Em 5 anos, homem perde mãe, esposa e filha e encontra força para viver por amor às três: ‘Só Deus’
O testemunho mais bonito de Francisco Pereira da Silva é encarar a vida com generosidade.
A gente nunca imagina a história de quem cruza nossa rotina todos os dias – no trânsito, no ônibus, na faixa de pedestres. Até que haja conversa. A presença leve e camarada de Francisco Pereira da Silva, o seu França, quando chega à estação de metrô do Mondubim, em Fortaleza, é exemplo disso. Ninguém suspeita que, no espaço de cinco anos, o funcionário público perdeu esposa, mãe e filha praticamente de uma vez. Um susto. Um baque.
“Cada dia é um dia”, confessa, voz embargada, ciente de que algumas perdas são irreparáveis e mudam a textura do coração. A primeira a partir foi a esposa, Valquíria, em 2016. A segunda foi a mãe, Maria José, conhecida como dona Carlita, aos 91 anos de idade, em 2020. A última foi Lívia, filha amada, em 2021. Faz lembrar a frase da escritora Joan Didion: “Você se senta para jantar e a vida como você a conhecia acaba”.
Mas este texto, no fim das contas, é um texto sobre amor. Porque se o passado tal como era, colorido e feliz, não chegou a ver presente, restou a seu França cuidar da alma e comprovar, na pele, que o bem-querer às três mulheres que mais devotou sentimento nessa existência faz com que ele, até hoje, tente respirar outros ares – e somente isso, esse amor. Apostar em algum tipo de alento. Gosta, sobretudo, de saber-se espiritualizado e afeito às coisas do Alto.
“Minha segurança sempre foi Deus. Sempre fui ligado na Bíblia, até hoje a leio todos os dias, e isso me dá força. Não sou de ferro, mas sou crente na Palavra, e isso me livra da tentação. Só Deus mesmo pra me ajudar com a saudade e com tudo que aconteceu nesse tempo tão difícil que foi perder as três”. Soma-se a isso o fato de ter perdido o emprego nesse mesmo período, e, de fato, apenas a fé para guiar os passos e não deixar lhe arrancar sorriso.
Alguns dias, claro, seguem complicados. A memória traz junto instantes muito sublimes com cada uma. Quando fala de dona Carlita, o primeiro amor, fala da inteligência dela, do carinho nutrido pelos quatro filhos, mesmo em condições por vezes adversas. Ela era natural de Baturité. E por mais que seu França tenha nascido em Macapá (AM), elege a cidade da mãe como a segunda pátria. Chegou até a trabalhar em um dos maiores pontos turísticos da região – o Mosteiro dos Jesuítas, gerido pela Companhia de Jesus.
Por sua vez, se o pensamento conduzi-lo a dona Valquíria, seu França se atém a detalhes. Conheceram-se em Baturité no ano de 1987, entre idas e vindas ao trabalho. Valquíria morava na rua acima de onde ele morava, e logo gostou de trocar ideias com o simpático rapaz. Tão logo se perceberam íntimos, engataram namoro e, menos de um ano depois, casamento. “Ela era professora, depois diretora de colégio. Era uma pessoa excelente”, diz o esposo.
“Quando fui demitido, ela foi minha grande base de sustentação – até porque uma pessoa ganhar o salário que eu ganhava e, de repente, ficar no zero, não é fácil. Minha memória mais bonita é o nosso convívio. Passamos 27 anos casados e não vou dizer que nunca brigamos; mesmo com algumas discussões, a gente nunca ia dormir sem conversar e se perdoar”.
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Chamego semelhante com Lívia, companheira preferida de viagens. Juntos, conheceram São Paulo, Recife, Macapá e tantos outros endereços – primeiro em travessias por ônibus, depois por avião. Filha adotiva, ela viveu até os 29 anos sabendo ser amada pelos pais que a escolheram para dividir os dias. E isso é ingrediente possível para ajudar seu França a seguir.
“Sempre comento que fiz tantos planos pra gente… Hoje sou eu que vou cumprir esses planos, mas sozinho. Pensava em viajar mais, conhecer outros países. Mas é aquilo: você planeja as coisas, mas quem dá a última palavra é o lá de cima”, conforma-se.
Marcas persistem, e o tempo às vezes não ajuda. Demora a passar e deixa marcas. Por vezes, seu França confessa, está rodeado de gente e se sente sozinho. Quem ele mais queria ao lado não está mais. Também percebe que, nos últimos anos, face aos acontecimentos, tornou-se um pouco duro. Frio. É, Rita Lee, como é estranho ser humano nessas horas de partida.
Felizmente, nenhuma dessas camadas aparece quando o quase aposentado sobe as escadas da estação em direção à plataforma que o levará à sede do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) em Fortaleza, todos os dias. Seu França sempre traz uma novidade, um gracejo, faz comentário sobre o tempo, partidas de futebol e o caos na política. Uma enciclopédia.
Quem não se achegar a ele, não saberá o que ocupa o peito. Essa versão da superfície, porém, é igualmente importante: revela que o testemunho mais bonito de alguém pode ser encarar a vida com generosidade, apesar de. Crer nos versos da mesma música de Rita Lee: “Existe uma chance, uma sorte, uma nova saída”. Existe mesmo.
*Esta é a história de seu França e o amor pelas três mulheres da vida dele e pela vida. Envie a sua também para diego.barbosa@svm.com.br. Qualquer que seja a história e o amor.