Cheirar chocolate pode ajudar você a treinar

Estudo revelou que o aroma do ingrediente pode influenciar no rendimento em exercícios feitos em jejum.

Escrito por
Carol Melo carolina.melo@svm.com.br
Legenda: Voluntários foram expostos ao odor de suspensões de chocolate amargo comercial derretido em água destilada.
Foto: Farknot Architect/Shutterstock.

Cheirar chocolate amargo antes de fazer exercícios de força em jejum pode aumentar o desempenho físico, permitindo realizar mais repetições, sem alterar a sensação de esforço. Foi o que descobriu um grupo de cientistas sobre o efeito do odor do ingrediente, que ainda reduziria a fome em quem treina antes de se alimentar.

Publicado neste mês na revista Frontiers in Physiology, um ensaio clínico exploratório investigou se o aroma do alimento influenciava a percepção do apetite e a resistência física, e descobriu que os voluntários expostos ao chocolate amargo 90% completaram, em média, 18 repetições a mais que o grupo controle

O efeito também foi observado entre os que cheiraram chocolate meio amargo 60%, porém, em uma escala menor: eles realizaram apenas 9 repetições a mais.

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Ao todo, os pesquisadores da Faculdade de Ciências do Esporte e do Exercício da Universidade da Malásia reuniram 23 homens saudáveis, moderadamente treinados. 

Eles identificaram que a mudança no desempenho ocorreu sem um aumento na percepção subjetiva de esforço dos participantes, o que sugere que o odor de chocolate amargo ajuda a tolerar uma carga de esforço físico maior com o mesmo nível de cansaço.

Outro achado dos autores foi que o aroma do chocolate 90% reduziu a fome e elevou a sensação de saciedade dos voluntários. A mesma ação não foi observada na concentração de 60% de chocolate. No entanto, a versão meio amarga foi capaz de aumentar a sensação de prazer dos indivíduos.

Jejum e exposição ao chocolate antes e durante as séries

Os experimentos foram realizados após os participantes fazerem jejum noturno de, no mínimo, 10 horas. Um fato interessante é que os pesquisadores selecionaram apenas voluntários que, antes de participar do ensaio clínico, tinham o hábito de tomar café da manhã. 

Também foi exigido que os homens não fumassem, nem tivessem aversão ao cheiro de cacau ou a alimentos doces. Além disso, os voluntários deveriam realizar treinos de força regularmente — ao menos duas vezes por semana nos dois anos anteriores ao início dos testes. 

Para os autores, essas série de restrições seria capaz de revelar se o odor do alimento realmente poderia reduzir o apetite ou gerar prazer, além de melhorar o desempenho físico sem o consumo real de calorias.

Para isso, eles adotaram uma metodologia de ensaio clínico duplo-cego, randomizado e cruzado, e separaram 23 voluntários em três grupos. Cada uma das equipes foi exposta ao aroma de uma mistura diferente: chocolate 90%, chocolate meio amargo (60%) ou água destilada (grupo controle). 

Os participantes ainda foram instruídos a não praticar atividades físicas intensas e nem consumir álcool nas 72 horas anteriores aos testes. Eles também tiveram que evitar cafeína, nicotina e produtos perfumados por pelo menos 24 horas antes.

Como funcionou o estudo?

Nos experimentos, os voluntários de cada grupo foram expostos ao aroma do seu ingrediente, por 30 segundos, antes de cada série de extensão de perna, assim como durante a fase anterior. 

Durante o exercício, o grupo precisava realizar o movimento até a falha — técnica em que o indivíduo faz a série até o esgotamento máximo, ou seja, até não conseguir realizar mais nenhuma repetição. 

Imagem mostra um exercício em academia com homem apoiando os pés em uma máquina de extenção de perna, com as pernas estendendo-se sobre o equipamento enquanto trabalha resistência e força.
Legenda: Participantes fizeram mais repetições após cheirar a mistura com o ingrediente.
Foto: Microgen/Shutterstock.

Nos resultados, os pesquisadores descobriram que participantes da equipe de chocolate amargo 90% completaram mais movimentos extras, sem elevar o cansaço, além de apresentar uma redução do desejo de comer. 

Os voluntários expostos ao chocolate meio amargo 60% também elevaram o rendimento, mas o número de repetições teve uma queda de 50% em comparação à versão com percentual mais alto de cacau. Embora não tenha havido supressão de apetite, este grupo relatou aumento no desejo de comer antes do exercício, mas classificou o odor como mais prazeroso. 

Já o grupo controle, que foi exposto ao aroma de água destilada, teve o menor volume total de treino, e os voluntários mantiveram níveis mais altos de fome e de desejo de comer.

Por que o aroma de chocolate é capaz de influenciar o corpo?

A capacidade do aroma de chocolate amargo em reduzir a fome não é uma novidade. A ciência já havia identificado que a versão com 85% de cacau é capaz de aumentar a sensação de saciedade em mulheres, ao diminuir os níveis de grelina — hormônio intestinal que regula o apetite. 

Estudos também já revelaram que, no cérebro, o sistema olfativo possui conexões próximas a regiões que são responsáveis pelas respostas emocionais e pela regulação do apetite.

O aroma ainda ativa a fase cefálica da digestão, desencadeando uma série de ações preparatórias para a digestão de alimentos, como salivação e atividade gástrica, antes mesmo da primeira mordida. 

No novo ensaio, os pesquisadores observaram que o cheiro do alimento auxilia o desempenho físico ao reduzir a "interferência" dos sinais internos de fome durante o treino em jejum, permitindo que o indivíduo execute mais repetições sem que a percepção subjetiva de esforço aumente, sugerindo uma melhoria na resistência.

No entanto, embora revele um potencial inovador para o uso de aromas na prática de exercícios, os autores destacam que o estudo possui limitações. Uma delas é o fato de que a análise baseou-se apenas em percepções psicobiológicas, ignorando medidas hormonais ou neurofisiológicas. 

Outro ponto de cautela é que os pesquisadores aplicaram a técnica somente a um único exercício específico, a extensão de perna, o que pode restringir a aplicação dela em outras modalidades de treino.

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