Avô leva netos para visitar a cidade natal todo ano e apresenta locais importantes da própria vida

Seu Solon é natural de Martins (RN) e viaja oito horas para realizar feito com a família.

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
Legenda: Seu Solon ao lado de um neto e de um filho: memória passada de geração em geração.
Foto: Arquivo pessoal.

Quando fugiu para andar a cavalo e acabou caindo em arame farpado. Quando dava voltas na pequena feira e fazia questão de cumprimentar quem passava. Quando visita a casa onde morou e suspira, saudoso. Solon Batista Gonçalves não vivencia esses fatos em qualquer época. Aos 80 anos, escolhe o mês de julho, no qual se comemora o Dia dos Avós, para partilhá-los. E de modo especial: em família e na própria cidade de origem, a oito horas de Fortaleza.

Foi em Martins, interior do Rio Grande do Norte, que esse avô contador de histórias cresceu. E é nesse município que realiza feito carinhoso: alimenta, de geração em geração, o gosto por retornar à cidade e sentir, na escuta e na pele, o que ele próprio testemunhou. Ora são eventos pequenos, que apenas ele viu; ora revelam facetas de outras pessoas, outras famílias, cantinhos que passariam despercebidos, não fosse a ótica apurada do idoso de alma jovem.

Quem tem contato com esse universo, se sente privilegiado, claro. Avós viajantes no tempo – esses outros tempos do mundo e dos lugares – não são raros; mas um avô que cria uma tradição feito essa, de retorno à terra natal apenas para permitir aos netos o ingresso a esse verdadeiro portal íntimo, é luz acesa para a memória. O ato de seu Solon é nobre devido a isso: não deixa que desapareçam rastros da vida de todo dia. Estica a existência deles.

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“É sempre um momento muito especial pra mim e para todos os netos. Desde os meus oito, 10 anos de idade, que vou pra essa cidade com ele”, recorda Luiz Gustavo Nery. Aos 27 anos, o economista volta a ser criança ao lembrar a travessia de Fortaleza até Martins, de todo o movimento para isso acontecer. Tropa encorpada: cinco carros, 20 pessoas, um fim de semana inteiro em outras paisagens – físicas e da alma.

Pequenos, os primos pouco entendiam a importância daquela boa agitação anual, capaz de animar filhos e netos. Crescidos, dimensionam tudo de outra forma. É maneira de afirmar que ter avós é muito bom. “Meu avô é, antes de tudo, um pai. Ele que me criou desde o meu primeiro ano de idade, então sempre tive essa proximidade – tanto que o chamo de ‘pai’. É muito amoroso, cuida bem da casa, nunca deixou faltar nada”, celebra Luiz Gustavo.

Na imagem, fotografia em um mirante ao ar livre durante o dia, sob um céu azul com nuvens brancas. No centro da imagem, cerca de 15 pessoas entre adultos e crianças estão reunidas e sorrindo para a foto. O grupo está posicionado em uma passarela de cimento com floreiras laterais repletas de flores cor-de-rosa (buganvílias). Acima do grupo, há um grande arco feito de vegetação verde decorado com várias lâmpadas penduradas por fios. Ao fundo, no centro do arco, vê-se uma pequena estátua branca do Cristo Redentor de braços abertos e, mais ao longe, uma paisagem montanhosa. A iluminação é natural e o clima é de confraternização.
Legenda: Cinco filhos, nove netos e quatro bisnetos são o legado familiar de seu Solon.
Foto: Arquivo pessoal.

Mesmo hoje, acometido por alguns problemas de saúde, seu Solon ainda proporciona risada, ainda incentiva, fala das partidas de futebol. As mesmas que Luiz Gustavo jogava e que em certo instante pensou serem elas as definidoras da profissão no futuro. Naquelas horas, o avô apoiou. Assim como quando o estudante se situou melhor e percebeu ser Economia a área onde desejaria ingressar. Não importava para onde fosse: seu Solon estaria ao lado.

