Navegadora brasileira passa oito meses isolada em veleiro preso no Ártico e narra aventura em livro
Em "Bom dia, inverno", Tamara Klink compartilha o diário de viagem de sua última exploração.
É preciso sair da ilha para ver a ilha, como disse José Saramago. E para a navegante Tamara Klink, era preciso percorrer sua própria jornada para entendê-la. Durante sua infância, acompanhou, a distância, as aventuras do pai pelo mundo. O reconhecido navegador brasileiro Amir Klink lhe mostrou possibilidades, mas foi ela quem traçou os próprios passos.
Em "Bom dia, inverno", Tamara, de 29 anos, descortina seu recente desafio: sobreviver a oito meses de isolamento no Ártico groenlandês. O livro é uma conversa franca da escritora com seus leitores, dando acesso direto ao seu diário de viagem. Tamara não esconde as dificuldades, tampouco os medos vividos no processo.
Há que abdicar de certo conforto para poder embarcar em uma viagem como essa, em que o veleiro fica preso no mar congelado e não há como escapar até o fim do inverno. Ainda assim, ela seguiu em frente. Não nos vemos se não saímos de nós.
Após uma longa jornada até ancorar seu barco em uma paisagem gélida e remota, em um fiorde escuro da Groenlândia, ela confessa: "Acho que são os dias mais bonitos da minha juventude".
Pela manhã, cria um ritual para garantir água limpa e comida. Aprendeu novas técnicas de pescaria especialmente para essa jornada e, antes de andar pelo gelo, mapeia com cuidado o caminho para evitar as áreas que podem ceder.
Suas tardes são reservadas ao silêncio, ao aprendizado de um violão ou à leitura de alguns poucos livros que escolheu para a jornada. Já pela noite, descansa, pensa, observa as estrelas, a lua iluminada e aprecia as auroras boreais que surgem.
"Grito o mais alto que posso, sem medo de incomodar os outros. Fico acordada a noite toda procurando constelações. Caminho até as pernas doerem. Parei de tentar parecer alguma coisa para, simplesmente, ser".
Primeira mulher a invernar no Ártico
É legítimo perguntar o que há de relevante na história de uma jovem que, amparada por condições excepcionais, escolhe passar meses sozinha em um veleiro preso ao gelo do Ártico.
Ainda que esse ponto raramente venha à tona no caso de exploradores homens, a resposta talvez não esteja na possibilidade de repetir sua jornada. Talvez resida no que seus relatos e no que sua própria experiência revelam sobre a condição humana e o existir.
Tamara, que é a primeira mulher registrada a passar o inverno sozinha no Ártico, constrói um livro carregado de conversas sobre a solidão e o encantamento diante do mundo.
"Tudo, mesmo a coisa mais banal, é difícil. E, por isso, alcançá-las me faz feliz. A preparação para vir para cá foi um caminho mais duro do que eu pensava. Mas aqui estou, dando nome às pedras, construindo escorregadores, descobrindo que a felicidade é um passeio", escreve.
Em meio a tudo isso, a navegadora ainda reflete sobre as mudanças climáticas no planeta e sobre a rapidez com que as paisagens estão mudando. Sua escrita desacelera, encontra um outro ritmo e coloca em xeque nossas existências: "o que será a vida depois de dar a ela outra definição?".
Ao transformar o isolamento em narrativa, Tamara Klink desloca o olhar do extraordinário para questões que atravessam qualquer vida: a convivência consigo mesmo, a incerteza, a passagem do tempo e a capacidade de encontrar sentido mesmo quando o mundo parece suspenso.
Tamara Klink supera desafios na jornada
Não foram poucos os alertas que Tamara Klink recebeu antes de atracar na Groenlândia. Até chegar ao destino, escutou que não conseguiria percorrer sua rota e que havia o risco de ser encontrada por caçadores ou morrer no gelo. Houve até quem falasse dos fantasmas do Ártico, que não gostavam da presença de mulheres.
Apesar de tudo, ela seguiu, ciente de que era "preciso intimidar meus medos para não virar refém do que conheço". Ela estava disposta a descobrir novos caminhos, e aprender a ver luz na escuridão. "Se eu desistir da invernagem e fugir agora, passarei o resto da vida arrependida por não ter tentado", refletiu.
E ela escreve de um modo tão particular que se torna universal, há uma beleza em acompanhar.
"Consigo pensar em muitos livros e filmes sobre homens que se isolaram em um lugar selvagem (onde poderiam ser comidos vivos), mas é difícil lembrar de isolamentos de mulheres. Talvez porque somos desincentivadas a nos arriscar, ou porque nossos relatos foram menos publicados, menos lidos".
Por isso, é significativo que Tamara se torne referência. Mostra que, sim, as mulheres também podem ocupar esses espaços e encarar essas longas jornadas.
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'Não comprem mais'
Com "Bom dia, inverno", Tamara se tornou uma das autoras mais vendidas do Brasil. Segundo o ranking Nielsen-PublishNews de julho, seu livro ficou em primeiro lugar na lista geral, com 9,5 mil exemplares vendidos.
Na quinta-feira (6), ela fez um pedido inusitado aos seguidores: "eu preciso falar uma coisa que é polêmica, mas vocês vão entender. Não comprem mais esse livro, 'Bom dia, inverno'".
Sua fala polêmica esconde um pedido: compartilhar os exemplares com outros leitores. “Se vocês puderem, se vocês têm acesso a uma biblioteca, se vocês têm pessoas da família, colegas, pessoas do trabalho, façam os livros circularem. É para isso que eles existem.”
Como a própria autora afirma não depender da renda dos livros para viver, Tamara incentiva a doação de suas obras. Então, que suas histórias viajem e cheguem a muitas outras mãos!
Serviço
Livro "Bom dia, inverno"
Quanto: R$ 69,90
Onde comprar: Companhia das Letras.