Luto no BBB 26: por que julgamos a dor do outro?
O Big Brother Brasil deste ano terminou, mas as perdas que atravessaram Ana Paula e Tadeu Schmidt seguem ecoando.
A primeira coisa que os lutos de Ana Paula Renault e Tadeu Schmidt em pleno BBB 26 nos ensinam é justamente isso: o luto é plural. Cada um de nós tem a sua dor, a sua forma de se expressar diante dos afetos, de lidar com feridas abertas e com as marcas que as perdas nos causam.
Além disso, esses lutos dentro de um reality show ensinam que a vida real não tem roteiro específico, não dá pra prever o que vai acontecer, ou o que vamos sentir ou como vamos reagir, seja na frente ou atrás das câmeras. Viver é espontâneo. Doer também.
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Mostrar onde e como lateja nem sempre vai ser a primeira saída de quem está sofrendo. Recolher-se às vezes mais amedronta que descansa a alma. Manter-se ativo para uns é refúgio. Para outros, o silêncio e a solitude ajuda a buscar equilíbrio.
Não há jeito certo de viver um luto. Quando algo dói muito dentro de nós, nosso instinto é buscar sobrevivência, equilíbrio e o fim da dor, e esse trajeto não tem fórmula. Minha cartilha pode não servir para você, suas ideias talvez agucem a minha ferida, ou vice-versa.
Quando foi anunciada a morte do jogador de basquete Oscar Schmidt - irmão de Tadeu Schmidt, apresentador do BBB 26 -, no último 17 de abril, chamou muita atenção a curiosidade das pessoas em torno de uma questão: "será que o Tadeu vai ter coragem de apresentar o BBB?", comentou-se em muitos locais.
Horas depois, a dúvida sanou e as críticas sobressaltaram-se. Tadeu apresentou o programa e fez uma espécie de justificativa: “Oscar ia ficar bravo se eu não viesse”, disse o apresentador, que também revelou não saber lidar com o luto.
Dois dias depois, novo luto, muitas dúvidas. Morreu Gerardo Henrique Machado Renault, o pai de Ana Paula Renault, hoje vencedora do reality, mas no dia uma das 4 finalistas. Os questionamentos (e julgamentos) eram diversos. “Ela será avisada? Vai escolher continuar? Vai pra festa?” Perguntas que continuam, já que a vitoriosa, em tese, tem uma extensa agenda pós-BBB.
Tantas questões assim, acerca dos comportamentos mediante a perda de alguém querido (ou às vezes de algo muito representativo em nossas vidas) nos deixa uma certeza: o quantos são plurais os nossos lutos e como não é justo sermos julgados acerca de como vivemos a nossa própria dor.
Nem sempre vai dar pra saber qual a reação das pessoas. Perder alguém que amamos ou algo que nos é um pilar na existência (ou ainda ver um dos nossos amores de vida sofrer uma perda) - o luto também nasce quando há demissão, um rompimento de relacionamento ou a perda de um sonho - nos transforma. Viramos outros seres quando somos atravessadas por um luto.
E por que é tão importante pras pessoas questionar nossas reações? Seria curiosidade ou mesmo ter uma espécie de régua moral? Sair para o trabalho, manter os compromissos previamente agendados ou ainda participar de festas e eventos nem sempre traduz a totalidade do nosso estado de espírito. Às vezes, manter-se ativo é a nossa forma de lidar com o que dói em nós, com o vazio deixado pelo que se foi.
O que não significa que recolher-se, tirar licença do trabalho, faltar a escola ou celebrações de quem amamos esteja errado. Quem somos nós para saber o que se passa dentro dos outros? Quem são os demais para saber como a dor lateja dentro de nós? O luto é plural porque doer é verbo de muitas sensações.