Por que o dinheiro acaba antes do mês?

Escrito por
Ana Alves animaconsultoria@yahoo.com.br
Legenda: A compra de hoje reduz o dinheiro disponível amanhã.
Foto: Shutterstock

Trouxemos hoje uma análise das respostas ao formulário do Raio X Financiero da Vida Real, criado por mim como forma de auxiliar no Planejamento Financeiro Pessoal. O perfil contou com 20 respostas, com idade média próxima dos 46 anos, produziu um retrato que merece atenção.  

Havia diferentes níveis de renda, inclusive rendimentos relativamente bons. Ainda assim, repetiam-se dificuldades de organização, dívidas, ausência de reserva e preocupação constante com dinheiro. 

O levantamento faz parte do Raio X Financeiro da Vida Real, uma metodologia de diagnóstico que procura entender a situação financeira para além do saldo bancário.  

As respostas são observadas em quatro dimensões:  

  • Financeira, considerando renda, despesas, dívidas, reserva e capacidade de pagamento;  
  • Organizacional, avaliando controle, planejamento e previsibilidade;  
  • Comportamental, identificando hábitos de consumo, compras por impulso e dependência do crédito; 
  • Emocional, observando sentimentos como ansiedade, medo e vergonha relacionados ao dinheiro.  

A proposta não é apenas descobrir quanto uma pessoa ganha ou deve, mas compreender como ela se relaciona com o dinheiro e quais fatores mantêm sua fragilidade financeira. 

Como se trata de uma amostra inicial de 20 participantes, os percentuais não podem ser generalizados para toda a população. Eles servem para identificar padrões e aprofundar a compreensão das dificuldades encontradas na vida financeira real. 

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E um dos primeiros padrões apareceu antes mesmo da dívida: cerca de 75% dos participantes não sabiam exatamente quanto entrava e quanto saía por mês ou trabalhavam apenas com estimativas. Outros 40% conseguiam pagar as contas, mas terminavam o mês sem qualquer sobra. 

Estar com as contas em dia, portanto, não significa necessariamente estar financeiramente saudável. Quando praticamente toda a renda já tem destino, basta uma despesa inesperada para romper o equilíbrio. 

A proteção contra esses imprevistos também era pequena: 95% não possuíam uma reserva de emergência considerada adequada, enquanto apenas cerca de 15% afirmavam conseguir guardar algum dinheiro ao final do mês. 

A dívida pode ser consequência, não o começo do problema 

Entre os participantes, 90% possuíam algum tipo de dívida e aproximadamente metade estava negativada. Um dado especialmente revelador é que 75% já haviam tentado renegociar seus débitos. 

Isso mostra que o problema não pode ser explicado simplesmente por falta de iniciativa. Renegociar é importante, mas pode não ser suficiente. Se a prestação diminui, porém o orçamento continua gastando mais do que comporta, a dívida antiga pode ser substituída por uma nova. 

Quase 45% utilizavam o cartão de crédito para completar o mês. Nesse momento, o cartão deixa de ser apenas um meio de pagamento e passa a antecipar renda.

A compra de hoje reduz o dinheiro disponível amanhã. A próxima fatura chega, o orçamento fica novamente apertado e o crédito volta a ser utilizado. 

Forma-se um ciclo: falta planejamento, os gastos absorvem a renda, não existe reserva, surge um imprevisto, entra o crédito, aparecem parcelas e parte da renda futura fica comprometida. 

Há ainda algo que nenhuma planilha consegue explicar sozinha. Cerca de 55% reconheciam realizar compras por impulso, pelo menos ocasionalmente. E aproximadamente 70% relatavam vergonha, medo ou ansiedade ao olhar para a própria situação financeira. 

A dívida é financeira, mas a experiência do endividamento também é emocional. 

Por isso, dizer simplesmente “gaste menos” ou entregar uma planilha pode não funcionar para todos. É preciso descobrir o comportamento que está por trás dos números. 

Primeiro controle, depois patrimônio 

Talvez o dado mais promissor do levantamento seja justamente aquele que aponta para a possibilidade de mudança: 85% dos participantes disseram estar dispostos a seguir um plano de ação por 30 dias. 

E esse pode ser um bom começo para qualquer pessoa. O desafio é simples: durante os próximos 30 dias, registre 100% do dinheiro que entra e sai. Inclua as contas grandes e os pequenos gastos.

Uma vez por semana, reserve 15 minutos e responda: quanto gastei? O que poderia ter evitado? Quanto do próximo mês já está comprometido com parcelas e dívidas? 

Não é necessário transformar toda a vida financeira em um mês. O primeiro objetivo é conquistar algo anterior à reserva, aos investimentos e, muitas vezes, até à saída das dívidas: clareza. 

Ao final dos 30 dias, faça uma última pergunta: 

  • Eu estou decidindo para onde vai o meu dinheiro ou apenas descobrindo, no fim do mês, para onde ele foi? 
  • Porque, antes de construir patrimônio, talvez seja preciso recuperar o mais básico deles: o controle sobre a própria vida financeira. 

Pensem nisso! Até a próxima. Ana Alves- @anima.consult

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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