Teatro, igrejas e casas antigas: como patrimônios invisibilizados contam a história do CE
Projeto fotográfico ‘Pode Entrar’, do artista Negrosoousa, reúne imagens que retratam parte da história de 55 municípios do interior do Estado.
Patrimônios materiais são instituídos por sua relevância histórica, cultural e arquitetônica. No entanto, nem tudo que forma a memória de um povo se torna patrimônio tombado: por vezes, é justamente o que constrói o cotidiano de uma cidade que se perde no tempo, por ser considerado simples demais para ser alçado à categoria de “tesouro”.
É na contramão dessa lógica que o artista visual e fotógrafo cearense Negrosoousa, 31, atua, registrando patrimônios tombados e não tombados, desconhecidos para muitos, mas valiosos para quem os vivencia.
Ao longo dos últimos anos, o artista rodou cinco estados do País e registrou milhares de casas, pequenos espaços culturais, igrejas e outros imóveis, com atenção especial às portas, que separam os patrimônios do mundo exterior e instigam a curiosidade de quem as contempla.
Intitulado “Pode Entrar”, o projeto ganhou um novo capítulo recentemente, com uma edição voltada exclusivamente para o interior do Ceará. Foi longe da Capital, afinal, que Negrosoousa nasceu, cresceu e “se tornou humano”, segundo o próprio artista – Camocim, Granja e principalmente Sobral formam a matriz de sua biografia.
Inspirado por essas vivências, ele registrou essas e outras 52 cidades do Estado no fotolivro do projeto, homônimo, elaborado em parceria com os fotógrafos Antônio José Gomes da Silva e Cleison Silva e viabilizado com recursos oriundos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB).
Na publicação, feita inteiramente em preto e branco, bens materiais de valor histórico e afetivo estão reunidos de forma orgânica, passando por igrejas, museus, teatros e diferentes tipos de moradia.
“A gente vai sendo apresentado para um Ceará que é muito múltiplo em cada definição patrimonial que nós temos. Não é somente a definição de um prédio, um recorte histórico e um território que vai fazer com que a gente tenha uma única visão. São vários prédios, vários recortes históricos e vários territórios”, destaca o artista. “Para além disso, também existem tesouros patrimoniais que o próprio cearense ainda não tem acesso”, completa.
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Durante o trabalho, Negrosoousa contemplou edificações que datam de algumas centenas de anos e construções recentes, mas que compõem fortes marcos históricos, a exemplo da “nova Jaguaribara”, reconstruída e realocada após a construção do Castanhão. Outros destaques da publicação são as edificações com azulejos de Pacatuba e Aracati, as construções de Viçosa do Ceará e igrejas de cidades como Icapuí e Várzea Alegre.
“Para além disso, nós também decidimos atribuir, dentro da linha estética, coisas patrimoniais cearenses, como as casas de Sertão”, pontua o artista visual. “Acho que, dentro dessa pesquisa, a gente conseguiu fazer um balanço muito conciso, muito concreto de: ‘olha, isso é patrimonial pela história, isso é patrimonial social, isso é patrimonial pela estética’.”
O fotógrafo conta que, ao longo da pesquisa – que foi publicada, em partes, em seus perfis em redes sociais –, as pessoas se reconheceram nos imóveis registrados, uma demonstração d importância de tornar acessível a memória de diferentes territórios. “É o caso, por exemplo, de pessoas que se reconheceram nas portas: ‘ah, essa porta é a porta da minha avó’, ‘essa porta é a porta do meu tio’, ‘ei, tu passou na minha casa’”, comenta.
Disponível de forma virtual e em algumas cópias físicas distribuídas gratuitamente, o fotolivro “Pode Entrar” não encerra o projeto, conta Negrosoousa. A ideia é seguir com os registros nas cidades por onde passar e, no futuro, lançar uma publicação mais completa, com imagens de todos os 184 municípios do Estado, em formato de almanaque.
“Se tivermos a oportunidade, quero construir um almanaque do Ceará e, objetivamente dizer: ‘tá aqui tudo, não tem mais nada, não falta mais um interior’”, brinca. O artista também almeja conseguir levar o projeto para o âmbito educacional, com o intuito de trabalhá-lo junto a crianças cearenses.
Um Ceará para além das elites
Para Negrosoousa, projetos como o “Pode Entrar” possibilitam que o povo tenha acesso à sua própria história de maneira mais completa, para além dos patrimônios que pertenciam às elites. “Se você não sabe que existia um prédio histórico na sociedade que fazia menção a possíveis fatos históricos, e que está sendo destruído, ou então que não existe mais, é porque não querem que você conheça sua história”, destaca.
“As pessoas precisam entender o que compõe sua identidade. Por que pernambucanos têm sua identidade tão vangloriada? Por que baianos têm suas identidades tão vangloriadas? Porque eles têm ciência da sua história”, afirma o artista. “Os cearenses precisam entender que nós temos nossas histórias, nós temos nossos valores”, completa.
O professor e mestre em geografia Yan de Abreu, que pesquisa patrimônio cultural no Ceará, destaca que olhar para edificações que vão além de palacetes e grandes residências – categorias de bens materiais comumente tombadas – permite uma melhor representação social das cidades e estados.
“Esteticamente e arquitetonicamente, esses edifícios são belíssimos, o tombamento é inquestionável. Mas, de certa forma, elas são formas urbanas que expressam a cultura de grupos de elite”, pontua.
“As arquiteturas mais simples, aquelas que são ligadas aos grupos mais pobres que habitam essas cidades, ao interior do Estado e, principalmente, àquela vivência sertaneja, na grande maioria dos casos não são lembradas nessa política de patrimonialização”, completa.
A grande magia da preservação do patrimônio material se encontra nisso, nessas dicas materializadas no espaço que nos contam sobre essa parte da história. Essas edificações mais simples vão contar justamente como era a vivência dessas populações que foram historicamente excluídas na formação das cidades.”
O pesquisador, que atualmente estuda patrimônios ligados à memória indígena em Viçosa do Ceará, ressalta que lançar luz sobre uma arquitetura desconsiderada em processos de tombamento ou pouco conhecidas possibilita o reconhecimento de populações que foram invisibilidades por razões financeiras, políticas ou religiosas.
Para Yan, registrar e valorizar esses patrimônios “é tentar desvincular essa imagem de um Ceará só composto por elites e pensar que a população cearense é historicamente formada por populações indígenas, populações quilombolas e pelos flagelados”.
Como avançar na preservação da memória?
O professor Yan de Abreu destaca que, desde a promulgação da Constituição de 1988, a visão sobre o que é considerado patrimônio foi modificada no Brasil. Segundo o pesquisador, desde a década de 1990 o conceito de patrimônio se tornou “mais amplo e diverso”.
“Existe atualmente uma predisposição melhor a aceitar esse patrimônio que não dialoga com as grandes elites”, afirma. “Contudo, ainda há muito trabalho para se fazer. Acho que ainda se repete muito esse pensamento de patrimonializar os grandes edifícios, que ainda expressam essas elites, mas há caminhos, há uma mudança em curso”, pontua.
Para Abreu, a saída é olhar o patrimônio material para além da forma física e compreendê-lo dentro de um contexto social e histórico. “É pensar que o patrimônio é vivência, o patrimônio é parte da população”, conclui.