Idosa defende TCC aos 77 anos e recebe mãe na plateia, de 98: ‘Emocionante’

Marivan Ferraro cursa Design na Unifor e apresentou trabalho bordado feito em parceria com a mãe.

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
(Atualizado às 08:39)
Legenda: Marivan Ferraro ao lado da mãe, dona Maria Augusta: amor e cumplicidade longevos.
Foto: Arquivo pessoal.

A notícia de que uma idosa de 77 anos defendeu um Trabalho de Conclusão de Curso na universidade já é boa por si só. Acrescente o fato de que a mãe dela, de 98 anos, estava na plateia, e temos um feito extraordinário. Foi o que aconteceu no último dia 9 de junho na Universidade de Fortaleza (Unifor), quando Marivan Ferraro apresentou o projeto final do curso de Design da instituição – um desses instantes bonitos da vida.

Havia motivo para a mãe, a quase centenária dona Maria Augusta, estar presente no evento. Além de prestigiar a filha, a senhora foi parte importante do trabalho que garantiu nota máxima à Marivan – um livro infantil em tecido bordado, no qual é recontada a história bíblica da Arca de Noé. “Minha mãe foi a primeira a pensar na obra”, conta a agora designer.

“Fui para a casa dela, sugeri que fizéssemos alguns desenhos, começamos a pesquisar e, assim, produzimos tudo no tecido com caneta apagável, lápis e transferidor de carbono branco. Nós duas bordamos – primeiro, ela me ajudou, depois eu concluí”. Não sem motivo, a emoção de ambas durante a apresentação do TCC: era parte do coração delas ali.

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Marivan adicionou uma camada extra de afeição ao oferecer uma cesta de flores para a matriarca a partir de um arranjo criado por ela própria. A comoção, claro, foi geral, e atestou a capacidade da professora aposentada de ser grata aos passos e afeita à abertura de novos horizontes. Foi assim, inclusive, que iniciou a relação com o Design e a nova graduação.

Com família ligada às artes, Marivan prestou vestibular, em 1969, para Arquitetura. Adorava a ideia de um dia se tornar paisagista, fruto da paixão inveterada por plantas. A aprovação, contudo, não veio, e logo em seguida ela casou e foi embora para o Rio de Janeiro. Lá, teve dois filhos e residiu na cidade por nove anos até retornar a Fortaleza.

Na imagem, fotografia na vertical, em plano inteiro e de perfil, em uma sala de aula. À esquerda, uma mulher idosa de cabelos castanhos curtos (Dona Marivan) usa um vestido longo off-white com estampas abstratas em tons de rosa e roxo e sandálias de plataforma douradas. Ela está levemente inclinada para a frente, acariciando com carinho o rosto e dando um beijo na bochecha de outra mulher idosa de cabelos brancos curtos (Dona Maria Augusta). A segunda senhora, à direita, está sentada de costas para a câmera, vestindo uma camisa preta com estampa floral em tons de bronze. Entre elas, sobre uma mesa escolar de tampo claro e pernas pretas, há duas grandes cestas de palha trançada repletas de arranjos verdes, flores brancas miúdas e novelos de lã coloridos. Ao redor da mesa, aparecem cadeiras de metal com assento e encosto estofados em azul escuro. Ao fundo, a sala possui piso de lajotas claras, paredes brancas, uma lousa branca com rodinhas à esquerda e janelas altas cobertas por persianas verticais de tecido bege.
Legenda: Marivan presenteou a mãe durante apresentação do TCC com um arranjo de flores criado por ela própria.
Foto: Jari Vieira.

Novamente na capital cearense, deu à luz a mais um rebento e resolveu cursar Letras na Universidade Estadual do Ceará, com três filhos a tiracolo. Tanto esforço resultou no ingresso em um concurso público, o qual oportunizou o início da carreira como professora de Língua Portuguesa e língua estrangeira na rede estadual de ensino do Ceará.

Após aposentadoria em 2009 – carreira consolidada, filhos e netos criados – o pensamento não podia ser outro diante de tantos movimentos e conquistas na vida: era preciso inquietar-se. Haveria de fazer alguma coisa para aquecer positivamente os dias. “Depois de voltar de viagem, em 2022, uma amiga que estava fazendo pós-graduação na Unifor me chamou para ir lá, só pra fazer companhia”, conta.

Na imagem, fotografia na vertical, em plano médio, com foco em dois livros abertos em primeiro plano sobre uma mesa clara. O livro de cima é segurado por uma mão no canto esquerdo e possui páginas em um tom lilás claro. O livro de baixo está apoiado na mesa e tem páginas em tecido cinza claro. Ambos exibem páginas duplas com o mesmo design pedagógico e poético bordado à mão: a página esquerda contém ilustrações bordadas de animais (leão, pássaros, ovelha, cachorro) e o texto
Legenda: Páginas do livro bordado por Marivan Ferraro para o TCC.
Foto: Jari Vieira.

