Ceará

'Super' El Niño: o que o Ceará planejou para lidar com eventos climáticos extremos

Alexia Vieira alexia.vieira@svm.com.br
21/07/2026 - 14:10 (Atualizado em 21/07/2026)

Não é de hoje que o Ceará precisa se preocupar com risco de desabastecimento, escassez hídrica ou índices altos de evaporação das reservas de água. Os desafios de convivência com um clima semiárido moldam o Estado há séculos. A última grande seca, registrada há uma década, intensificou ações emergenciais e mostrou a urgência de avançar em obras estruturantes. 

Ocorrendo em concomitância com o fenômeno El Niño de intensidade muito forte, o período exigiu uma diversificação da matriz hídrica cearense, mas também um olhar para o futuro. 

Segundo o diretor técnico da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), Francisco Vasconcelos Júnior, o Ceará avançou na capacidade de lidar com eventos climáticos desde 2016. Ele afirma que, hoje, o Estado conta com uma rede mais estruturada de acompanhamento climático, gestão de recursos hídricos, defesa civil, agricultura e meio ambiente.

“Tem investido em tecnologia, monitoramento e previsão climática sazonal, especialmente no acompanhamento da evolução das anomalias de temperatura da superfície do mar no Atlântico Tropical e no Pacífico", diz.

Além disso, Francisco defende que a gestão dos recursos hídricos e da agricultura está mais madura, com maior uso da informação climática para apoiar decisões, planejar ações preventivas e reduzir os impactos sobre a população e os setores produtivos.

Essas ações ajudam a antecipar cenários de risco, mesmo que a vulnerabilidade aos eventos climáticos extremos continue existindo. 

Depois de dez anos do último “Super El Niño”, o Diário do Nordeste lembra uma das piores secas já registradas no Ceará, as ações emergenciais de convivência com a seca, as soluções de longo prazo adotadas pelo Estado e as políticas públicas para lidar com eventos climáticos extremos na área da saúde.

O nível de resiliência conquistado pode ser testado nos próximos meses, com a confirmação de um novo El Niño. Projeções indicam que há 81% de chance de o evento ser novamente muito forte a partir de outubro, podendo ser um dos mais intensos já registrados nos últimos 50 anos.

Apesar de ser um fenômeno natural de aquecimento das águas do oceano Pacífico, já estudado pela ciência há muitos anos e ter efeitos conhecidos sobre o clima do Nordeste e do Ceará — como diminuição das chuvas e aumento das temperaturas — uma combinação preocupa: um “super” El Niño em um planeta cada vez mais aquecido

Conforme o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), principal órgão das Nações Unidas dedicado ao tema, há um entendimento consolidado de que o aquecimento global pode aumentar a frequência e a intensidade de extremos climáticos. 

Fenômenos naturais como o El Niño passam a atuar, portanto, em uma atmosfera mais quente e com maior disponibilidade de energia e vapor d'água. As consequências podem expor fragilidades em locais como o Ceará, onde já há dificuldade histórica de garantir segurança hídrica. 

Super El Niño

Ações de emergência e diversificação de técnicas

“Esse último período seco fez com que a gente ficasse muito mais resiliente a essas situações. A gente se preparou com essas grandes estruturas, mas também com pequenas obras”, relembra o secretário de Recursos Hídricos do Estado, Ramon Rodrigues.

Perfurações de poços, instalação de dessalinizadores, adutoras de montagem rápida, cisternas, chafarizes, técnicas alternativas de captação de água em açudes secos e em açudes urbanos foram alguns dos métodos utilizados pelo Ceará para lidar com a escassez hídrica nos piores momentos de seca. 

“Você tem que jogar tudo na sua matriz, porque a soma disso é que nos dá garantia de que a população não vai sofrer. Nós não podemos desperdiçar nada. Nos anos melhores, a gente utiliza aquelas tecnologias mais razoáveis e econômicas. Mas num período de seca, você tem que usar tudo isso”, diz Ramon.

Foto de cisterna ao lado de casa em área rural.
Foto de um homem olhando a água de uma adutora chegar num tanque.
Foto de homens utilizando maquinário para perfurar poços.
Legenda: Diversas técnicas, como adutoras, cisternas e poços, foram utilizadas para driblar a seca.
Foto: Alex Pimentel/Antônio Carlos Alves/Honório Barbosa.

Alguns dos métodos, como as adutoras de montagem rápida, foram essenciais para garantir água suficiente a regiões distantes de açudes maiores, mas não funcionaram como estruturas de longa duração. Já cisternas, poços e dessalinizadores são utilizados até hoje e seguem como técnicas de convivência com o semiárido.

