A bagunça também dá forma ao lar

A casa nunca esteve tão bagunçada, mas ao mesmo tempo com tudo no lugar

Legenda: A casa está limpa mas com o papel na parede, o varal, o tapete de criança, a baleia de plástico que a cachorra rasgou, no chão
Foto: Masarik/ Shutterstock
Já passava 20 dias desde o Dia dos Pais. Os cartazes com as frases de parabéns, “nós te amamos” ainda estavam na parede. Ninguém tinha tirado até então. Não foi falta de tempo da minha parte e nem esquecimento. Ao contrário. Simplesmente ninguém tirou. Todo dia eu via. A marca de um dia bom, uma lembrança de que nos amamos mesmo depois de uma briga e alguns choros de cansaço durante esses 20 dias. 
 
Ao longo desses dias, quando íamos na sala, não era uma sala vazia. Era uma sala com alguns cartazes do Dia dos pais, data que envelheceu por já ser quase setembro, mas a mensagem não.
 
Lembrei do  varal de fotos polaroid em cima do meu sofá. Ganhei essas fotos quando fui fazer um trabalho, elas tinham que aparecer no fundo. Fotos aleatórias minhas, da minha família que tá longe. O trabalho passou e o varal continua lá. Também não esquecemos, apenas deixamos. Não propositalmente. Simplesmente ninguém tirou.
 
Lembro sempre o quanto meus sobrinhos cresceram desde o dia em que aquelas fotos eram consideradas recentes. E quando você passa pela casa, cruza com cartazes, fotos, varal, uns brinquedos de cachorro, uma cadeirinha de criança.
 
 
Quando a Nice, a diarista que vem uma vez por semana, chega aqui, ela organiza toda a casa. E quando ela sai, a casa está limpa mas com o papel na parede, o varal, o tapete de criança, a baleia de plástico que a Arya (a cachorra) rasgou, no chão.
 
É fato que a casa nunca esteve tão bagunçada, mas ao mesmo tempo com tudo no lugar. Um lugar com frases de amor, com faixa de feliz aniversário, declarações antigas que perduram. Não provocamos isso, fica por aí espalhado porque simplesmente ninguém tirou. 
 
Há uma certa graça na bagunça, um certo brilho que não vem na faxina. Uma bagunça organizada, uma casa com, no fim das contas, tudo no lugar. Objetos que não se compram pra colocar num projeto arquitetônico ou usar como decoração que simplesmente ninguém tirou. 
 
Eles vão chegando à medida que vamos vivendo. Uma casa, que, ao entrar, você repara a bagunça e a vida acontecendo. Muita vida.
 
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.