A saudade supervaloriza o passado

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Eu me considero bastante nostálgica. Mas esse texto não é sobre mim. É sobre essa saudade (?) que temos de algum tempo bom do passado. Geralmente, uma saudade de um tempo que hoje parece ser melhor do que realmente foi.

Eu, cansada, cuidando integralmente de um bebê de 3 meses, apesar de feliz (depois conversaremos sobre a diferença entre cansaço e tristeza), de vez em quando me pego com saudade de quando acordava num sábado pra ir andar na praia ou beber uma caipirinha sem compromisso e sem hora pra voltar.

Mas, oras, por que não sentiria saudade? Tempo bom. E era realmente bom. Eu fazia muito isso aos 20 e poucos anos. Era bom demais.

Tão bom que parece que hoje é melhor do que realmente era na época.

Essa coisa da gente superestimar um passado porque nosso presente está cansativo ou desgastante. Eu lembro que na época da caipirinha eu era feliz mas também lembro que eu me sentia muito só muitas vezes.

Juventude cheia de questionamento (tão longe da cabeça que eu tenho hoje), uma ressaca moral de tantas coisas que aconteciam naquela juventude intensa que foi boa mas deixou marcas também. Nem tudo era 100% bom assim como hoje. Sentimento de realização passava longe. Mas parece ser perfeito nas lembranças de uma adulta cansada.

A gente é assim mesmo. Até a grama da nossa casa do passado parece ser melhor que a grama da casa que nos mudamos. Mesmo que nossa casa hoje seja maior, mais ampla, melhor. Naquela época a grama não parecia tão linda, mas hoje, quando lembramos, nos apegamos como se ela fosse mais verde do que era na realidade. É... o ser humano é meio assim, né? Por mais que se ame tem um quê de dor, um quê de saudosismo.

Deixo explicado aqui que, claro, há épocas boas que deixam saudades e às vezes melhores do que a que vivemos hoje. Mas é bom a gente lembrar que também havia saudade naquela época - Deus sabe de que - e a vontade de viver uma vida ainda não almejada.

Hoje eu continuo nostálgica. Me rendo a uma CD da Britney Spears como nenhum outro. Mas consigo pegar o caminho de volta quando me vejo desfrutando mais o passado do que esse presente aqui que muitas vezes é duro, mas extraordinário.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.