Chuva de julho em Fortaleza, e a culpa não é da borboleta

Encerrada a quadra, entra a pós-estação, de junho a novembro, e o protagonismo passa para as ondas de leste.

Escrito por
Ednardo Rodrigues producaodiario@svm.com.br
Legenda: Tempo nublado na Praia de Iracema, em Fortaleza.
Foto: Camila Lima.

Você já deve ter ouvido a frase: o bater de asas de uma borboleta de um lado do mundo provoca uma tempestade do outro. A versão original, poucos sabem, fala do Brasil.

Foi o meteorologista Philip Merilees quem, em 1972, deu ao trabalho de Edward Lorenz o título que ficou famoso: "o bater de asas de uma borboleta no Brasil desencadeia um tornado no Texas?". A borboleta era brasileira e o tornado, texano. Lorenz nem tinha escrito aquilo. Tinha apenas mostrado, em 1961, que arredondar um número na quarta casa decimal, de 0,506127 para 0,506, bastava para o seu modelo de tempo prever um clima completamente diferente.

Depois disso, cada um recontou do seu jeito. James Gleick, no livro que popularizou o caos em 1987, trocou o par e pôs a borboleta em Pequim e a tempestade em Nova York. A frase que fala sobre coisas mudarem por causa de um detalhe mínimo mudou ela mesma a cada vez que foi repetida.

Hollywood fechou o pacote com o filme "Efeito Borboleta", de 2004, estrelado por Ashton Kutcher, que ainda ganhou duas continuações, em 2006 e 2009. Gosto das três.

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Conto isso porque choveu em Fortaleza esta semana, e a pergunta apareceu de novo, do jeito que aparece todo ano: chuva em julho? O que está acontecendo?

Vale um esclarecimento sobre a medida, porque ela costuma confundir. A chuva é medida em milímetros. Imagine uma caixa aberta, de um metro por um metro de base, deixada no quintal. Se ao fim do dia a água acumulada dentro dela chega a 15 mm de altura, choveu 15 mm. A conta fica fácil de sentir no braço, pois cada milímetro nessa caixa equivale a um litro de água. Quinze milímetros são quinze litros por metro quadrado, no nosso caso espalhados por um mês inteiro. É quase nada.

Essa é a média de julho para o Estado do Ceará: 15,4 mm, pela série da Funceme. Junho fica em 37,5 mm e agosto cai para 4,9 mm. Fortaleza é caso à parte, porque o litoral tem vida própria, e a estação do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) na capital marca normal em torno de 70 mm no mês. Ou seja, julho chove, ainda que pouco e salteado. É o comportamento normal do mês.

O que muda depois de maio é o "motor". Na quadra chuvosa, de fevereiro a maio, quem manda geralmente é a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), a faixa de nuvens que desce sobre o Nordeste e despeja 80% do que cai no ano inteiro.

Encerrada a quadra, entra a pós-estação, de junho a novembro, e o protagonismo passa para as ondas de leste. São ondulações que atravessam o Atlântico equatorial vindo da África, viajando pelo próprio ar como marolas invisíveis de vento e pressão.

Quando uma delas chega à costa, empurra para cima o ar úmido que já está aqui. Ar úmido subindo vira nuvem, e nuvem bastante vira pancada. Junte a brisa do mar e o calor da tarde e você tem a chuva rápida que apanha desprevenido quem já dava o tempo chuvoso por encerrado.

Fui aos números deste ano, e eles contam uma história curiosa. Até o dia 20, Fortaleza tinha somado cerca de 18 mm em julho, menos da metade da normal do mês. E a tendência aponta para a escassez: o Boletim Agroclimático do Inmet, feito com Funceme e CPTEC/Inpe, projeta para julho, agosto e setembro temperaturas de 0,5 °C a 1 °C acima da média e chuva abaixo do normal em boa parte do Estado.

Pesa nisso o fenômeno El Niño, o aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial que desorganiza a circulação atmosférica e, no Nordeste, costuma inibir a formação de chuva. Quando ele se instala, a nossa terra tende a secar.

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Duas chuvas

Falei até aqui da chuva de água. Julho, no entanto, reserva outra, de meteoros: as Delta Aquáridas, que atingem o pico no fim do mês.

Esta, ao contrário da anterior, tem data e hora certas para acontecer. Afinal, a órbita do cometa que a alimenta obedece à gravidade e se calcula com a física de Newton e um pouco de paciência.

​Guardo os detalhes para a próxima coluna: o ponto do céu de onde os meteoros vão surgir, a melhor noite para observar, quantos riscarão o horizonte por hora e como escapar das luzes da cidade para ver o fenômeno. Enquanto a água cai sem avisar, a chuva de meteoros já está no relógio. É sobre ela que falaremos na semana que vem.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor. 

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