“Simpático, educado, uma pessoa presente... Eu nem sei dizer ‘direito’ o início disso tudo. Mas as primeiras agressões foram verbais”. É assim que Marina* relembra, em entrevista ao Diário do Nordeste, um relacionamento abusivo vivido ainda na adolescência.

As agressões verbais, infelizmente, eram o indicativo de que algo ainda pior estava por vir. Marina foi violentada fisicamente pelo ex-namorado.

“Eu queria dizer que a denúncia partiu de mim, mas não foi. Foram duas situações específicas que a Polícia interveio”, relembra a jovem, hoje com 27 anos. Com a ajuda das amigas, da família, de policiais militares e uma equipe multiespecializada na área da saúde, o ciclo de violência foi rompido.

A história de Marina compõe triste estatística retratada na pesquisa “Mulher Coragem, os medos e demandas das mulheres cearenses por segurança”, realizada em 2025, como parte do Projeto Elas, do Diário do Nordeste. O levantamento aponta dados alarmantes como o de que uma em cada duas mulheres no Ceará já sofreu algum tipo de violência.

Considerando apenas os 12 meses anteriores à pesquisa, 20% das pouco mais de duas mil jovens e adultas entrevistadas afirmaram que sofreram ou presenciaram violência de gênero no Ceará.

E, conforme números da pesquisa quantitativa, apenas uma a cada 20 (ou seja, 5%) denunciou violência contra mulher nos últimos 12 meses. Medo de represália e vingança, dependência emocional, dependência física, vergonha e constrangimento estão entre os principais fatores que impediram essas mulheres de buscar as autoridades, seja para reportar uma violência sofrida ou algum caso que presenciaram.

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Como parte do Projeto Elas, o Diário do Nordeste publica o especial “Mulher Coragem”, série de reportagens baseadas nos resultados da pesquisa de opinião “Os medos e demandas das mulheres cearenses por segurança”, encomendada pelo Jornal, ao Instituto Patrícia Galvão e executada pelo instituto Ipsos-Ipec, com o patrocínio da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece).

O estudo foi dividido em três etapas: pesquisa qualitativa com entrevistas em profundidade com especialistas envolvidos com direito das mulheres e violência contra a mulher; pesquisa qualitativa que ouviu mulheres com 16 anos e mais (grupos de discussão) e pesquisa quantitativa com 2.032 entrevistas em 77 municípios, entre os dias 1º e 14 de outubro de 2025.

O objetivo do levantamento é identificar e compreender os medos e inseguranças das mulheres cearenses de modo geral e em diversos espaços, como casa, trabalho, escola, ruas, transporte público e, ainda, no ambiente virtual.

DEPENDÊNCIA PSICOLÓGICA E FINANCEIRA

Conforme a pesquisa quantitativa, a "violência" é mais presente entre as jovens (16 a 24 anos): cerca de um terço (31%) das entrevistadas revelaram ter sofrido ou presenciado violência no último ano.

Impunidade e falta de policiamento ampliam sensação de insegurança em mulheres do Ceará, conforme a pesquisa.

Apesar de o lar ser o ambiente percebido como mais seguro (83%), a agressão física nele é a mais temida (37%), como pontuado no levantamento quantitativo.

A promotora de Justiça Valeska Bastos, coordenadora do Núcleo Estadual de Gênero Pró-Mulher (Nuprom) do Ministério Público do Ceará (MPCE), reflete que “na pandemia houve um aumento expressivo da questão da violência doméstica justamente por as pessoas estarem confinadas e essa conjuntura familiar estar potencializada. Os fatores dependência de álcool e droga infelizmente também interferem”.

Das 2.032 entrevistadas, 44% citaram o medo de represália e vingança como a principal barreira para uma mulher denunciar. E quanto mais avançada a idade, mais se teme esta represália: entre as idosas o índice chega a 54%.

Na sequência vêm: 30% temem a dependência emocional, 29% de serem desacreditadas, outras 29% que a denúncia não vai dar em nada e 24% citaram a vergonha e o constrangimento em expor o ocorrido como os principais motivo para não denunciar.

“No que concerne às idosas, eu iria além: tem a questão da dependência física, fisiológica. Percebo que o idoso pode até ser independente financeiramente, mas muitas vezes são adoentados, acamados, com dificuldade de se locomover, essa dependência física gera uma opressão”, acrescenta a promotora de Justiça.

Lia Gomes, titular da Secretaria das Mulheres do Ceará, garante que proteger a mulher do crime de gênero é uma prioridade no Estado: "estamos nas escolas, estamos ocupando espaços, estamos com campanhas específicas para estimular denúncias... Agimos em diversas frentes e tem sido um grande desafio".

