Acordo com o tempo

Legenda: O diálogo com o tempo
Foto: Shutter

Eu nunca soube lidar com a passagem de tempo. Essa coisa do viver agora sempre foi muito clara pra mim mas mesmo assim não sei lidar com a passagem do tempo. Com o que acaba, com o que vai, com o que fica só na memória. Mas quando a gente tem filhos, ahhh.. quando a gente tem filhos, o tempo briga com a gente e diz: “espero que tenha aproveitado nossa amizade porque agora a coisa vai engrossar pro seu lado”.

E ele fica meio brigado com a gente mesmo. Até agora estamos brigados desde que engravidei até hoje (2 meses depois do nascimento da minha filha). E até hoje tento que fazer com que a gente mantenha uma relação saudável.

Tivemos uma discussão nos meus primeiros meses de gravidez: eu e o tempo. Os dias pareciam não ter fim, eu enjoei todos os dias por 16 semanas. Eu só pedia pra passar logo pra viver a gravidez mais tranquila e passou. Não tão logo, mas passou. Ele me deu uma trégua, parecia estar de acordo com a maneira como eu gostaria de viver.

E aí quando ela nasceu, tentamos um acordo: noites rápidas, dias longos. Ele não topou de cara mas depois, conversando, eu vi que dava pra fazer algo e conviver melhor com ele. E fiz. E faço: canto pra dormir, observo a letra da música, os cílios dos olhos, converso sobre o presente, sobre o futuro, o cabelo que cresceu atrás, converso sobre o hoje pra que ela seja amiga dele – do tempo. Sinto o cheiro, apoio os dedos no meu braço, percebo se ainda cabe nas pernas.

E quando eu pensei que nossa parceria (eu e o tempo) estava melhorando, eis que, ontem, dando banho de chuveiro, como fazemos toda noite, meu marido fala: “ela tá se mexendo muito, acho que não vai dar mais pra dar banho de chuveiro”.

Aquilo veio como um tiro na minha cara. Significava tantas coisas: um crescimento, o término do nosso ritual desde que ela chegou aqui, uma nova etapa, um novo momento. E o tempo, àquele com quem mais tentei preservar a amizade todos os dias, todas as horas, mais uma vez me lembrou que ele pode ser amigo mas tem sua própria jornada.

O tempo. Ele não é muito de fazer acordo quando temos filhos: os dias passam lentos e os meses passam rápidos. Ele é o que é. E mesmo se for um acordo unilateral, é preciso conversar e vive-lo porque ele vai passar, brigados ou não, do mesmo jeito. 

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.



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