A mulher que precisa gestar um filho e também um pai
Ausência emocional do parceiro durante a gestação expõe impactos silenciosos na saúde mental das mães.
Existe uma solidão que pouco se fala durante a gravidez. Ela não aparece nos ensaios fotográficos, nos quartos decorados ou nos vídeos emocionantes da descoberta do teste positivo. É silenciosa, construída aos poucos, dentro de mulheres que percebem que, enquanto um filho cresce em seus corpos, elas também precisam ensinar alguém a ocupar o lugar de pai.
O relato recente de Rafa Kalimann no documentário "Tempo Para Amar" trouxe novamente essa discussão à tona. Rafa revelou ter enfrentado dificuldades no relacionamento com Nattan durante a gestação da filha do casal, Zuza. Disse ter se sentido sozinha diante da intensa rotina profissional do cantor. O casal afirmou que precisou buscar ajuda profissional para enfrentar a crise.
Nattan afirmou que a rotina intensa de shows o deixou disperso e admitiu que, mesmo quando estava em casa, nem sempre conseguia compreender o sentimento de solidão vivido por Rafa Kalimann naquele período.
A história de Rafa ultrapassa o universo das celebridades porque encontra eco em milhares de mulheres comuns. Mulheres que, muitas vezes, precisam administrar uma dupla gestação: a do filho e a da maturidade emocional do próprio parceiro.
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Lugar de pertencimento
A gestação é arrebatadora. Ela atravessa a mulher por inteiro. Muda o corpo, altera os afetos, reorganiza prioridades, desperta medos antigos e cria novos. E talvez uma das dores mais difíceis desse processo seja perceber que nem sempre quem está ao lado consegue compreender a profundidade dessa travessia.
Enquanto a maternidade costuma começar imediatamente para a mulher, para muitos homens a paternidade ainda chega de maneira tardia, gradual e, em alguns casos, confortável demais.
Há homens que continuam vivendo quase intactos enquanto a mulher aprende a existir em um corpo que já não reconhece completamente. E isso não acontece apenas por falta de amor, acontece porque a própria sociedade ensinou esse homem a acreditar que a gravidez pertence mais à mulher do que a ele.
Para Ana Paula Ferreira, doutora em Psicologia Cognitiva, existe uma sobrecarga emocional silenciosa que atravessa a experiência da maternidade. “Em um momento em que a mulher precisa de sustentação, acolhimento e amparo emocional, muitas vezes ela acaba assumindo também o papel de mediadora da construção emocional da própria paternidade”, explica.
Segundo a especialista, a maternidade costuma provocar transformações imediatas, profundas e inevitáveis na vida da mulher. Já para muitos homens, a paternidade nem sempre produz, no mesmo tempo e intensidade, essa reorganização psíquica e cotidiana. E é justamente nesse descompasso que muitas mulheres acabam vivendo uma solidão difícil de nomear.
Existe uma expectativa de que a mulher compreenda a ausência, normalize a distração, acolha a imaturidade e permaneça emocionalmente disponível, mesmo quando está tentando se reorganizar por dentro. E talvez uma das maiores injustiças seja justamente essa cobrança silenciosa de força o tempo inteiro.
A responsabilidade é coletiva
A mulher grávida precisa sentir que não está atravessando sozinha um dos momentos mais transformadores da vida. Se o homem não sente no próprio corpo os enjoos, os medos, as dores e o peso físico da gestação, que ele possa ao menos ser o lugar seguro onde essa mulher descansa emocionalmente.
Quando a sociedade normaliza homens emocionalmente ausentes durante a gravidez, ela empurra ainda mais peso para mulheres que já estão fragilizadas pelas transformações do maternar. Quando tratamos a paternidade como algo secundário, opcional ou menos exigente, reforçamos a ideia de que o cuidado continua sendo uma obrigação quase exclusiva da mulher.
Ana Paula alerta para os impactos da sobrecarga emocional na maternidade, destacando que ela pode aumentar o risco de ansiedade e depressão durante a gestação e no pós-parto, além de intensificar sentimento de culpa, inadequação, tristeza e irritabilidade. Esse cenário ajuda a explicar por que tantas mães se sentem culpadas por pedir o mínimo.
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“É um processo de transformação, uma construção diária baseado em presença, vínculo e responsabilidades compartilhadas. Isso vai exigir do casal revisar prioridades e lidar com perdas. Redefinir papéis e aprender novas formas de amar e cuidar”
Essa reflexão também atravessa discussões urgentes sobre direitos trabalhistas, licença parental, assistência psicológica e políticas públicas de acolhimento à maternidade. Proteger uma mulher durante a gestação não deveria ser visto como privilégio ou gentileza. É responsabilidade social.
Nenhuma mulher deveria se sentir sozinha enquanto gera uma vida. Uma sociedade mais saudável começa quando entendemos que gestar não é uma tarefa individual. Que maternidade não pode ser sinônimo de sobrecarga. E que a presença paterna não é favor, ajuda ou participação eventual. É compromisso.
Enquanto nasce um filho, nasce também uma nova mulher. E toda mulher merece atravessar esse nascimento sendo cuidada.