Empréstimo na conta de luz: facilidade que pode sair muito cara
“R$ 7 mil te ajudam hoje?” Ofertas de empréstimo com pagamento diretamente na conta de energia têm aparecido em anúncios nas ruas e na internet em Fortaleza.
A facilidade chama atenção, principalmente de quem está endividado ou tem dificuldade para conseguir crédito. Mas transformar a conta de luz em instrumento de cobrança de uma dívida financeira exige muito cuidado.
Antes de tudo, é preciso esclarecer como funciona. No Ceará, o empréstimo não é concedido pela Enel Distribuição Ceará. Segundo informações prestadas pela companhia à Coluna, a modalidade é viabilizada por contrato da Enel X com a financeira Crefaz.
A Crefaz faz a operação de crédito e obtém a autorização para cobrança; depois da validação, inclusive com reconhecimento facial, a parcela é incluída na fatura de energia. A Enel afirma que não fornece os dados de seus clientes nem participa da captação do empréstimo.
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O problema começa pelo preço do dinheiro. Atualmente, a própria Crefaz informa em seu site taxa de juros de 11,72% ao mês e Custo Efetivo Total, o CET, a partir de 12,67% mensais.
No exemplo apresentado pela empresa, um empréstimo de R$ 1.500, parcelado em 18 meses, gera prestações de R$ 219,20. Ao final, serão pagos R$ 3.945,60 — mais de duas vezes e meia o valor recebido.
O CET inclui não apenas juros, mas também outros custos da operação e deve ser observado antes da contratação.
Quando a facilidade vira armadilha
O risco é ainda maior porque esse crédito chega justamente a famílias cujo orçamento já pode estar pressionado. Pesquisa da Fecomércio Ceará mostrou que, em julho de 2026, 69,6% das famílias de Fortaleza tinham algum tipo de dívida.
Em média, 41% da renda familiar estava comprometida com pagamentos de dívidas, e 10,1% dos entrevistados utilizavam empréstimos pessoais. Embora o percentual de contas em atraso tenha caído para 16,8%, o quadro mostra pouco espaço para assumir prestações caras sem planejamento.
Há também um componente psicológico. Energia elétrica é despesa essencial e normalmente está entre as primeiras contas que uma família procura pagar. Ao colocar a prestação do empréstimo na mesma fatura, cria-se a sensação de que energia e dívida financeira são uma obrigação única. Não são.
A regulamentação da Agência Nacional de Energia Elétrica determina que valores de produtos e serviços de terceiros devem estar claramente discriminados na fatura e depender de autorização comprovável do consumidor.
Mais importante: o fornecimento de energia não pode ser suspenso exclusivamente porque a parcela de um produto de terceiro, como o empréstimo, deixou de ser paga.
O consumidor também pode solicitar o cancelamento da cobrança desse serviço na conta de energia. Isso retira a parcela da fatura, mas não elimina a dívida com a financeira, que continuará existindo e poderá ser cobrada por outros meios.
Portanto, antes de contratar, a pergunta principal não deve ser “a parcela cabe na conta de luz?”, mas “quanto vou pagar no total e existe crédito mais barato?”.
Compare o CET com outras alternativas, verifique se o dinheiro resolverá um problema definitivo ou apenas cobrirá outra dívida e jamais faça esse tipo de operação para terceiros.
O desafio desta semana: pegue qualquer empréstimo que esteja pensando em contratar e anote três números: quanto receberá, quanto pagará por mês e quanto terá desembolsado ao final.
Depois, compare esse custo com pelo menos duas outras opções. Se o valor total assustar quando colocado no papel, esse desconforto pode estar evitando uma dívida muito maior no futuro.
Pensem nisso! Até a próxima. Ana Alves- @anima.consult