"Muitos dizem: ah, mas minha avó viveu 50 anos com meu avô e agora querem separar por qualquer coisa? Mas essa mulher viveu a que custo? O que ela passou? A questão é estar em uma família saudável e funcional"
Lia Gomes
Titular da Secretaria das Mulheres do Ceará

“Eu genuinamente acreditava que não fosse acontecer de novo. Acreditava que quando ele falava aquelas coisas pra mim era porque ele estava se sentindo mal... Mas as agressões continuaram. Eu tentei protegê-lo, mas senti que ele também estava ameaçando a minha família. Até que chegou um ponto que ele me agrediu, me deu um murro no rosto. Quando eu disse a ele que ia denunciar, ele pediu que eu não fosse até a delegacia, porque aquilo ali ‘podia acabar com a vida dele’”, recorda Marina.

A dependência psicológica do namorado levou a jovem a tomar uma dose elevada de calmantes por conta própria e ser hospitalizada: “aí eu já tinha me afastado dos meus amigos, da minha família. Eu acreditei que ficar sem ele ainda seria pior... Foi difícil voltar ao eixo”.

Anna Kelly Nantua, defensora pública e assessora de projetos da Defensoria Pública do Ceará, atualmente lotada no Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (Nudem), pontua: “a violência começa com pequenos sinais, com proibições disfarçadas de cuidado, e isso vai em uma crescente”. “Em regra, percebemos que a mulher demora de um a cinco anos para denunciar pela primeira vez, para pedir ajuda”, disse a defensora.

Valeska Bastos diz ainda que, “em casos que o agressor é o pai dos filhos dessa mulher ou até mesmo o próprio pai dela, a vítima entende que a busca pelas autoridades vai impactar diretamente nas relações familiares”.

“Para além disso tem a questão de que quase todos já ouviram a Lei Maria da Penha, mas não conhecem os mecanismos, não sabem como acessar... No passado, também era comum que essa mulher tivesse que ir em órgãos diferentes, em lugares distantes dentro da cidade. Precisamos ressaltar que dentro da Casa da Mulher Brasileira, por exemplo, há vários mecanismos em um só endereço”, destaca a promotora de Justiça.

"Esse relacionamento abusivo começa de uma forma discreta, devagar, com atos silenciosos. Posteriormente outras formas de violência vem surgindo. Isso vai se agravando e com mais fatores que dificultam com que essa mulher rompa o ciclo, podendo até mesmo chegar ao feminicídio".
Anna Kelly Nantua
Defensora pública

Lia Gomes acredita que “o que mais faz com que as pessoas denunciem é a possibilidade de acesso a uma rede". EO que acontece depois de denunciar? No último ano mais do que dobramos essa rede de acolhimento e proteção à mulher. Acredito muito nessa conscientização para o despertar, para que essas vítimas se reconheçam como vítimas e estejam atentas se estão em um relacionamento abusivo".

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IMPUNIDADE x AVANÇOS

Uma das entrevistadas ouvidas pela pesquisa qualitativa relatou o medo pelas quatro filhas. “Tenho medo por elas, não confio que saiam só, vão para casa de ninguém e justamente por serem mulheres e as pessoas se aproveitarem delas”

A ideia de “não confiar em ninguém”, segundo ela, parte da premissa de que “só de ser mulher já temos algumas vulnerabilidades, pois às vezes a gente se coloca em risco por não saber com quem está se envolvendo”.

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Legenda: Atualmente, o Ceará conta com 12 Delegacias de Defesa da Mulher (DDM) espalhadas em 11 municípios.
Foto: Fabiane de Paula.

Outra participante da pesquisa qualitativa, uma adulta da Região do Cariri, Interior do Estado, disse: “é uma violência que vivemos diariamente, constantemente, de vários atos. Não sei o que os órgãos públicos esperam mais, pois o tanto de feminicídios que vem acontecendo, seja com criança, mulher, idosas. Não sei a solução, mas espero que um dia a gente descubra para que isso acabe, pois sofremos diariamente”.

A pesquisa qualitativa com especialistas apontou que “onde há delegacias e instituições especializadas ou centros de referência e apoio à mulher, observa-se aumento de registros de busca por apoio, por parte de vítimas de violência. Nestes ambientes, elas se sentem mais encorajadas a denunciar e buscar orientações para suas questões”.

Atualmente, o Ceará conta com 12 Delegacias de Defesa da Mulher (DDM) em 11 municípios.

A reportagem apurou que a próxima Delegacia de Defesa da Mulher a ser inaugurada no Estado é na cidade de Crateús.

E Anna Kelly Nantua orienta: “a mulher vítima de violência pode buscar ajuda em qualquer local da rede de proteção. A Defensoria [Pública] é um desses. Não precisa necessariamente passar primeiro pela delegacia". 

