Associação cearense de crítica audiovisual celebra 10 anos com programação neste sábado (4)

Entidade promove mostra comemorativa e lança primeira edição de nova revista.

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
Legenda: Curtas premiados pela Aceccine ao longo dos 10 anos da entidade, "Elusão", "Barra Nova" e "Vando Vulgo Vedita" serão exibidos especialmente no Cinema do Dragão.
Foto: Reprodução.

Organizar e fortalecer a crítica cinematográfica no Ceará e, com isso, destacar e refletir sobre o cinema produzido no Estado e no Brasil. Com este norte, surgia há 10 anos a Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine).

Em cenário de pujança da produção audiovisual, em especial cearense e nordestina, e de desafios para a atividade intelectual de crítica e pesquisa cinematográficas, a entidade promove série de programações para celebrar o aniversário e debater a prática.

A agenda, promovida neste sábado (4) no Cinema do Dragão, inclui lançamento de publicação, debate com integrantes e exibição de quatro curtas premiados pela instituição.

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Legados construídos

“Este marco nos oferece a oportunidade de revisitar uma década de trabalho em defesa da crítica de cinema no Ceará”, resume Raiane Ferreira, que foi presidente da Aceccine na gestão 2024-2026.

“Mais do que uma celebração, é um momento de reflexão sobre o legado construído até aqui e sobre os caminhos que desejamos seguir nos próximos anos”, avança a crítica de cinema e pesquisadora.

Primeiro presidente da Acceccine, Diego Benevides lembra que o grupo surgiu tendo como referência o trabalho “consolidado” de associações regionais do tipo. Alguns dos sócios-fundadores já eram membros da Associação Brasileira de Críticos de Cinema, que deu suporte nos anos iniciais.

Membros da Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine) posam reunidos em um ambiente interno iluminado, sorrindo para a foto dispostos em pé e sentados em um sofá. A imagem faz parte de uma página do jornal Diário do Nordeste, com o título principal 'Para valorizar a crítica e reconhecer a produção local' em grande destaque no topo.
Legenda: Diário do Nordeste destacou início das atividades da Aceccine em matéria publicada no Caderno 3 em 3/6/2016.
Foto: Acervo.

“A intenção era criar, no Ceará, uma entidade inspirada nesses modelos e, consequentemente, fortalecer tanto a atividade intelectual da crítica cinematográfica quanto a valorização do cinema produzido no estado e no Brasil”, recupera.

O crítico e pesquisador, esteve à frente da entidade nos quatro anos iniciais, que define como “um período de estruturação”. “Foi essencial reconhecer as limitações e os desafios de uma entidade sem fins lucrativos, independente de patrocínios diretos”, reconhece.

“Era preciso compreender como inseri-la nos espaços de discussão, articular a participação e a permanência dos associados nos festivais locais e nacionais e construir um organismo intelectual capaz de se sustentar a longo prazo”
Diego Benevides
crítico e pesquisador

Uma plateia lota os assentos vermelhos de uma sala de cinema com paredes escuras e detalhes geométricos em vermelho nas laterais. Duas mulheres, de costas para a câmera na parte inferior central, parecem conduzir um debate ou apresentação para o público atento.
Legenda: Entre ações promovidas pela Aceccine ao longo dos anos, estão mostras como "Fortaleza à Margem", realizada no Cinema do Dragão em 2023.
Foto: Divulgação.

Ações como mostras especiais, participação em júris da crítica de festivais cearenses e nacionais e dossiês críticos sobre obras e eventos, entre outros, compuseram e seguem ocorrendo no escopo da associação.

Conforme o primeiro presidente — que a partir deste mês de julho retorna à diretoria da entidade, como vice-presidente do biênio 2026-2028 —, a colaboração e a coletividade estabelecidas na época passaram a ser marca da Acceccine e a orientar as ações das gestões posteriores.

Publicação crítica é retomada para celebrar 10 anos da Aceccine

“Desde a gestão anterior, já existia o desejo de retomar um periódico da Aceccine”, contextualiza Raiane. Em 2017, no segundo ano da entidade, os integrantes se reuniram para lançar a revista Movimento.

Em alusão ao histórico da associação, a vontade expressa pela ex-presidente se concretizou como uma das formas de comemoração dos 10 anos da publicação. A nova revista levou o nome de Cinese, que vem do grego kinesis (movimento), e ficará disponível on-line a partir deste sábado (4).

O lançamento presencial acontece no Cinema do Dragão também neste dia 4, a partir das 17 horas, com entrada gratuita.

