Jovens que nunca viram Brasil ganhar a Copa vivem expectativa do hexa: 'sinto falta do que não vivi'

Cearenses escutam dos pais e familiares as memórias de um time vitorioso.

Escrito por Clarice Nascimento clarice.nascimento@svm.com.br
19 de Junho de 2026 - 15:07 (Atualizado às 15:17)
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Legenda: Felipe (26), Letícia (22) e Isabella (23) são cearenses que nunca viram o Brasil ser campeão e seguem torcendo pelo hexacampeonato.
Foto: Arquivo Pessoal.

Há 24 anos, o Brasil levantou pela última vez a taça da Copa do Mundo. De lá para cá, mais de 3 milhões de cearenses nasceram e nunca viram a Seleção Brasileira conquistar um título mundial. O número é referente aos nascidos entre 2002 e 2024, levantados pela reportagem a partir do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos, do Ministério da Saúde. 

Mesmo sem ter memórias de um time campeão, os jovens mantêm a tradição de acompanhar as partidas e sonhar com a conquista do hexacampeonato. O Diário do Nordeste conversou com cearenses que nasceram depois de 2002, ouvindo as expectativas e como se sentem sobre não terem visto as seleções vitoriosas. 

Nascida em 2003, um ano após a conquista do pentacampeonato brasileiro na Copa do Japão, a mestranda em Design e torcedora do Fortaleza, Isabella Guerreiro, ouviu as histórias da comemoração desse título dos pais e de familiares.

“Minha mãe conta que costumava ir para a casa de amigos para assistir aos jogos. Ela fala que naquele ano foi bom porque ‘resolveu logo a final’”, conta em entrevista ao Diário do Nordeste

Segundo a jovem, ela vive um sentimento de falta até mesmo de algo que nunca viveu, a partir dos relatos dos familiares. “Meus pais falam que, antigamente, parecia que a Seleção parava ainda mais o Brasil. O pessoal torcia mais, tinha mais amor pelo time. Às vezes, fico quase sentindo falta do que eu não vivi”, destaca.

“Era uma atmosfera diferente, fico realmente querendo ter vivido aquilo. Hoje em dia, eu tento cultivar e manter vivo isso, mas se perdeu muito e principalmente pela geração antiga que não tem mais essa admiração de antes e a geração atual que não valoriza”, afirma a treinadora de futsal Letícia Medeiros, de 22 anos. 

O que Isabella e Letícia relatam é verdade, e o Diário do Nordeste noticiou à época. Reportagens antigas mostram que Fortaleza parou para ver a decisão entre Brasil e Alemanha, em 30 de junho de 2002. Naquele dia, Ronaldo Fenômeno marcou os dois gols da vitória e a comemoração parecia “carnaval de rua fora de época”.

Reportagem de 2002 do Diário do Nordeste mostra a comemoração da torcida cearense no título do pentacampeonato brasileiro.
Legenda: Reportagem de 2002 do Diário do Nordeste mostra a comemoração da torcida cearense no título do pentacampeonato brasileiro.
Foto: Arquivo DN.

‘Fico frustrado por não ter lembranças de 2002’

Felipe Martins é professor de Educação Física e tem 26 anos. Na copa de 2002, ele já era nascido, mas não tem lembranças desse evento histórico e sente uma certa frustração por isso.

“Por ser apaixonado por futebol, com certeza sinto muito por não ter vivenciado essa experiência de comemorar um título de copa do meu país, e fico frustrado por não ter lembranças de 2002. Por um momento o país inteiro fica unificado, com o título desses”, afirma. 

Felipe conta que a Copa de 2006 é o primeiro torneio que ele tem lembranças de se reunir com a família para torcer pelo Brasil.
Legenda: Felipe conta que a Copa de 2006 é o primeiro torneio que ele tem lembranças de se reunir com a família para torcer pelo Brasil. "Lembro do meu choro com a eliminação para a França naquele ano", diz.
Foto: Arquivo Pessoal.

Assim como Isabella e Letícia, ele ouviu falar da família o que foi o pentacampeonato. “Contavam para mim que era um dia atípico, tinha feriado, e tudo girava em torno do jogo. Diziam que ao ganharem as copas, as população aparentava ter mais confiança em tudo”, afirma. 

Esse clima de euforia compartilhada é algo que o servidor público Ernandes Gadelha, de 26 anos, diz que desejaria ter vivido. “Gostando ou não do futebol, era um momento de reunir família, de reunir amigos e hoje, por mais que exista ainda, não vejo com tanta força [...] Antigamente, era um período de confraternização, algo semelhante a um ano novo que tava todo mundo junto”, diz.

Em 2026, a Copa do Mundo acontece em meio ao período de São João, com bandeirinhas de verde e amarelo.
Legenda: Em 2026, a Copa do Mundo acontece em meio ao período de São João, com bandeirinhas de verde e amarelo.
Foto: Ismael Soares.

Para o jornalista, doutor em Sociologia e pesquisador na área de Sociologia do Esporte, Diego Morais, o jeito de torcer foi transformado pelo processo de globalização e a mudança do futebol para mercadoria.

“Se antes o rádio e a tv simbolizavam rituais nos quais as pessoas se uniam em volta para acompanhar a seleção brasileira nessas competições, hoje isso ocorre de forma mais pulverizada. Os acessos são mais plurais aos meios de comunicação, bem como há novas formas de consumo dessas ferramentas”, detalha. 

É dessa forma que, inclusive, a geração mais nova descobre os times vitoriosos do passado e jogadores que se tornaram lendas do esporte. “Acredito que todo brasileiro que gosta de futebol rever os lances da final contra a Alemanha”, como disse o servidor público. 

