Unifor e UFC criam site para detectar substâncias cancerígenas em produtos; veja como usar

Ferramenta Tóxicos ajuda população a descobrir elementos nocivos na composição de alimentos, cosméticos e itens de limpeza.

Escrito por Carol Melo carolina.melo@svm.com.br
30 de Maio de 2026 - 07:00
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Legenda: Synapse Lab da Unifor, cofundado pelo professor Pedro Pinheiro, desenvolveu a parte técnica do site gratuito.
Foto: Fabiane de Paula.

A Universidade de Fortaleza (Unifor) e a Universidade Federal do Ceará (UFC) se uniram em uma parceria interdisciplinar para criar a plataforma Tóxicos, lançada neste mês. A ferramenta virtual pioneira reúne ingredientes de milhares de alimentos, cosméticos e itens de limpeza do cotidiano, e informa quais deles contêm substâncias que podem causar câncer.

O site gratuito já está disponível para acesso do público por meio do endereço https://toxicosufc.com/. Com interface interativa, possibilita que, em poucos cliques, o usuário descubra se o detergente, a maquiagem ou a carne que consome podem estar aumentando as chances de ele futuramente ser diagnosticado com a condição.  

No projeto, cada instituição de ensino assumiu responsabilidades distintas: enquanto a Unifor transformou o estudo em uma ferramenta digital funcional e interativa por meio do grupo de pesquisa Synapse Lab, a UFC idealizou a plataforma e identificou mais de 5 mil elementos através do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM).

A plataforma surge como um assistente informativo, auxiliando o usuário a observar onde estão os riscos invisíveis, como explica o PhD em Computação e professor da Unifor, Pedro Pinheiro, coordenador tecnológico do projeto e cofundador do Synapse Lab. 

O impacto maior é mostrar que dá para viver com aquele produto; só não é para ser utilizado de forma excessiva. [...] O objetivo é mostrar que tem que ter um equilíbrio."
Pedro Pinheiro
Professor da Unifor

O entendimento de que o propósito é oferecer autonomia ao cidadão na prevenção do câncer é reforçado pelo idealizador do projeto, o médico hematologista e professor da UFC, Ronald Feitosa Pinheiro, coordenador do Laboratório de Citogenômica do Câncer da universidade.

O grande objetivo acaba sendo proteção. [...] A gente não está aqui fazendo alarde de que tudo dá câncer, [mas] ensinando as pessoas a saberem fazer melhores escolhas para a prevenção da sua família.” 
Ronald Feitosa Pinheiro
Professor da UFC

A ideia de fundar a Tóxicos surgiu a partir das observações do hematologista durante as consultas com pacientes oncológicos.
Legenda: A ideia de fundar a Tóxicos surgiu a partir das observações do hematologista durante as consultas com pacientes oncológicos.
Foto: Fabiane de Paula.

Como funciona a plataforma

A iniciativa cruza a composição desses produtos catalogados com substâncias consideradas cancerígenas pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), que divide o nível de risco por classificação: grupos 1 (comprovadamente cancerígeno), 2A (provável), 2B (possível) e 3 (não classificado por evidências insuficientes).  

Além disso, a ferramenta também considera outros elementos nocivos à saúde, conforme diretrizes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e estudos do Laboratório de Citogenômica do Câncer da UFC, resultando nas seguintes categorias: grupos CR (crítico à saúde), NT (natural), OC (oculto) e AD (ausência de dados).  

Pedro Pinheiro ressalta que a navegabilidade intuitiva da plataforma foi projetada para ser acessível a todos.
Legenda: Pedro Pinheiro ressalta que a navegabilidade intuitiva da plataforma foi projetada para ser acessível a todos.
Foto: Fabiane de Paula.

Apesar da complexidade dos bastidores, a usabilidade da Tóxicos é simples: basta selecionar uma categoria de busca — ingrediente, classificação ou produto —, informar o item e conferir o resultado. Por exemplo, ao pesquisar por “shampoo” na aba de produto, o usuário descobre que ele pode conter “alcohol”, substância associada a tumores da cavidade oral, faringe, esôfago, fígado e mama.