Uma Comissão Editorial — composta por Raiane, o vice-presidente da gestão 2024-2026 Daniel Araújo e os associados Arthur Gadelha e Thiago Henrique Sena — esteve à frente dessa retomada.

A revista, destaca a ex-presidente, buscou “incentivar uma participação mais ampla do corpo de críticos da associação, oferecendo liberdade para que cada autor apresentasse textos alinhados aos seus próprios interesses e pesquisas”.

“O resultado foi uma edição que reúne reflexões sobre diferentes épocas, estilos e cinematografias, com especial destaque para o cinema cearense, sem perder de vista o diálogo com a produção brasileira e internacional”, avalia.

Debate e mostra também marcam comemorações

O evento de lançamento da Cinese, destaca Raiane, foi pensado para “reunir associados, parceiros e representantes da sociedade civil que contribuíram para a construção dessa trajetória”. 

A programação, elaborada em parceria com o curador Fábio Rodrigues, do Cinema do Dragão, inclui uma mesa-redonda sobre a história da entidade e da crítica de cinema, com associados de diferentes épocas.

Haverá, ainda, a realização da Mostra Aceccine, que exibirá quatro curtas premiados pela associação ao longo dos anos, numa seleção que evidencia “a diversidade e a riqueza da produção audiovisual que marcou sua trajetória ao longo dos anos”, diz Raiane.

  • “Vando Vulgo Vedita” (2017), de Andreia Pires e Leonardo Mouramateus (CE)
  • “Elusão” (2022), de Taís Augusto (CE)
  • “Barra Nova” (2023), de Diego Maia (CE)
  • “A Gente Acaba Aqui” (2021), de Everlane Moraes (SE) 

“A composição da mostra reúne três produções cearenses e um filme sergipano, reafirmando o compromisso da Aceccine com a valorização do cinema nordestino e de sua pluralidade de olhares. Também foi priorizada a diversidade de linguagens e formatos, apresentando ao público um panorama que transita entre a ficção, o documentário e a animação, evidenciando a amplitude estética do cinema”
Raiane Ferreira
crítica e pesquisadora

A mostra também se destaca pela participação feminina por trás das câmeras, com três dos quatro filmes exibidos sendo dirigidos por mulheres.

“Esse recorte reforça a importância da presença das realizadoras no cinema contemporâneo e reconhece suas contribuições para a renovação das narrativas, das estéticas e das perspectivas presentes na produção audiovisual brasileira”, aponta Raiane, que pesquisa o tema.

Cinema cearense de lá e de hoje

Instados pela coluna, os dois críticos avaliaram o que permaneceu e se modificou no campo do cinema cearense ao longo da trajetória da Aceccine. As respostas destacaram diversidades, políticas públicas e o papel da crítica neste contexto de permanências e impermanências.

“Quando penso no cinema cearense, reflito imediatamente sobre o crescimento da produção audiovisual, sempre muito diversa, e o fortalecimento das políticas públicas que possibilitaram que o Ceará se tornasse um pólo riquíssimo de experimentação e de reconhecimento nacional e internacional”, aponta Diego.

“Vimos o cinema chegar a outros bairros, alcançar o interior do estado e ser reivindicado por vozes cada vez mais plurais. Não é um erro dizer que vivemos um ótimo momento da produção cearense que depende da continuidade, do aprimoramento das políticas de incentivo e, mais ainda, das oportunidades”
Diego Benevides
crítico e pesquisador

Em diálogo, Raiane destaca “um caminho de solidez e muita criatividade artística” pavimentado por realizadores cearenses no próprio Estado ou em parcerias. 

“A força da nossa produção não passa apenas pela produção isolada dos filmes enquanto produtos artísticos em si. Ela passa por toda um circuito que conecta ações de educação e formação no audiovisual, pela construção de políticas públicas que garantam a manutenção e o estabelecimento de programas, leis de incentivo e marcos para o nosso cinema”, avança.

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A pesquisadora e crítica ressalta, ainda, o “trabalho contínuo” de instituições como a própria Aceccine, “na sua função de prestar apoio e de divulgar e refletir sobre as práticas do cinema no estado”.

Diego lembra das transformações da própria crítica e do “ecossistema da comunicação cultural”, com estabelecimento de outras plataformas e formas de debater o campo — sem esquecer desafios como reconhecimento e remuneração. 

“Independentemente do cenário, que nem sempre é tão favorável aos profissionais do cinema quanto pode parecer, cabe à crítica preservar a inquietação em torno das obras audiovisuais e manter o compromisso com esse campo cheio de complexidades”, defende o pesquisador.

*O colunista é membro da Aceccine e passará a integrar o Conselho Fiscal da diretoria 2026-2028

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