Ele sempre esteve. Foto capturada em Martins ilustra essa presença: num banco, estão seu Solon, um neto e um filho, os três olhando na mesma direção. Não será assim que o amor opera? “Por incrível que pareça, lá em Martins faz muito frio – foi a primeira cidade em que senti uns 10 Cº. Mas fica esse calor do sentimento. Todo ano a gente ia na feira gastronômica internacional. A cidade lotava, e meu avô contava várias histórias”.

Na imagem, uma foto de ângulo médio capturando a fachada de dois andares de um edifício colonial histórico que funciona como o Museu Histórico de Martins. O prédio é pintado de branco com molduras amarelas brilhantes em torno de todas as portas e janelas. O primeiro andar tem um longo balcão de ferro forjado preto com cinco portas de sacada altas e em arco. O térreo tem quatro janelas em arco e uma porta principal central, todas com portas de madeira escura. Duas bandeiras (provavelmente do Brasil e do Rio Grande do Norte) estão hasteadas na sacada acima da porta principal. À direita da porta principal, no nível da calçada de paralelepípedos e calçamento de pedra, um grupo de quatro pessoas posa para a câmera: uma mulher de vestido branco, uma mulher de vestido preto, um homem de camisa de botões e bermuda e um homem de camisa roxa e bermuda escura. Uma placa de rua marrom e branca com o ícone do museu e o texto
Legenda: No tour promovido pelo patriarca, alguns dos pontos turísticos de Martins (RN).
Foto: Arquivo pessoal.

A praça central era o cenário da partilha desses causos, perto da igrejinha – aquela em que seu Solon foi coroinha e rezava a missa num idioma que ficou para sempre com ele, o latim. Ele também, conforme o início deste texto já entregou, fugiu de casa para montar a cavalo e acabou caindo num arame farpado, para total desespero da mãe ao vê-lo todo ensanguentado. Da casa onde viveu até os 17 anos, recorda da névoa que a rodeava, do frio serrano.

Tudo isso é sabido e recontado várias vezes aos cinco filhos, nove netos e quatro bisnetos. Para que não esqueçam e prorroguem o legado da lembrança. Enquanto houver gente contando a vida de seu Solon, ele permanece o pai querido, o avô dedicado, o bisavô coruja. O bem-querer, no fim das contas, é esse gesto delicado. “Acho que o que ele mais nos ensinou foi a ser família. Independentemente de qualquer erro ou dificuldade, estará ao lado”.

Na imagem, um homem idoso está em pé sobre uma calçada de blocos de concreto com piso tátil. Ele usa um boné preto, uma camiseta roxa larga, shorts esportivos azul-marinho e chinelos. Ele olha para o lado e para cima. Ao fundo, à direita, há um grande mural de arte urbana colorido em uma parede, com padrões geométricos e representações estilizadas de casas e montanhas. Canteiros com arbustos de flores vermelhas e uma grade de proteção preta flanqueiam o caminho. Ao fundo, à esquerda, há árvores, um prédio e postes de luz. O céu está azul claro com nuvens brancas esparsas.
Legenda: Seu Solon no pátio da escola onde estudou, outro local que ele apresenta à família.
Foto: Arquivo pessoal.

“Viver momentos com os avós traz pra gente um senso maior de sensibilidade – até mesmo pela idade deles. Eles não têm o mesmo vigor de antes, não são mais jovens. Mas há sempre aquele amor, aquele carinho”, diz Luiz Gustavo. Residente em Brasília, sente esse aconchego quando volta a Fortaleza e recebe, das mãos do próprio seu Solon, cuscuz com ovo quentinho. Na praia, caminha ao lado dele, ainda que, agora, o andador seja parceiro do avô.

É coisa pra se levar no peito. Os avós, esse presente. “Se eu puder ser 10% do que meu avô é, estarei feliz. Ele nasceu em 1947 e, de lá pra cá, muita coisa mudou. Mas, até hoje, mesmo com todas as dificuldades de saúde, cuida de nós – seja dos netos mais próximos ou dos mais distantes. Ele tá pertinho. Sinto saudade”.

 

Esta é a história de amor de Solon Batista Gonçalves pelos netos, e vice-versa. Envie a sua também para diego.barbosa@svm.com.br. Qualquer que seja a história e o amor.

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