O paradoxo do bolso brasileiro

Escrito por
Ana Alves animaconsultoria@yahoo.com.br
Legenda: O país está investindo mais, mas isso não significa que todas as famílias estejam acumulando patrimônio.
Foto: Shutterstock

O Brasil vive uma situação que, à primeira vista, parece contraditória. De um lado, nunca tantas famílias tiveram dívidas. De outro, o volume de dinheiro aplicado por pessoas físicas também alcança patamares inéditos. Afinal, estamos mais endividados ou mais ricos?

As duas coisas podem acontecer ao mesmo tempo. E a explicação começa por entender que endividamento não é sinônimo de inadimplência.

A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, a Peic, da Confederação Nacional do Comércio, considera endividada a família que possui compromissos como cartão de crédito, empréstimos, carnês ou prestações de veículos e imóveis, mesmo que tudo esteja sendo pago em dia.

Em agosto, 82% das famílias brasileiras declararam algum tipo de dívida, mantendo o maior patamar da série histórica. A parcela com contas atrasadas, porém, era bem menor: 29,9%.

O problema mais preocupante aparece quando se observa quem está sofrendo mais. Entre as famílias com renda de até três salários mínimos, 85,1% estavam endividadas e 38,8% tinham contas em atraso.

Enquanto isso, a Anbima informou que o volume de investimentos das pessoas físicas chegou a R$ 9,1 trilhões ao final do primeiro semestre de 2026, crescimento de 6,4% em apenas seis meses. Não há contradição matemática. Há, sobretudo, brasileiros em situações financeiras muito diferentes.

Dois lados dos juros altos

A própria composição dos investimentos ajuda a explicar o fenômeno. Do total contabilizado pela Anbima, aproximadamente dois terços estão nos segmentos de alta renda e private.

O varejo tradicional responde por cerca de um terço. Além disso, pesquisa da entidade em parceria com o Datafolha aponta que apenas 36% da população possui algum investimento financeiro.

Veja também

É possível, portanto, que uma parcela da sociedade amplie patrimônio enquanto outra recorre cada vez mais ao crédito para fechar o orçamento do mês. Os juros elevados tornam essa distância ainda mais visível.

Para quem possui capital disponível, aumentam a atratividade da renda fixa. Para quem depende de empréstimos, parcelamentos ou crédito rotativo, encarecem a dívida e comprimem a renda.

Há ainda um terceiro grupo: pessoas que têm investimentos e dívidas simultaneamente. Isso não é necessariamente errado. Um financiamento imobiliário de longo prazo, por exemplo, pode conviver com uma reserva financeira.

O alerta surge quando alguém mantém aplicações rendendo menos do que paga de juros em dívidas caras ou investe sem possuir uma reserva mínima para emergências.

Por isso, os dois recordes dizem menos sobre uma contradição e mais sobre a desigualdade financeira brasileira. O país está investindo mais, mas isso não significa que todas as famílias estejam acumulando patrimônio.

Da mesma forma, ter dívida não significa necessariamente descontrole, mas o crescimento da inadimplência entre os mais pobres mostra que, para milhões de brasileiros, o crédito deixou de ser apenas instrumento de consumo e passou a funcionar como complemento da renda.

O desafio para você é simples: faça hoje duas contas. Some tudo o que possui investido e, separadamente, tudo o que deve, identificando a taxa de juros de cada dívida.

Mais importante do que saber se você é investidor ou devedor é descobrir para qual lado os juros estão trabalhando no seu orçamento.

Pensem nisso! Até a próxima. Ana Alves- @anima.consult

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

Assuntos Relacionados