Helder Cortez, assessor da presidência da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), afirma que cerca de 6.820 poços foram construídos pela Superintendência de Obras Hidráulicas (Sohidra) de 2015 a 2019. O número representa mais da metade de todos os poços perfurados pela entidade desde sua criação, em 1987. 

Para driblar o problema das águas salobras, dessalinizadores foram instalados junto aos poços para garantir a água potável. No âmbito do programa federal Água Doce, foram destinados cerca de R$ 54 milhões para a instalação de 252 dessalinizadores em 44 cidades do Ceará.

As cisternas, reservatórios de baixo custo implementados nas residências de famílias de baixa renda em áreas rurais, foram uma das tecnologias mais importantes para sustentar a vida no campo durante a estiagem.

De 2012 a 2017, foram construídas 152.364 cisternas no Ceará, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). Foi o período de maior execução da política. 

Depois de 2017, o programa teve cortes de verbas e quedas sucessivas nas quantidades instaladas anualmente. Os números de novas cisternas só cresceram novamente em 2023, quando a política foi retomada pelo Governo Federal.

Segundo Ramon, o período serviu para chegar próximo à universalização das cisternas no Ceará. 

Super El Niño

Eixão, Malha D’água e Cinturão: as obras estruturantes que são apostas para o futuro

Depois de um século marcado pela política de construção de açudes, o Ceará mudou o foco para grandes obras de transferência entre bacias

“A gente notou que esses reservatórios nunca estavam onde a demanda estava. Então, a gente tinha que fazer a ligação desses reservatórios com as principais demandas”, explica Ramon Rodrigues. 

Com isso, vem se intensificando a criação do que o especialista Flávio Rodrigues do Nascimento chama de “arquitetura de convivência com as secas”. Flávio é coordenador do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação das Secas do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (MMA) e professor titular da Universidade Federal do Ceará (UFC). 

Eixão das Águas está sendo duplicado para levar mais água do Castanhão para a RMF.
Legenda: Eixão das Águas está sendo duplicado para levar mais água do Castanhão para a RMF.
Foto: Cid Barbosa.

“O Ceará tem uma malha de interligação de canais bem interessante, a mais desenvolvida do País. Você tem de ter diversas frentes de combate, de convivência e de resiliência em relação a essa questão. Uma delas é a malha hídrica e a infraestrutura hídrica”, afirma o professor.

A primeira grande obra de transferência foi o Canal do Trabalhador, em 1994. Com 102,5 km, o canal, que começa no município de Itaiçaba e termina em Pacajus, tinha como objetivo levar água do Rio Jaguaribe para o abastecimento da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF).

Em 2003, foi iniciada a obra do Eixão das Águas. O sistema transfere as águas do Castanhão para a RMF, indo até o Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp), mas também atende a demanda ao longo do Eixão. Viajando por mais de 256 km, o recurso chega à região metropolitana com uma vazão de 11 metros cúbicos por segundo (m³/s). 

“Só que a RMF está consumindo isso. Quando vem uma seca e eu preciso trazer água do Castanhão para a RMF, eu fico sem poder atender aos outros usos ao longo do Eixão, como grandes projetos de irrigação, indústrias e outros usuários. Então, a gente está duplicando”, expõe Ramon. 

R$ 1,2 bilhão
é o investimento para a duplicação do Eixão das Águas, por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). 

A duplicação vai permitir dobrar a vazão do recurso transferido, chegando a 22 m³/s. No caminho, o canal também atende três distritos industriais (Maracanaú, Horizonte e Pacajus) e os distritos de irrigação Jaguaribe-Apodi e Tabuleiro de Russas. Conforme Ramon, a obra está com 65% de execução e tem expectativa de conclusão para o segundo semestre de 2027.

Já o Cinturão das Águas (CAC) é a aposta para melhorar a transferência de águas no Cariri. A estrutura recebe águas do Eixo Norte do Projeto de Transposição do Rio São Francisco (Pisf) a partir da barragem de Jati, no município de mesmo nome. 

O canal segue por 145 km, fazendo a água alcançar os municípios de Juazeiro do Norte, Crato, Barbalha, Caririaçu, Farias Brito, Nova Olinda e Santana do Cariri, chegando por diversos canais até a Grande Fortaleza. Está 92% concluído.

“Essa é uma obra importantíssima porque vai abastecer o segundo polo urbano do Estado (Cariri), que hoje é todo abastecido por águas subterrâneas”, relata o secretário.

A ideia é que, a partir do CAC, o recurso subterrâneo seja reservado para usos estratégicos, pois Ramon explica que essas águas estão “dando sinais de que estão sendo superexploradas”.

Para garantir água tratada a municípios mais distantes de grandes reservatórios por meio de sistemas adutores, o governo também investe no Malha D’água. O primeiro, que tira água do açude Banabuiú, deve beneficiar nove sedes municipais e 38 distritos no Sertão Central. 

