Bactéria do litoral do Ceará produz substância com potencial para tratar câncer; entenda

Ao selecionar as variedades de tumores que seriam testados, os pesquisadores consideraram alguns mais letais, como de próstata e o de ovário.

Escrito por
Carol Melo carolina.melo@svm.com.br
Legenda: Litoral cearense pode guardar esperança de novo fármaco contra tumores letais.
Foto: Natinho Rodrigues.

Quem se banha nas águas das praias da Taíba, em São Gonçalo do Amarante, e da cidade de Paracuru, no litoral do Ceará, nem imagina que pode estar dividindo espaço com animais marinhos que abrigam uma bactéria capaz de produzir uma substância que poderá vir a se tornar um novo fármaco no tratamento do câncer de próstata e de ovário. 

Em testes laboratoriais realizados por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade de São Paulo (USP), a molécula demonstrou potencial comparável ao de quimioterápicos tradicionais, considerados “padrão-ouro” no combate à doença, que é uma das que mais matam no mundo. O estudo foi publicado na revista Chemistry and Biodiversity em abril.

Chamado piericidina A1, o composto natural foi isolado em bactéria do gênero Streptomyces — nomeada pelos autores de BRA-035 — que vive sobre zoantídeos do gênero Palythoa, tipo de animal invertebrado semelhante a corais, encontrados em praias como as dos municípios da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF). 

O potencial anticâncer das piericidinas não é uma novidade para a ciência. A atividade é estudada desde a década de 1970. Porém, esta é a primeira vez que uma pesquisa identifica quais tumores podem ser mais vulneráveis à molécula, conforme explica uma das autoras do estudo, a pesquisadora Katharine Florêncio, membro do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da UFC. 

“Não é só porque uma molécula foi estudada anteriormente que ela não pode ser vista com outro olhar. [...] A gente queria, de fato, encontrar como ela estava agindo e os tipos de células tumorais que ela podia ter uma melhor atividade.”

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À coluna, a especialista comemora o achado, ressaltando que os resultados são preliminares e são necessários novos estudos para verificar, por exemplo, a eficácia e a segurança da substância. 

A gente sabe que é difícil encontrar uma cura [para o câncer], mas a gente está tentando.”
Katharine Florêncio
Pesquisadora

A pesquisa foi desenvolvida entre 2017 e 2019, durante o mestrado de Katharine e da pesquisadora Bianca Sahm na UFC. No entanto, os resultados foram divulgados somente neste ano, quando as duas já estão no pós-doutorado — essa na USP e aquela na universidade cearense. 

Imagem mostra as pesquisadoras Katherine Florêncio e Bianca Sahm, autoras de estudo que descobriu que bactérias do litoral do Ceará produzem substância com potencial para tratar o câncer.
Legenda: À esquerda, Katherine Florêncio e, à direita, Bianca Sahm.
Foto: Arquivo pessoal.

Estudo visou tipos de cânceres com alta mortalidade

Ao selecionar as variedades de tumores que seriam testados, os pesquisadores consideraram os mais letais. No Ceará, o câncer de próstata é um dos que mais causam vítimas, conforme a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa). Já o de ovário está entre os 10 com maior mortalidade no Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA).

“São dois cânceres muito incidentes e que a piericidina teve esse potencial de diminuir bastante o metabolismo deles. Então, isso já abre para a gente uma expectativa muito grande de que isso um dia possa vir a tornar-se um fármaco”, celebra a especialista.

Molécula demonstrou potencial semelhante a ‘padrão-ouro’

A potência da piericidina A1 surpreendeu os participantes da pesquisa, revela Katharine Florêncio. Em laboratório, a substância foi capaz de combater células cancerígenas mesmo em concentrações baixíssimas

Os fármacos que a gente utiliza na quimioterapia padrão, que são os padrões-ouro, inclusive para próstata e ovário, eles, normalmente, estão nessa faixa de concentração, entre nanomolar ou picomolar, que são concentrações muito baixas.”
Katharine Florêncio
Pesquisadora

Na prática, isso significa que a molécula tem um grande potencial de causar a morte de células cancerígenas em concentrações mínimas. “Isso é algo muito vislumbrado”, destaca a especialista. 

Imagem mostra pesquisadores da UFC colhendo bactérias em animais marinhos invertebrados no litoral do Ceará. Essas bactérias são capazes de produzir substância com potencial para tratar o câncer.
Legenda: Pesquisadores colheram os microrganismos em animais marinhos encontrados no litoral cearense.
Foto: Arquivo pessoal.

Como a substância combate células cancerígenas?

A especialista explica que a piericidina A1 impede o funcionamento da mitocôndria — organela responsável pela respiração e produção de energia celular — em células doentes, causando, assim, a morte delas. 

"Quanto mais dependente o tumor for dela [mitocôndria], mais ele fica sensível à piericidina, porque é justamente onde ela age. Outros tipos de tumor, que não são tão dependentes dessa via metabólica e que são mais dependentes da glicólise, ficam mais resistentes.”

A relação detalhada pela especialista foi demonstrada no estudo: enquanto a substância apresentou potencial no combate a cânceres de próstata e de ovários, que são tipos dependentes de oxigênio, foi ineficiente contra neoplasias de pele e leucemia, que priorizam a glicólise anaeróbica — processo em que a célula obtém energia por meio da degradação de glicose. 

O mecanismo de ação também é um dos desafios associados à piericidina A1, já que o composto pode não ser tóxico apenas para as células cancerígenas, mas também para as saudáveis

“Nada impede que ela possa também ser citotóxica para células que a gente chama de não tumorais ou células normais”, ressalta Katharine, citando o termo usado na oncologia para se referir a uma substância ou agente com efeito tóxico e destrutivo sobre as células. 

Quimioterápicos utilizados atualmente no tratamento do câncer também afetam células não tumorais. Em consequência, é comum que pacientes sofram efeitos colaterais, como a queda de cabelo, causada exatamente pela morte das células da raiz do cabelo, como explica a pesquisadora.

A gente precisa fazer esses [novos] estudos para ver especificidade, saber qual o potencial tóxico dele [piericidina A1] na célula tumoral e não tumoral."
Katharine Florêncio
Pesquisadora

Imagem mostra zoantídeos do gênero Palythoa encontrados em praia do litoral do Ceará.
Legenda: Zoantídeos são uma classe de invertebrados marinhos parentes próximos de corais e anêmonas.
Foto: Arquivo pessoal.

Próximos passos: mais estudos e esperança  

À coluna, Katharine destaca que a piericidina A1 deve percorrer um longo caminho de estudos até, quem sabe, ser comprovada como eficaz e segura para o uso em tratamentos oncológicos. 

“Infelizmente, a gente sabe que às vezes uma molécula dessa, com potencial muito promissor para virar fármaco, é coisa de anos, às vezes 10 anos, para conseguir de fato entrar no mercado.”

A pesquisadora aposta que a substância tem potencial para ser utilizada como um adjuvante do combate à doença, gerando o enfraquecimento do tumor e tornando os quimioterápicos convencionais mais eficazes. 

Porém, para verificar a possibilidade, é necessário realizar novas pesquisas laboratoriais e, posteriormente, dependendo dos resultados, testar a ação dela em seres vivos — inicialmente em animais e, caso seja seguro, em humanos.

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