, trabalhamos fotografias, obras de arte e documentos que ampliaram completamente a nossa perspectiva”, diz ela.
Além do aprendizado, a estudante destaca o fortalecimento dos laços entre os integrantes da equipe. “É uma Olimpíada que faz a gente se unir muito”, destaca.
Como funciona a ONHB
A 18ª Olimpíada Nacional em História do Brasil começou em maio com 64.187 equipes de todos os estados brasileiros, sendo 22.455 do Ensino Fundamental e 41.732 do Ensino Médio.
A competição é destinada a estudantes do 8º e 9º anos do Ensino Fundamental e das três séries do Ensino Médio. As equipes são compostas por três alunos e um professor de História, que atua como orientador durante toda a competição.
Ao longo de seis fases online, realizadas entre maio e junho, os participantes respondem a questões de múltipla escolha e desenvolvem tarefas baseadas em pesquisa, análise de documentos históricos e debates.
Além da disputa por medalhas, os finalistas também podem realizar uma prova individual para concorrer às Vagas Olímpicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Medalhistas da ONHB podem ingressar na instituição sem vestibular, e as conquistas também são aceitas por outras universidades, como a Universidade Federal do Ceará (UFC).
A grande final presencial da 18ª edição acontece nos dias 29 de agosto, com a prova, e 30 de agosto, quando será realizada a cerimônia de premiação, em Campinas (SP).