Quando a motivação escorrega para a gordofobia
O recente vídeo intitulado “30 gordos x 1 treinador” reacendeu um debate urgente: a maneira como nossa sociedade trata pessoas gordas
Cá estou, mais uma vez, para falar de mais um conteúdo viral da internet e dos prejuízos que ele causa. Para quem não viu, há pouco mais de uma semana, foi publicado no Canal Foco o vídeo “1 treinador vs. 30 gordos”, e o que poderia ser só mais um conteúdo descartável de internet, virou um desfile de preconceito embalado de “motivação”.
O treinador, com a pompa de quem acredita estar desvendando o segredo do universo, soltou a pérola: “Só é gordo quem quer”. É quase comovente ver tanta certeza brotar da mais completa ignorância.
Vamos aos fatos: se engordar ou emagrecer fosse apenas questão de querer, o mundo fitness já teria resolvido a equação da humanidade. Não existiriam estudos sobre genética, metabolismo, hormônios, desigualdade social ou transtornos alimentares. Bastaria um "quero" bem decidido diante do espelho.
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Mas a vida real é mais complexa do que o discurso simplista de quem acha que falar grosso substitui leitura científica.
O treinador não está preocupado com saúde. Se estivesse mesmo saberia que saúde não se mede apenas em quilos ou porcentagens de gordura e estaria muito mais preocupado com o recente boom do uso de anabolizantes, por exemplo.
Mas para quê pensar dessa forma, não é mesmo? Especialmente, se ele pode ganhar tanto dinheiro com vergonha e culpabilização. Ele vende a ideia de que pessoas gordas são preguiçosas, culpadas e inferiores e essa mercadoria, chamada gordofobia, está em liquidação todos os dias: nas piadas, nos olhares tortos, nas consultas médicas em que o tratamento universal é “emagreça”.
E convenhamos, que tipo de “educador físico” acredita que humilhar alguém é pedagógico? É como se um professor de matemática gritasse que só é burro quem quer. Não é motivação, é crueldade. Não aproxima ninguém da saúde, apenas reforça o isolamento, a culpa e a rejeição. Pessoas não florescem em terreno regado a ódio.
Esse vídeo, na prática, mostra a arrogância de quem confunde disciplina com superioridade moral e escancara o desprezo pela ciência, pela empatia e pela dignidade alheia. É aqui que precisamos ser claros: gordofobia não é opinião, não é estilo de comunicação, não é “verdade dura”. Gordofobia é violência e violência não educa, não motiva, não transforma. Cada vez que um discurso desses ganha palco, reforçamos a ideia de que pessoas gordas merecem menos. Isso não é evolução: é barbárie com microfone.
O que precisamos mesmo é de políticas públicas que garantam acesso à saúde sem estigma, de profissionais que saibam olhar para além da balança, de uma cultura que entenda que dignidade não cabe em tabelas de IMC. O verdadeiro passo à frente não é repetir insultos disfarçados de motivação, mas sepultar de vez a lógica cruel de que apenas alguns corpos são dignos.
No fim, o que sobra é a pergunta incômoda: até quando vamos permitir que a gordofobia circule mascarada de sinceridade? É fácil bancar o herói quando o inimigo é um estereótipo. Difícil mesmo é encarar a própria mediocridade porque, se há algo que “só é ignorante quem quer”, é achar que humilhação é caminho para evolução.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora