O medo do que os outros podem pensar sobre você comanda sua vida?
O desejo de aprovação entrega o controle da sua vida a quem você atribui o poder.
As fantasias são elementos constituintes do nosso aparelho psíquico. Olhamos para a realidade sob as lentes dos nossos desejos, dos mecanismos de defesa e observamos o mundo com as cores do que nos habita. Nesse percurso, enquanto formamos uma ideia também fantasiosa de quem somos, introjetamos aspectos da cultura e das fantasias e idealizações desta e dos nossos pais.
Estas idealizações operam dentro de nós, à nossa revelia, produzindo prazeres, alimentando desejos, mas também medos e culpas.
Esses outros internalizados, nos miram continuamente, atravessam nossos pesadelos, alimentam inseguranças, e instigam nossos desejos.
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Infelizmente, para muitas pessoas, a vida passa a ser pautada pelo olhar e fantasias dos outros sobre si, mais do que sua própria mirada e desejo.
Assim, desejos ficam amortecidos, coragens esmorecem, ressentimentos afloram e processos infantis dominam a vida adulta sempre à espera da aprovação dos outros e com medo de se diferenciar e bancar as próprias escolhas.
Muitos relacionamentos, escolhas profissionais, religiosas, orientação sexual e identidade de gênero, se mantêm sustentadas pelo medo e paralisam posicionamentos existenciais estancados pelo temor da desaprovação.
Sob um olhar superficial, poderia parecer apenas uma questão de falta de coragem. Entretanto, o olhar que nos ameaça vem de dentro, enraizado em fantasias assustadoras de temor de decepção, desamor, desaprovação, construída e mantida por aspectos infantis reféns do medo de perder o amor e desaparecer sem essa proteção e aprovação.
Para que alguém possa se diferenciar, bancar as escolhas, precisa se tornar um sujeito, habitar o seu mundo interno, construir e reconhecer as próprias fronteiras e sentir-se capaz de existir diante da decepção do olhar do outro e da frustração pela perda das idealizações.
Suportar a perda da própria ideia e cobrança de perfeição, sobreviver ao olhar de cobrança e à decepção são etapas importantes para quem questiona onde mora aquilo que deseja, e o que encontra-se refém e alienado daquilo que desejam que você seja.
A famosa frase "o que os outros vão pensar?", diz da sua ideia internalizada do seu próprio julgamento sobre o seu desejo.
Quando é possível a alguém romper com a idealização e poder ficar confortável em ser quem se é, o algoz que lhe habita pode dar lugar a um assumir e tomar posse do processo de crescimento e responsabilização pelo pensar, desejar e ser.
Pessoas criadas sob ameaças, medos, culpas, violência, em ambientes rígidos, empobrecidos de pensar, questionar, podem viver reféns dos outros, quase pedindo desculpas por existir, falar, sempre desejando agradar e metamorfoseando comportamentos em busca de ser aquilo que os outros esperam.
Por outro lado, quando recebemos apoio, tanto familiar quanto proteção e garantias de direitos do Estado, para sustentar nossa verdade, quando somos validados em nossas emoções e desejos, estimulados a pensar e sustentar os argumentos do que pensamos, apreciados e amados em nosso processo de diferenciação, autonomia e interdependência, desenvolvemos mais confiança diante das ameaças dos julgamentos e na capacidade de interdependência.
É impossível agradar a todos e nem sempre as expectativas que são feitas sobre nós seremos capazes de atender, desejaremos atender ou nos fará bem atendermos.
Podemos experimentar uma vida feito fantoche ou uma miragem do que desejaríamos ser, feito um ventríloquo que cede a voz para animar uma vida que não é sua ou um viver criativo, autêntico, que sustenta falhas e alimenta desejos.
O desejo de aprovação entrega o controle da sua vida a quem você atribui o poder sobre o seu amor próprio e estima. Assim, a vida governada pelo olhar do outro compromete a autenticidade, a criatividade, a alegria, leva ao despertencimento e vazio de si.
Se ninguém pudesse lhe julgar, quem você seria, o que faria, o que escolheria? O que está perdendo de si ao oferecer o controle de sua vida aos outros? Quando se olha no espelho consegue perceber o que lhe pertence e deseja com todas as suas forças e vitalidade?
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.