Quase ninguém vê a cruz posicionada no canteiro da Avenida Leste-Oeste, no bairro Pirambu, em Fortaleza. Deteriorada, parece mesmo invisível. Mas ela está lá há mais de 30 anos e, acredita-se, representa um marco para uma das vias mais movimentadas de Fortaleza. Uma história que envolve reivindicação popular, Igreja Católica e atuação de órgãos públicos.
Relatos sobre a Cruz da Leste-Oeste ou Cruz das Almas, como também é chamada, vêm da própria memória dos moradores. Há pouca documentação formal do monumento de pouco mais de dois metros de altura – não à toa, a facilidade de informações desencontradas. Algumas, porém, são comuns a todos, e atestam a importância da obra para tentar combater um problema antigo e grave no bairro: mortes por violência no trânsito.
Quem melhor contextualiza a questão é o filho de uma das habitantes mais antigas do Pirambu – a já falecida senhora Gesemar Brito, uma das responsáveis por encampar a instalação da escultura, em meados dos anos 1990. O jornalista Marcelo Brito reside em frente à Cruz e aloca como o Pirambu do período influenciou na criação da obra. “Ela é o símbolo das Santas Missões no bairro”, inicia.
“Foi colocada por esse movimento da Igreja Católica, realizado no Pirambu pelo pároco da época, Frei Martins – já falecido. Ele era um capuchinho que revolucionou nossa comunidade. À época, tínhamos esses padres ligados às CEBs [Comunidades Eclesiais de Base], e muita gente de fora veio fazer essas missões”, detalha.
Segundo Marcelo, a Leste-Oeste realmente não contava com sinalização na via naquele momento, anterior aos anos 2000, o que acarretava diversas mortes por trânsito. Uma vez o desejo de as Santas Missões deixarem um marco no bairro, foi natural a fusão entre Igreja e reivindicação popular a fim de tentar garantir algum tipo de resolução no local.
“Muita gente confunde, achando que ela foi colocada em homenagem a alguém específico que morreu. Mas não, foi em homenagem às vítimas do trânsito, resultado também de uma reivindicação junto à AMC para que fossem implantadas lombadas e sinalização. A Cruz, então, nasceu como símbolo para representar um movimento contra a violência no trânsito”.
A reportagem apurou junto à Autarquia Municipal de Trânsito (AMC) o histórico de intervenções na Leste-Oeste. Conforme o órgão, entre as décadas de 1990 e 2000, a avenida mantinha o mesmo número de faixas que tem hoje, mas o redesenho urbano mudou.
A partir daí, modificações foram registradas apenas de 2018 até agora, considerando como referencial principal a Rua Jacinto Matos, na Jacarecanga, e os diferentes destinos que partem dela.
Entre as alterações, constam:
- Renovação da sinalização horizontal e vertical, com implantação de ciclofaixa;
- Alargamento de esquinas para favorecer travessias de pedestres;
- Implantação de cinco semáforos com estágio exclusivo para pedestres;
- Implantação da readequação da velocidade de 60 para 50 km/h;
- Ciclofaixa transformada em ciclovia;
- Renovação da sinalização em determinados pontos da via como parte da Operação Capital Limpa e Ordenada, neste ano de 2026.
À AMC, também foi solicitada a série histórica de mortes no trânsito na Leste-Oeste entre as décadas de 1980 e 2000, para comparativo. Em resposta, o órgão informou que “não possui dados relativos à época mencionada”.
Como a Cruz mudou ao longo do tempo
Se hoje o monumento exibe os sinais do tempo – tanto a base quanto o corpo apresentam concreto corroído, em contraste com o que um dia foi revestido por cerâmica – ela já foi de outro modo e esteve inclusive em outro local.
O motorista aposentado Antônio Ricardo de Lima Goiana, 62, mora há 38 anos em frente à obra, testemunhou a construção dela e assegura: a primeira versão era de madeira e ficava um pouco à frente de onde está.
“Como essa de madeira ficou deteriorada também, resolveram fazer uma de cimento. E assim mesmo ela ficou desgastada porque, devido à maresia, o cimento cai e deteriora o ferro”, infere. Nessa perspectiva, o morador traz outro dado: pessoas acendiam velas em uma pequena abertura na base da nova Cruz construída – correspondente à de hoje – como forma de rezar pelas vítimas de acidentes no lugar.
Agora, conforme conta, a prática raramente acontece – exceto em eventos como a Caminhada com Maria, evento realizado pela Arquidiocese de Fortaleza para celebrar a padroeira de Fortaleza, Nossa Senhora da Assunção, em 15 de agosto. No lugar da outrora abertura para velas, ficou apenas uma placa, em que, com muito sacrifício, lê-se: “Paróquia Nossa Senhora das Graças - Santas Missões - 16.10.1990”.
É o único registro formal no qual consta, realmente, que aquela Cruz não é mero objeto na via. Há quem diga, inclusive, que ela cumpriu de fato encargo divino: nas palavras de seu Antônio Ricardo, o monumento abençoou aquele trecho da Leste-Oeste e, assim – embora ainda continuem acontecendo acidentes na via – nada se compara ao panorama anterior.
Fé e conquistas sociais de mãos dadas
Essa relação do Pirambu com a fé em prol de melhorias para o próprio território não é de hoje. Localizado na zona oeste de Fortaleza, a cerca de 3 km do Centro, o bairro tem a trajetória contada no livreto “Historiando o Pirambu”, publicado em 1999 e organizado por série de pesquisadores cearenses, em que é possível aprofundar essa tese.
Há registrado: “Por meio da Igreja, inicia-se um novo processo de ideias sociais. Surgem padres comprometidos com o social. Como veremos posteriormente, a história do Pirambu vai sofrer grande influência e intervenção da Igreja. (...) Dá-se, nesse período [início do bairro, década de 1940] discussões sobre a questão da terra, do transporte, da água potável e eletricidade, dentre outras”.
Além do já citado Frei Martins, nomes como padre Hélio, irmã Lindalva Miranda, padre Caetano de Tilesse, frei Memória, entre outros, colaboraram com movimentos como a histórica Marcha do Pirambu – na qual cerca de 30 mil moradores caminharam até a Praça da Sé para exigir saneamento, água, moradia e justiça social, na década de 1960 – e a inserção do bairro no cenário dos Movimentos Sociais Urbanos de Fortaleza.
Desde essa época, especificamente o ano de 1969, o Pirambu foi dividido em duas paróquias: a de Nossa Senhora das Graças e a do Cristo Redentor – exemplos concretos de como a Cruz da Leste-Oeste é sinal forte e coerente de um território no qual Igreja e conquistas populares andam de mãos dadas e, ao que tudo indica, assim seguirá.
Futuro da Cruz da Leste-Oeste
Quanto aos próximos passos da escultura, alguns horizontes se desenham. Cozinheira e mantenedora de um ponto de lanches em frente à Cruz, Raimunda Nonata França perdeu o pai, Francisco Pereira França de Sousa, na época em que acidentes na via eram frequentes – antes, portanto, da instalação do monumento – e lamenta a atual situação da obra.
“Meu pai atravessou a pista pra ir comprar uma grade de fogão, quando foi atropelado. Depois da Cruz isso mudou, mas não muito. Daqui do ponto, ainda assisto a muito acidente, atropelamento…”, relata. “Uma Cruz tão bonita, deviam ajeitar”.
Segundo Marcelo Brito, ela será reformada, possivelmente após o período eleitoral deste ano. A população do bairro aguarda apenas uma questão burocrática envolvendo a instalação de iluminação sem fio no local, a fim de melhorar a visibilidade da escultura. “Essa movimentação vem dos próprios moradores, é algo espontâneo. O objetivo agora é reformar para que esse lugar retorne ao movimento de colocar velas, inclusive”, prevê.
“O que acontece é que cada padre que passou pelo Pirambu deixou uma marca. Padre Hélio, por exemplo, fez a Marcha do Pirambu pra reivindicar melhorias para a população; frei Martins também trouxe essa conscientização, para as pessoas sempre desejarem o melhor pro bairro. Nossa vontade é continuar assim”.