Consignado CLT: quando o crédito fácil vira risco dentro da empresa
O empréstimo consignado para trabalhadores com carteira assinada ampliou o acesso a um crédito que tende a ser mais barato que outras modalidades.
Mas uma regra precisa ser lembrada: o fato de a prestação caber na margem consignável não significa que ela caiba confortavelmente no orçamento familiar.
Pelas normas do Crédito do Trabalhador, os descontos podem alcançar até 35% da remuneração disponível. É um limite operacional, não uma recomendação de endividamento.
O tema já entrou definitivamente nas fábricas. Pesquisa da Serasa Experian com 550 empresas de todas as regiões mostrou que, entre as companhias que conhecem o novo modelo, 65% já registravam funcionários utilizando o consignado.
Na indústria, o percentual chegava a 77%, o maior entre os setores pesquisados.
O sinal de atenção fica mais forte quando se observa a situação financeira dos tomadores. Outro estudo da Serasa Experian, que analisou quase 192 mil contratos, constatou que 78% dos trabalhadores que contrataram o novo consignado tinham mais de 81% da renda comprometida com empréstimos e outras obrigações financeiras.
Isso não significa que o consignado tenha provocado sozinho esse comprometimento, mas mostra que o crédito está chegando a muita gente que já possui orçamento pressionado.
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No Ceará, a adesão começou forte. Dados do Ministério do Trabalho divulgados no início do programa mostravam que, já em abril de 2025, mais de 18,6 mil trabalhadores cearenses haviam contratado cerca de R$ 98,8 milhões, colocando o Estado na sétima posição nacional em número de contratos naquele momento. Poucos meses depois, o volume contratado no Ceará já alcançava R$ 473 milhões.
O contexto financeiro local ajuda a entender o cuidado necessário. Em julho de 2026, pesquisa da Fecomércio Ceará mostrou que 69,6% das famílias de Fortaleza possuíam algum tipo de dívida.
Em média, 41% da renda familiar estava comprometida com pagamentos de dívidas. Embora as contas em atraso tenham recuado para 16,8%, o levantamento constatou que alimentação, saúde e outras despesas essenciais continuam entre as principais razões para o uso do crédito.
Quando o empréstimo vira negócio entre colegas
Há ainda um comportamento que algumas empresas vêm relatando e que merece atenção: o funcionário contrata o consignado e repassa o dinheiro a outro colega, cobrando juros maiores.
Não encontrei pesquisa confiável que permita afirmar que essa prática seja disseminada, portanto ela deve ser tratada como um relato observado no ambiente empresarial, e não como fenômeno estatisticamente comprovado.
Financeiramente, a operação é perigosa. Quem contrata o consignado continua devendo ao banco e terá a parcela descontada do salário mesmo que o colega não devolva o dinheiro.
Assume, portanto, uma dívida formal para conceder um empréstimo informal, sem os instrumentos de análise, cobrança e proteção utilizados por uma instituição financeira.
Existe também risco jurídico. Empréstimos entre particulares são permitidos, mas a cobrança de juros não é livre de limites legais. O Superior Tribunal de Justiça reconhece a possibilidade do mútuo entre particulares, mas ressalta a incidência das regras civis e da legislação contra a usura.
Para a empresa, a solução não é controlar como o funcionário gasta o salário ou o empréstimo. O caminho mais adequado é prevenção. A própria legislação do Crédito do Trabalhador prevê ações gratuitas de educação financeira.
Empresas podem transformar esse tema em política permanente de saúde financeira, ensinando seus colaboradores a calcular o custo total do crédito, identificar o comprometimento da renda e distinguir crédito para reorganização financeira de crédito para aumentar consumo ou financiar terceiros.
Fica um desafio: antes de contratar um consignado, responda a três perguntas no papel. Quanto vou receber? Quanto pagarei no total? Qual problema financeiro esse dinheiro vai resolver? Se a terceira resposta não estiver clara, talvez o empréstimo esteja apenas transferindo o problema para os próximos salários.
Pensem nisso! Até a próxima. Ana Alves- @anima.consult
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.