Idosa defende TCC aos 77 anos e recebe mãe na plateia, de 98: ‘Emocionante’
Marivan Ferraro cursa Design na Unifor e apresentou trabalho bordado feito em parceria com a mãe.
A notícia de que uma idosa de 77 anos defendeu um Trabalho de Conclusão de Curso na universidade já é boa por si só. Acrescente o fato de que a mãe dela, de 98 anos, estava na plateia, e temos um feito extraordinário. Foi o que aconteceu no último dia 9 de junho na Universidade de Fortaleza (Unifor), quando Marivan Ferraro apresentou o projeto final do curso de Design da instituição – um desses instantes bonitos da vida.
Havia motivo para a mãe, a quase centenária dona Maria Augusta, estar presente no evento. Além de prestigiar a filha, a senhora foi parte importante do trabalho que garantiu nota máxima à Marivan – um livro infantil em tecido bordado, no qual é recontada a história bíblica da Arca de Noé. “Minha mãe foi a primeira a pensar na obra”, conta a agora designer.
“Fui para a casa dela, sugeri que fizéssemos alguns desenhos, começamos a pesquisar e, assim, produzimos tudo no tecido com caneta apagável, lápis e transferidor de carbono branco. Nós duas bordamos – primeiro, ela me ajudou, depois eu concluí”. Não sem motivo, a emoção de ambas durante a apresentação do TCC: era parte do coração delas ali.
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Marivan adicionou uma camada extra de afeição ao oferecer uma cesta de flores para a matriarca a partir de um arranjo criado por ela própria. A comoção, claro, foi geral, e atestou a capacidade da professora aposentada de ser grata aos passos e afeita à abertura de novos horizontes. Foi assim, inclusive, que iniciou a relação com o Design e a nova graduação.
Com família ligada às artes, Marivan prestou vestibular, em 1969, para Arquitetura. Adorava a ideia de um dia se tornar paisagista, fruto da paixão inveterada por plantas. A aprovação, contudo, não veio, e logo em seguida ela casou e foi embora para o Rio de Janeiro. Lá, teve dois filhos e residiu na cidade por nove anos até retornar a Fortaleza.
Novamente na capital cearense, deu à luz a mais um rebento e resolveu cursar Letras na Universidade Estadual do Ceará, com três filhos a tiracolo. Tanto esforço resultou no ingresso em um concurso público, o qual oportunizou o início da carreira como professora de Língua Portuguesa e língua estrangeira na rede estadual de ensino do Ceará.
Após aposentadoria em 2009 – carreira consolidada, filhos e netos criados – o pensamento não podia ser outro diante de tantos movimentos e conquistas na vida: era preciso inquietar-se. Haveria de fazer alguma coisa para aquecer positivamente os dias. “Depois de voltar de viagem, em 2022, uma amiga que estava fazendo pós-graduação na Unifor me chamou para ir lá, só pra fazer companhia”, conta.
Enquanto aguardava na recepção, Marivan pediu ao atendente para ver a lista de cursos, e foi apresentada a um cujo início das atividades estava acontecendo naquele momento: o de Design. “Um design que não existe em todas as universidades – geralmente ligadas ao Design Industrial. Era um design gráfico, de interação e de interface, com essas três linhas de trabalho. Achei tudo muito interessante e decidi, ‘Vou fazer’”.
Embora tenha tentado ingressar no curso como graduada, não conseguiu porque o curso era novo, o que a levou a prestar o vestibular 30 anos depois de estudar para esse fim. Foi aprovada com mérito, somando 980 pontos e muitos sonhos pela frente. O recado à família, até então desavisada daqueles avanços, chegou de mansinho e surpreendeu. Perguntaram se estava com juízo. “Agora é que eu tô realmente voltando a ele”, respondeu, aos risos.
De lá para cá, celebra a serenidade de caminhar por um campus arborizado – e, portanto, repleto das plantas tão queridas dela –, a convivência intergeracional (chegou a conviver com os próprios bisnetos durante um período na universidade) e o quanto se espantou ao encarar a si mesma e visualizar uma nova mulher. Com novos ares, novos talentos, novas possibilidades. O próprio fato de escolher bordar um livro infantil é prova disso.
“A criança lê com as mãos. A teoria explica e justifica que os pequenos começam lendo assim. O público para esse livro, então, são pessoas de 2 a 4 anos de idade, ou seja, crianças não-leitoras. Um livro-brinquedo, para os pais lerem quando o filho for dormir, e que serve até de travesseiro, se a criança quiser dormir com ele. Fiz o teste com meu neto e um amiguinho dele, e realmente funciona”.
A ideia, agora, é fazer uma segunda edição, revisada, do mesmo projeto. Lançar outros cinco livros infantis e disponibilizá-los no mercado e em bibliotecas é outro objetivo. De certa forma, cada ato é maneira de honrar o legado ativo deixado pela mãe. A dois anos de completar um século, dona Maria Augusta é pura vida.
Não tem doença, lê, escreve – é autora de pelo menos cinco livros, com outro à vista – mora sozinha e se considera autossuficiente. No currículo, o ofício de decoradora pela Escola de Decoração do Rio de Janeiro e a fundação do Clube de Decoradores do Ceará. “Ela também é estudiosa da Bíblia, dá aulas de Hermenêutica Bíblica. É um caso a ser estudado porque fará 100 anos tranquilamente. Acho que herdei a genética da minha mãe e da minha avó, que faleceu com 97 anos e muito lúcida”, festeja Marivan.
“Essa mesma minha avó era dona de um armarinho em João Pessoa, já que sou paraibana. Eu via aquela sala cheia de costureiras e bordadeiras quando criança, preparando vestidinhos, pra colocar na loja, e aquilo me marcou. Quando tive a oportunidade de fazer parecido, pensei ‘será que vou realizar meu sonho?’. Agora estou aqui, muito feliz e, ao mesmo tempo, acho que servindo de exemplo para meus filhos e netos”.
E se há algum segredo para existir assim, tão inquieta, o retorno vem fácil e em diálogo com a memória. Uma tia a ensinou: “Marivan, a gente tem que viver morrendo, e não morrer vivendo”. “Então é enfrentar, não ter medo. Quem fica em cima de uma cama ou se balançando numa cadeira em frente a uma televisão não vai para lugar algum. A vida não acabou porque você tem uma idade avançada. Cada dia eu vivo o dia. Não sonho muito longe, não. Não tenho sonhos muito impossíveis. Sonho e vou realizando”.
*Esta é a história de amor de Marivan Ferraro pela mãe, Maria Augusta, e pelas possibilidades da vida. Envie a sua também para diego.barbosa@svm.com.br