Além da busca nominal, ainda é possível conferir conteúdos educativos, como cards explicativos e seção de tira-dúvidas.

Ferramenta previne câncer ao educar população sobre riscos

Com mais de 100 tipos diferentes, o câncer é considerado uma das principais causas de adoecimento e mortalidade mundial. Segundo projeções do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Ceará deve registrar 32.830 novos diagnósticos anualmente no triênio 2026-2028. A tendência segue as estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), que prevê que 1 a cada 5 pessoas terá algum tipo de câncer até 2050.  

Diante do cenário, cresce a necessidade de prevenção da doença. Ainda conforme o Inca e organismos internacionais de saúde, pelo menos 30% dos casos de neoplasias malignas podem ser evitados com a adoção de estratégias preventivas, como evitar a exposição a agentes cancerígenos.  

Mudar esses hábitos, contudo, esbarra na dificuldade de decifrar rótulos complexos, que misturam letras minúsculas, termos em língua estrangeira e códigos numéricos. É nesse contexto que a nova plataforma atua, transformando a informação científica em um guia prático para o consumidor.

Além de auxiliar o usuário com escolhas mais conscientes, a ferramenta também influenciou os hábitos dos próprios desenvolvedores e membros do projeto, que passaram a repensar o uso de itens da rotina ao descobrirem que esses poderiam ter compostos carcinogênicos — agentes capazes de causar alterações no DNA, estimulando o desenvolvimento de câncer.

Pesquisadores catalogaram e cadastraram mais de 5 mil elementos na ferramenta.
Legenda: Pesquisadores catalogaram e cadastraram mais de 5 mil elementos na ferramenta.
Foto: Fabiane de Paula.

Um deles foi o estudante de Ciência da Computação na Unifor, Mateus Lopes Pinheiro. Após atuar como desenvolvedor da ferramenta, passou a memorizar o nome de algumas substâncias tóxicas e avaliar a composição de artigos como a pasta de dente, que pode conter “silica” — diluente comprovadamente associado ao surgimento de câncer de próstata e de pulmão. 

“Fiquei surpreso com a quantidade de produtos com substâncias carcinogênicas e, principalmente, com o fato de que muitos deles possuíam ingredientes declarados de forma genérica, sem especificar o componente utilizado”, destaca o universitário, acrescentando que as substâncias não detalhadas estão classificadas no site no chamado grupo “oculto”.

Outra que também mudou de hábitos foi a aluna do curso de Biologia da UFC, Sarah Cristina Carneiro, primeira a ser convidada para o projeto pelo professor Ronald Feitosa Pinheiro. Ao pesquisar e catalogar elementos nocivos em cosméticos, a jovem passou a orientar a família, que tem um histórico de 14 casos de neoplasias malignas, incluindo o da mãe dela, que faleceu em decorrência de um câncer de mama quando a estudante tinha 5 anos. 

"Fui avisando para minha família algumas coisas e tentando mudar nossos hábitos, principalmente sobre alguns refrigerantes e doces que têm corante caramelo IV e também cosméticos com componentes cancerígenos, como formol", detalha. 

A última substância citada pela discente é um conservante, encontrado em alisantes de cabelo e artigos de beleza, comprovadamente associado a tumores de nasofaringe e seios nasais, além de leucemia. Já a primeira é um aditivo utilizado para dar cor marrom a itens como refrigerantes de cola. Classificado como “possivelmente carcinogênico” pela IARC, há evidências científicas limitadas de que causa câncer de pulmão.

Pesquisadores, como Sarah Cristina Carneiro, mapearam milhares de itens, incluindo os do cotidiano deles.
Legenda: Pesquisadores, como Sarah Cristina Carneiro, mapearam milhares de itens, incluindo os do cotidiano deles.
Foto: Fabiane de Paula.

