Estoril, cenário de 'Hamlet' e 'vaia ao sol': causos curiosos de Fortaleza são resgatados em livro
Obra "Dicionário amoroso de Fortaleza", de Tércia Montenegro, revisita lugares e histórias da capital cearense.
“De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas”. Aqui resgato Calvino e a beleza com que mira as cidades. Para ele, a costura de um lugar reside em seu avesso, e é justamente desses fios emaranhados que a cearense Tércia Montenegro constrói sua escrita.
Em “Dicionário amoroso de Fortaleza”, publicada pela Editora UFC, a autora descortina histórias, causos e memórias da capital cearense. Longe de ser uma descrição objetiva e direta da cidade, ela se propõe a falar dos afetos, das memórias e das experiências que atravessam essa malha urbana.
Ao abordar o Estoril, por exemplo, ela não apenas cita se tratar de uma edificação na Rua dos Tabajaras construída na década de 1920. A escritora relembra que o espaço foi palco de uma encenação ultramoderna de ‘Hamlet’, dirigida por Thiago Arrais, além de ter funcionado como clube de soldados e ainda cassino em plena Segunda Guerra.
Para Calvino, “as cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas, e que todas as coisas escondam outra coisa”.
Ao abordar as cidades invisíveis, Calvino nos fala sobre essas pequenas coisas que fazem parte delas. As miudezas que se escondem para além dessa primeira camada da visão. Mais do que suas esquadrilhas, prédios e asfaltos, a cidade se constrói a partir das relações entre o espaço e os acontecimentos do passado.
Fortaleza, como outras cidades, é feita de ondas de recordações. E Tércia descortina isso. Ela reflete sobre a floresta do Curió, a Feirinha da Beira-Mar e cita até mesmo a “vaia ao sol”. Esse causo, talvez mais conhecido, ocorreu quando o povo resolveu vaiar o sol na Praça do Ferreira, sem qualquer combinação prévia.
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Caminhar por Fortaleza com outras perspectivas
Caminhar pelo dicionário amoroso de Tércia Montenegro é como vagar sem rumo por Fortaleza, sem saber o que vai encontrar. Há uma subversão em sua escrita.
Como a prática da flânerie, que é esse ato de caminhar sem rumo ou pressa pela cidade, observando o cotidiano, o livro propõe um passeio que não precisa ser feito seguindo uma ordem específica. O leitor se torna esse observador atento que busca sentir a alma da metrópole.
A ordem da leitura é ditada pelo interesse de cada um no tema. É possível começar pelos naufrágios e pelas praças ou iniciar pela Aldeota e pelos bares´. No tópico “Ponte dos Ingleses”, ela nos confessa:
“Na primeira vez em que assisti ao filme 'Morte em Veneza', tive uma estranha sensação de familiaridade. Algo em sua brancura de trajes, chapéus e sombrinhas me lembrou um cenário de Fortaleza. Na Ponte dos Ingleses, nunca vi alguém desfilar com roupas de época, mas mesmo assim havia uma idêntica atmosfera, com as ondas quebrando sob as tábuas do píer, os postes estreitos e as cercas de proteção caiadas”.
O leitor, nessa caminhada pela obra, consegue subverter os valores da cidade e de suas mercadorias. Subverte até mesmo a velocidade, o atarefamento e a solidão. Se o cotidiano, por vezes, não nos permite olhar com atenção aquilo que nos rodeia, o livro de Tércia Montenegro permite que a gente pratique essa possibilidade.
Esse Dicionário Amoroso de Fortaleza é recheado de centelhas e encontros. A cidade está carregada dessas memórias, belezas e imagens poéticas. Cabe ao leitor, então, aproveitar essa caminhada e abraçar os distintos lampejos proporcionados pela leitura.
Serviço
Livro "Dicionário amoroso de Fortaleza"
Quanto: R$ 58,00
Onde comprar: Editora UFC.