“Assisti aos jogos do Brasil nas copas de 1970, 1994 e 2002, e vi reportagens sobre as de 1958 e 1962. Gostava muito de ver os lances em específico, do Romário na copa de 1994”, conta Felipe Martins. 

“Para mim, o que sinto é mais por ter perdido a oportunidade de ver os grandes jogadores do que ter perdido a chance de ver o Brasil campeão. Minha decepção é não poder ter visto Pelé, Ronaldo, Romário, Cafu, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Roberto Carlos, Taffarel, Dida, Garrincha, Rivelino e Zico”
Luiz Artur Alexandre
estudante de jornalismo, 21 anos.

Jejum de títulos não acaba a paixão pela Seleção

No Pirambu, bandeira do Brasil foi pintada para a Copa do Mundo.
Legenda: No Pirambu, bandeira do Brasil foi pintada para a Copa do Mundo.
Foto: Ismael Soares.

Esses 24 anos que o Brasil está sem vencer um título mundial já se igualou ao último período mais longo em que a Seleção enfrentou um “jejum de taças”. O país conquistou o tricampeonato em 1970 e só foi erguer o troféu novamente em 1994, na Copa realizada também nos Estados Unidos. 

Para Gadelha, o intervalo de tempo sem títulos marcantes e a ausência de uma força expressiva do time brasileiro deixou o jovem “indiferente” à Seleção

“Acredito que quem viveu a época dourada dos títulos da seleção, talvez tenha uma certa decepção. Eu, como não vivi e nunca tive tanto esse apego, acho que já nasci em uma fase que já estava começando a ter um certo desapego pela seleção e por essas questões, acabei não me sentindo decepcionado”, afirma. 

Além disso, Letícia acredita que hoje as crianças têm menos identificação com os jogadores nacionais. “Eles valorizam muito mais os atletas de fora [...] Isso faz com que a gente não tenha uma nova geração de craques como em 2002”, ressalta. 

“O século XXI é de carência de títulos mundiais no futebol masculino. Nossa última geração vencedora foi a de 2002. Quantas pessoas nem eram nascidas? Os títulos, de certo modo, colaboram para essas narrativas de glória, que tanto contribuíram para transformar o Brasil em "pátria das chuteiras" no século passado. Se eles se esvaziam, isso acaba por se tornar mais distante das gerações nascidas pós-2002”
Diego Morais
jornalista, doutor em sociologia e pesquisador na área de sociologia do esporte.
 

Por outro lado, jovens ainda acreditam que é possível ser entusiasta da Seleção mesmo sem nunca tê-la visto campeã. “Eu torço pelo Ceará, por exemplo, e sou apaixonado pelo meu clube mesmo ele não sendo campeão todo ano e isso não afeta em nada a minha relação. São ciclos, mas o amor pelo clube vai sempre estar ali. Acho que também tem isso com a Seleção”, diz Luiz Artur. 

O professor Felipe conta que essa paixão vem principalmente “pela história passada, mas também pelos jogadores atuais”. Ele acrescenta que os atletas de hoje “tem capacidade de nos dar um título de copa do mundo”. 

Luiz Arthur (na foto ao meio, entre as tias) conta que a Copa de 2014 é a que tem as primeiras lembranças, mas que foi o torneio de 2018 que ele mais assistiu e acompanhou os jogos.
Legenda: Luiz Arthur (na foto ao meio, entre as tias) conta que a Copa de 2014 é a que tem as primeiras lembranças, mas que foi o torneio de 2018 que ele mais assistiu e acompanhou os jogos.
Foto: Arquivo Pessoal.

O sonho do hexa continua vivo?

Para Isabella, a geração atual torce sim para a Seleção, mas “não acredita tanto assim”. “Nós queremos ver o Brasil campeão, só que, ao mesmo tempo, a gente fica com um pé atrás. Será que vai mesmo? Temos mais cautela depois do jogo do 7 a 1, tem que ir assim com calma”, afirma. 

Contudo, ela crê que verá o Brasil campeão um dia. “Não sei se vai ser nessa Copa [de 2026], mas espero que sim”, conta. Da mesma forma, Luiz Artur também aguarda um dia, ver a Seleção Brasileira ser vitoriosa. “Espero isso, né? Vou ficar muito triste se eu nunca ver o país campeão de uma Copa do Mundo”, diz. 

Já Letícia é ainda mais confiante. “Acho que o Brasil é super capaz de ganhar outro título, não só o hexa como depois o hepta”, ressalta.  

Mesmo sem ter visto o Brasil campeão, nova geração é estimulada a torcer pela Seleção pelos pais e familiares.
Legenda: Mesmo sem ter visto o Brasil campeão, nova geração é estimulada a torcer pela Seleção pelos pais e familiares.
Foto: Ismael Soares.

Apesar do descrédito e do desapego quanto à Seleção Brasileira hoje, Ernandes também acha possível ver o país voltar a ser campeão mundial. “Temos uma cultura muito futebolística, tem grandes talentos nas comunidades e por mais que tenha passado por essas fases, é um país que tem potencial e com os anos se renova as gerações”, diz ele. 

E, no dia que isso acontecer, será em um clima de “descredibilidade” devido aos anos que está sem ganhar. Isso poderá ser um “tempero para o povo brasileiro”. 

“Quando se cria muita expectativa e acontece, é bom, mas eu acho que quando você não tem expectativa nenhuma e a taça vem, é ainda melhor. Acho que o país vai parar, não tenho dúvidas. Estamos só adormecidos, digamos assim, e a torcida está desanimada de certa forma em relação ao que já foi um dia, mas vai ser uma grande explosão na nação, isso eu não tenho dúvida”, completa Gadelha.

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