O segundo, no eixo Quixadá-Quixeramobim, está em negociação com o Banco Mundial. Ao todo, são projetados 33 sistemas que devem atender 179 municípios.

Ramon defende que os sistemas de adutoras devem diminuir a dependência de caminhões-pipa, que ainda é uma das formas de abastecimento utilizadas por regiões do Estado.

“A gente tem uma população rural muito dispersa e uma irregularidade espacial de chuva muito forte. No futuro, a gente implantando todos os sistemas preconizados, vai praticamente encerrar essa questão de carro-pipa. Nós baseamos as adutoras nas rotas dos carros-pipa, exatamente porque são as rotas mais fragilizadas em termos de água”, diz o secretário.

Super El Niño

Agricultura mais preparada

Outra frente de enfrentamento aos eventos climáticos extremos precisa levar em conta a agricultura. “Essa produção primária, muitas vezes não tecnificada, com mão de obra familiar e desenvolvida em terras secas no semiárido, é a mais vulnerável”, diz o professor Flávio Nascimento.

Neyara Araújo Lage, engenheira agrônoma da Coordenadoria do Desenvolvimento da Agricultura Familiar da Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA), acredita que os agricultores cearenses estão “a anos luz” de preparação do que era visto na última seca. 

Com a secretaria no auge da execução financeira durante a seca, diversas técnicas puderam ser difundidas no campo. “Na pecuária, houve um reforço na alimentação animal e na parte de conservação de forragem. Tivemos também a disseminação de inúmeros tanques de resfriamento de leite. A gente reduziu o rebanho e melhorou a qualidade”, conta Neyara. 

A difusão de tanques de resfriamento de leite ajudaram a melhorar a produção no Ceará.
Legenda: A difusão de tanques de resfriamento de leite ajudaram a melhorar a produção no Ceará.
Foto: José Avelino Neto.

Formas diferentes de garantir água para irrigação e preparo do solo, como barragens subterrâneas, mandalas, cordões de pedra e plantio em curva de nível, tiveram a efetividade comprovada.

O projeto Hora de Plantar também recebeu mais financiamento. Ele permite que o produtor rural seja dispensado do pagamento das sementes quando há comprovação de um fenômeno que prejudica a produtividade. 

Além disso, outras culturas mais resilientes ao clima semiárido foram introduzidas. Palma e sorgo, melhor adaptadas que antes só eram utilizadas pelos grandes e médios produtores, agora são amplamente cultivadas na agricultura familiar no Estado. 

Para Neyara, o projeto deveria ter mais investimento e dispor de sementes em maior quantidade para os agricultores quando houver previsão de períodos chuvosos abaixo da média. Além dos insumos, a assistência agrícola precisa ser reforçada, segundo a servidora.

“Foram ações que a gente visualizou nesse período e que podem ser reintensificadas, para que a gente consiga agir com o máximo de antecipação possível para minimizar o sofrimento”, diz a engenheira. 

José Maria Freire, também engenheiro da SDA, acredita que o Estado não pode ficar preso apenas às previsões de El Niño. “Sendo forte agora ou não, sempre teremos problema de escassez no semiárido. Independente da intensidade do El Niño, nós temos que ter uma política de estado para essas práticas de convivência”, defende. 

Super El Niño

Problemas históricos ainda não resolvidos

Para o professor Flávio Rodrigues, há regiões no Estado que nunca saíram da situação de seca. A insegurança hídrica ainda afeta de forma preocupante a região de Sertões de Crateús. Mesmo em anos com boa quantidade de chuvas no geral, o território continua com fragilidades nos aportes de açudes. 

“O governo, ao longo do tempo, vem tentando melhorar e tem melhorado, mas em alguns distritos de municípios a situação ainda pode ser um pouco mais delicada. Quando você tem infraestrutura avançando, ela avança pros aglomerados, tanto rurais quanto urbanos. Distritos menores normalmente são abastecidos pela Cagece, por um sistema autônomo, que tem menor capacidade de resposta em relação aos grandes sistemas de interligação”, explica. 

O especialista chama atenção para outras cidades de médio porte que podem sofrer com desabastecimento devido à fragilidade hídrica atual, como Icó, Jaguaribe, Jaguaretama, Canindé e Quixadá. 

“Com um super El Niño, se essas cidades não estiverem interligadas a um reservatório de maior acúmulo hídrico nesse período, podem sofrer muito com racionamento, além da onda de calor, da sensação térmica elevada, que pode afetar a saúde. Isso é um problema sério”, projeta Flávio. 

Créditos

Alexia Vieira, Repórter | Dahiana Araújo e Nícolas Paulino, Editores de DN Ceará | Louise Dutra, Arte/Animação | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | G. André Melo, Gerente Audiovisual | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo

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