Enquanto aguardava na recepção, Marivan pediu ao atendente para ver a lista de cursos, e foi apresentada a um cujo início das atividades estava acontecendo naquele momento: o de Design.  “Um design que não existe em todas as universidades – geralmente ligadas ao Design Industrial. Era um design gráfico, de interação e de interface, com essas três linhas de trabalho. Achei tudo muito interessante e decidi, ‘Vou fazer’”.

Embora tenha tentado ingressar no curso como graduada, não conseguiu porque o curso era novo, o que a levou a prestar o vestibular 30 anos depois de estudar para esse fim. Foi aprovada com mérito, somando 980 pontos e muitos sonhos pela frente. O recado à família, até então desavisada daqueles avanços, chegou de mansinho e surpreendeu. Perguntaram se estava com juízo. “Agora é que eu tô realmente voltando a ele”, respondeu, aos risos.

Na imagem, uma senhora de idade avançada, branca, com vestido florido e papel na mão, espécie de certificado, está abraçada com outras três pessoas. Um deles é careca e veste uma camisa preta; o que ocupa a posição central veste uma camisa polo bege; a pessoa que ocupa o lado direito é uma mulher com vestido preto estampado. O ambiente é claro e com luz branca fluorescente. Ao fundo, há uma imagem de projetor.
Legenda: A banca de avaliação do TCC ao lado de Marivan Ferraro.
Foto: Arquivo pessoal.

De lá para cá, celebra a serenidade de caminhar por um campus arborizado – e, portanto, repleto das plantas tão queridas dela –, a convivência intergeracional (chegou a conviver com os próprios bisnetos durante um período na universidade) e o quanto se espantou ao encarar a si mesma e visualizar uma nova mulher. Com novos ares, novos talentos, novas possibilidades. O próprio fato de escolher bordar um livro infantil é prova disso.

“A criança lê com as mãos. A teoria explica e justifica que os pequenos começam lendo assim. O público para esse livro, então, são pessoas de 2 a 4 anos de idade, ou seja, crianças não-leitoras. Um livro-brinquedo, para os pais lerem quando o filho for dormir, e que serve até de travesseiro, se a criança quiser dormir com ele. Fiz o teste com meu neto e um amiguinho dele, e realmente funciona”.
Marivan Ferraro
Professora aposentada, escritora e designer

A ideia, agora, é fazer uma segunda edição, revisada, do mesmo projeto. Lançar outros cinco livros infantis e disponibilizá-los no mercado e em bibliotecas é outro objetivo. De certa forma, cada ato é maneira de honrar o legado ativo deixado pela mãe. A dois anos de completar um século, dona Maria Augusta é pura vida.

Não tem doença, lê, escreve – é autora de pelo menos cinco livros, com outro à vista – mora sozinha e se considera autossuficiente. No currículo, o ofício de decoradora pela Escola de Decoração do Rio de Janeiro e a fundação do Clube de Decoradores do Ceará. “Ela também é estudiosa da Bíblia, dá aulas de Hermenêutica Bíblica. É um caso a ser estudado porque fará 100 anos tranquilamente. Acho que herdei a genética da minha mãe e da minha avó, que faleceu com 97 anos e muito lúcida”, festeja Marivan.

Na imagem, uma fotografia de média distância, com foco raso, mostra uma mulher idosa de cabelos curtos e grisalhos, a Dona Maria Augusta, sentada numa mesa no primeiro plano. Ela veste um blazer preto com padrão floral em tons de cobre e um colar prateado fino. O seu olhar está virado para a direita da imagem, para fora de campo. À sua frente, no primeiro plano, há uma caixa de presentes aberta com base azul escura às bolinhas brancas, contendo lembranças embaladas com fitas azuis e um pequeno cesto de verga. Duas outras mulheres e um homem estão sentados em mesas atrás dela, desfocados mas visíveis. O fundo é um ambiente de sala de aula ou escritório.
Legenda: Dona Maria Augusta concentrada na apresentação de TCC da filha.
Foto: Arquivo pessoal.

“Essa mesma minha avó era dona de um armarinho em João Pessoa, já que sou paraibana. Eu via aquela sala cheia de costureiras e bordadeiras quando criança, preparando vestidinhos, pra colocar na loja, e aquilo me marcou. Quando tive a oportunidade de fazer parecido, pensei ‘será que vou realizar meu sonho?’. Agora estou aqui, muito feliz e, ao mesmo tempo, acho que servindo de exemplo para meus filhos e netos”.

E se há algum segredo para existir assim, tão inquieta, o retorno vem fácil e em diálogo com a memória. Uma tia a ensinou: “Marivan, a gente tem que viver morrendo, e não morrer vivendo”. “Então é enfrentar, não ter medo. Quem fica em cima de uma cama ou se balançando numa cadeira em frente a uma televisão não vai para lugar algum. A vida não acabou porque você tem uma idade avançada. Cada dia eu vivo o dia. Não sonho muito longe, não. Não tenho sonhos muito impossíveis. Sonho e vou realizando”.

 

*Esta é a história de amor de Marivan Ferraro pela mãe, Maria Augusta, e pelas possibilidades da vida. Envie a sua também para diego.barbosa@svm.com.br

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