Como a economia cearense encerrou o 1º semestre?

Escrito por
Allison Martins allissonmartins@unifor.br
Legenda: No primeiro semestre de 2026, o campo e o varejo avançam no Ceará, enquanto a indústria e os serviços ainda patinam.
Foto: Fabiane de Paula.

A primeira metade de 2026 ficou para trás e o IBGE acaba de concluir a divulgação das pesquisas mensais que permitem fechar o retrato do semestre. No Brasil, a indústria e os serviços cresceram, enquanto o comércio perdeu fôlego no segundo trimestre. No Ceará, o filme rodou ao contrário. O varejo e o campo puxaram a atividade, e a indústria e os serviços ficaram no terreno negativo.

Vale explicar que o PIB do Ceará referente ao período ainda não foi divulgado. Enquanto o número oficial não chega, as pesquisas mensais de comércio, serviços e indústria, somadas ao levantamento da safra agrícola, funcionam como uma boa prévia da atividade econômica.

Os dados a seguir comparam o acumulado de janeiro a junho de 2026 com o mesmo período de 2025.

O RETRATO DO SEMESTRE

Setor Ceará Brasil
Comércio varejista +4,0% +1,9%
Comércio varejista ampliado +3,8% +1,9%
Indústria geral -3,0% +1,5%
Serviços -5,1% +2,0%
Agropecuária (safra 2026)* +88,1% +2,0%

Fonte: IBGE (2026).

*A agropecuária se refere ao Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) de julho, que compara a estimativa da safra de 2026 com a safra colhida em 2025.

VAREJO CRESCE O DOBRO DO BRASIL

O comércio varejista cearense avançou 4,0% no semestre, mais que o dobro da média nacional, de 1,9%. No conceito ampliado, que soma veículos e materiais de construção ao varejo tradicional, a alta foi de 3,8%.

O destaque ficou com o segmento de veículos, motos e peças, que cresceu 7,9% no acumulado do ano. A exceção segue sendo o comércio de materiais de construção, com queda acumulada de 8,3%.

A SAFRA QUASE DOBROU

No campo, o IBGE estima que a produção cearense de cereais, leguminosas e oleaginosas alcance 721,3 mil toneladas em 2026, um salto de 88,1% sobre a safra de 2025.

Para se ter uma ideia da dimensão desse número, a safra nacional deve crescer 2% no mesmo período. O bom regime de chuvas no início do ano explica parte relevante do resultado.

Veja os produtos com as maiores altas previstas para a safra cearense de 2026.

  1. Milho (1ª safra), alta de 101,2%
  2. Feijão (1ª safra), alta de 83,7%
  3. Algodão herbáceo, alta de 71,5%
  4. Soja, alta de 34,0%
  5. Castanha-de-caju, alta de 19,9%

Nem tudo avança no campo. Culturas tradicionais como mandioca (-11,9%) e cana-de-açúcar (-11,6%) devem encolher neste ano.

INDÚSTRIA E SERVIÇOS NO TERRENO NEGATIVO

A indústria cearense acumulou queda de 3,0% no primeiro semestre, na contramão da indústria nacional, que cresceu 1,5%. Entre as atividades, produtos de metal (+24,9%) e derivados de petróleo e biocombustíveis (+12,9%) lideram os ganhos no ano, enquanto máquinas e materiais elétricos (-17,8%), têxteis (-12,0%) e vestuário (-10,6%) sofrem as maiores perdas.

Já os serviços tiveram o desempenho mais fraco entre os grandes setores. O volume recuou 5,1% no acumulado do ano no Ceará, enquanto cresceu 2,0% no País. As cinco grandes atividades de serviços pesquisadas estão no vermelho no semestre, com destaques negativos para outros serviços (-11,1%) e transportes (-6,4%).

Veja também

EMPREGO MELHORA E INFLAÇÃO INCOMODA

No mercado de trabalho, a taxa de desemprego do Ceará caiu de 7,3% no primeiro trimestre para 6,6% no segundo, conforme a PNAD Contínua do IBGE. A taxa ainda é superior à média nacional, de 5,4%, mas fica bem abaixo das registradas em vizinhos como Bahia (9,1%) e Pernambuco (8,3%).

Nos preços, a inflação oficial da Grande Fortaleza acumula alta de 4,03% em 2026 até julho, acima da média nacional, de 3,44%. Educação (6,16%), transportes (5,40%) e alimentação (4,35%) são os grupos que mais pesaram no bolso das famílias no período.

O QUE ESPERAR DO SEGUNDO SEMESTRE

O Banco Central iniciou 2026 com a Selic, a taxa básica de juros da economia, em 15% ao ano e já promoveu quatro cortes, levando a taxa para 14% em agosto. Juros menores tendem a beneficiar justamente os setores mais sensíveis ao crédito, casos dos materiais de construção, da indústria e de parte dos serviços, que hoje seguram o desempenho da economia cearense.

Se essa engrenagem voltar a girar, o Estado tem boas condições de repetir o roteiro de 2025, quando o PIB cearense cresceu acima do Brasil.

Por fim, o primeiro semestre confirmou uma economia cearense andando em duas velocidades. O campo e o varejo avançam, enquanto a indústria e os serviços ainda patinam.

Sigo acompanhando de perto os indicadores e torcendo para que, com juros em queda e mercado de trabalho aquecido, a segunda metade do ano traga um crescimento mais equilibrado entre os setores, porque é esse equilíbrio que se transforma em desenvolvimento, emprego e renda para os cearenses.

Grande abraço.

* Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.