ENFRENTAMENTO 

Fortalecer a rede de proteção para evitar crimes que envolvam violência de gênero é um dos objetivos do Judiciário. De 9 a 13 de março deste ano, o Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) promoveu a 32ª edição da Semana da Justiça pela Paz em Casa.

As ações voltadas ao enfrentamento da violência contra a mulher incluíram campanhas de sensibilização e capacitação para diferentes públicos, incluindo treinamentos com orientações sobre a identificação de sinais de risco e importância do acolhimento adequado às vítimas.

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Para a juíza Rosa Mendonça, titular do 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da Comarca de Fortaleza, “é importante trabalhar sempre na prevenção, na ressocialização, todo um trabalho de entendimento para que no futuro essa violência reduza e daremos uma resposta já a partir de agora”.

“Eu comecei há 20 anos nessa área e, comparado há décadas atrás, vejo sim um avanço animador. Muita gente acredita que: "a Polícia prende, a Justiça solta”, mas é feito com base na lei. Nós somos cumpridores da lei”, disse a juíza Rosa Mendonça.

POLÍTICAS PÚBLICAS

O Ceará conta atualmente com o Plano Estadual de Políticas para as Mulheres, instrumento que reúne um conjunto de políticas públicas dentro da Secretaria das Mulheres do Estado.

Princípios Norteadores da Política Nacional de Políticas para as Mulheres:

  • Autonomia das mulheres em todas as dimensões da vida.
  • Busca da igualdade efetiva entre mulheres e homens em todos os âmbitos.
  • Respeito à diversidade e combate a todas as formas de discriminação.
  • Caráter laico do Estado.
  • Universalidade dos serviços e benefícios ofertados pelo Estado.
  • Participação ativa das mulheres em todas as fases das políticas públicas.
  • Transversalidade em todas as políticas públicas.

O Governo afirma ter ampliado ações voltadas a este público-alvo também dentro do Programa Integrado de Prevenção e Redução da Violência (PReVio), "com foco na proteção, no fortalecimento de vínculos e na geração de oportunidades reais de recomeço. A estratégia integra políticas públicas em diferentes áreas para enfrentar a violência de gênero de forma estruturada, atuando tanto na prevenção quanto no cuidado com quem já foi impactado".

Em prol do empoderamento financeiro, o governo lançou o projeto 'Empodera', que atua diretamente na vida de mulheres em situação de vulnerabilidade, promovendo autonomia, acesso a direitos e construção de novos caminhos".

"O Empodera é voltado para mulheres de 18 a 55 anos em situação de violência doméstica e familiar. Com duração de 10 meses, o projeto trabalha o fortalecimento pessoal e econômico por meio de formação, letramento digital e incentivo ao empreendedorismo na perspectiva da economia solidária. As participantes recebem bolsa mensal de R$ 400 durante sete meses e capital semente de R$ 2 mil para iniciar seus próprios negócios, garantindo condições concretas para romper ciclos de violência e reconstruir suas trajetórias".

A gerente do 'Empodera', Renata Marques, destaca que se trata de uma oportunidade para "aquelas que estão em situação de violência doméstica e de vulnerabilidade social possam sonhar com seu próprio negócio e romper com o ciclo da violência. É um instrumento que promove inclusão social e fortalece a autonomia feminina, possibilitando trajetórias mais seguras e sustentáveis”.

*O nome da entrevistada foi substituído por questão de segurança. 

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SERVIÇO 

ONDE BUSCAR AJUDA 

Ligue 180 para denunciar situações de violência contra a mulher. 

Disque 190 em casos de emergência. 

Disque 100 – Violência contra crianças e adolescentes.

CASA DA MULHER BRASILEIRA 

Em Fortaleza: Rua Teles de Sousa, s/n – Couto Fernandes Fortaleza-CE Cep: 60442-060 Fone: (85) 3108-2998 / 3108-2999 3108-2994 (administração) E-mail: casadamulherbrasileira@gabgov.ce.gov.br 

CASA DA MULHER CEARENSE: 

Juazeiro do Norte

Av. Pe. Cícero, 4501, São José 

(88) 98128-8071 | (85) 3106-3145 casadamulhercearense.cariri@mulheres.ce.gov.br 

Quixadá

Rua Luis Barbosa da Silva - Planalto Renascer 

(88) 98957-2422 | (85) 3106-3202 casadamulhercearense.quixada@mulheres.ce.gov.br 

Sobral

Av. Monsenhor Aloísio Pinho, s/n - bairro Gerardo Cristino de Menezes 

(88) 98959-7453 | (85) 3106-3185 casadamulhercearensesobral@gmail.com 

Tauá 

Rua Antônio Carvalho Citó, S/N, bairro Planalto Nelandia, Tauá