Do consultório à palma da mão

A idealização da Tóxicos nasceu em meados de 2023, no consultório de Ronald Feitosa Pinheiro, que é médico hematologista. Ao conversar com pacientes oncológicos, ele identificou um padrão: a exposição inconsciente a substâncias nocivas no cotidiano. Inquieto com o achado, ele decidiu montar um projeto para investigar os carcinogênicos “escondidos” nos rótulos de itens da rotina. 

Com auxílio de uma lupa para decifrar as minúsculas letras dos ingredientes, o professor descobriu, por exemplo, que refrigerantes de laranja podem conter benzeno, solvente comprovadamente associado ao surgimento de alguns tipos de leucemia. Ao inscrever o projeto de pesquisa no CNPq, ele conseguiu o apoio de R$ 40 mil para viabilizar a ferramenta.

Após garantir o financeiro da iniciativa, Ronald Feitosa Pinheiro reuniu um grupo de membros de estudantes pesquisadores para analisar os rótulos de milhares de produtos, começando pelos itens que consumiam na rotina. “Tragam o lixo da sua casa, da sua comida. Tomou um achocolatado? Traz. Tomou um iogurte? traz”, instruiu o pesquisador na época.

Rótulos podem usar artifícios como letras pequenas, termos em inglês e em códigos, confundindo o consumidor.
Legenda: Rótulos podem usar artifícios como letras pequenas, termos em inglês e em códigos, confundindo o consumidor.
Foto: Fabiane de Paula.

Depois de selecionar, decifrar e catalogar mais de 5 mil itens de alimentação, beleza e limpeza, a equipe se deparou com o desafio de transformar os dados em uma ferramenta digital. Para isso, contaram com a parceria do Synapse Lab da Unifor, que foi responsável por compilar as informações e transformá-las em um site interativo e acessível a todos. 

Ficou sob nossa responsabilidade pensar em como distribuir essa informação em uma plataforma. [...] Conseguimos pensar e planejar uma melhor forma, tanto visual — no design — quanto em quesito de usabilidade, para facilitar o uso diário de pessoas que não têm conhecimento nem na tecnologia nem na área da medicina em si.”
Pedro Pinheiro
Professor Unifor

A parceria entre a instituição privada e a pública é celebrada por Ronald Feitosa Pinheiro. “É um projeto que tem duas universidades, e isso é muito legal, porque às vezes as pessoas veem um aspecto de competição, e o ser humano tem que entender que as coisas são tão difíceis. A gente precisa somar”, ressalta. 

A ferramenta atual é apenas o início do projeto Tóxicos, conforme frisam os professores. Um dos planos é seguir multiplicando a base de dados com mais produtos e elementos: “Não quero 5 mil produtos, quero 500 mil, 5 milhões de produtos. A gente vai mapear tudo”, projeta o docente da UFC.  

Em relação à parte tecnológica, Pedro Pinheiro detalha que planeja aprimorar algumas funcionalidades do site, além de estudar a possibilidade de transformá-lo em aplicativo para dispositivo móvel. “Vão ser facilidades que vão, por exemplo, [possibilitar] bater a foto do produto e já detectar os ingredientes. Também está sendo analisada a aplicação de uma inteligência artificial para auxiliar”, adianta o pesquisador da Unifor.

Passo a passo para usar a plataforma Tóxicos 

  1. Acesse o endereço eletrônico https://toxicosufc.com/;
  2. Escolha qual a categoria de busca, entre as três disponíveis (ingrediente, classificação ou produto);
  3. Caso opte por pesquisar por ingrediente ou produto, basta digitar a nomenclatura que deseja na barra de busca e, então, clicar sobre o termo na seção abaixo; 
  4. Após selecionar um card surge na tela. É nele que o usuário confere a classificação do elemento, a quais cânceres está associado e em que itens pode estar presente;
  5. Já se for buscar por classificação, o internauta pode navegar pelos níveis de risco e descobrir quais produtos e substâncias pertencem a cada uma das categorias.  
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