Entre dor e generosidade, como a morte de sete jovens mudou a rotina de Juazeiro do Norte

Município tornou-se epicentro de luto coletivo e de cenas que entraram para a história do lugar.

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
(Atualizado às 07:34)
Na imagem, fotografia em plano médio de pessoas em pé em uma quadra poliesportiva coberta. No centro, em primeiro plano, uma pessoa veste uma camiseta azul-escura com a palavra
Legenda: Homenagem às vítimas do acidente em Tauá: certas ausências, embora fiquem, potencializam outros encontros.
Foto: Ismael Soares.

Somos desavisados da morte. Pouco sabemos lidar quando ela chega – e ela sempre chega. Então, quando sete jovens desaparecem da convivência de uma cidade vítimas de uma tragédia nada anunciada, o que se percebe são contrastes: dor de um lado, abraço de outro; lágrima e desconsolo, mas generosidade em igual medida. É a dinâmica do luto coletivo. Tudo se multiplica se o recanto da emoção é ocupado no plural.

Antes mesmo de a equipe do Diário do Nordeste chegar a Juazeiro do Norte, já dava para sentir as costas pesadas do município. Os mortos do acidente ocorrido em Tauá há sete dias, na madrugada da última segunda-feira (15), – segundo o Ministério da Saúde, o que mais ceifou ocupantes de ônibus no Ceará em 12 anos – eram todos moradores do lugar. Envelheciam naquelas ruas, estudavam ali, respiravam aquele ar. Não à toa, a fila para despedida no Ginásio Poliesportivo da cidade, onde foram velados os corpos: havia necessidade de honrar quem conheceram.

Eles eram amigos próximos, os jovens, amigos de amigos, primos, irmãos. Filhos. E, mesmo que não fossem, a triste linha da melancolia da perda conectou-os ao sentimento público de pertencimento. Poderiam ser os amigos próximos, amigos de amigos, primos, irmãos e filhos de qualquer uma das cinco mil pessoas ali presentes no ato final de adeus. Provas da comoção generalizada estavam em toda parte, e emocionaram porque dotadas de muita ternura.

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Bastava atravessar os portões de entrada do ginásio, por exemplo, para um amplo mural convidar o sentimento à escrita. “Para sempre em nossa história – Um espaço para registrar carinho, homenagens e lembranças”, era como o cantinho se anunciava. E assim era. Mensagens cravadas à caneta, a lápis ou com olhos de lágrima formavam um tocante bordado de delicadezas – esta, por sinal, palavra cara em horas tão difíceis. 

Foi delicado ver cenas das vítimas em ação no basquete, e também em momentos de descontração entre partidas, projetadas em uma das paredes do ginásio. Mesmo para quem não os conhecia, a sensação era de vida vivida com alegria, entrega e disposição.

Na imagem, fotografia em plano médio com foco seletivo. Em primeiro plano, à direita, vê-se a nuca e os ombros desfocados de uma pessoa de cabelos curtos, de costas para a câmera. O foco da imagem está ao fundo, em uma parede revestida de azulejos azuis onde há cartazes brancos colados. Os cartazes estão cobertos de mensagens escritas à mão com canetas de várias cores, incluindo frases de luto e homenagem como
Legenda: Mural foi organizado para reunir depoimentos aos atletas.
Foto: Ismael Soares.

Foi delicado ver turmas e turmas de mãos e braços dados, por vezes dividindo apenas silêncio, naquele que parecia o ponto mais triste das próprias trajetórias. Foi delicado encontrar o coração aberto de quem, mesmo quebrantado, se dispunha a falar com nossa equipe de reportagem.

Pétalas lançadas sobre os caixões antes do cortejo do sepultamento, e o próprio coro de vozes entoando “Amigos para sempre” no caminho até o cemitério, desenharam outra geografia de Juazeiro do Norte. Uma mais pura, sentimental e, por que não, diferente: a da cidade que se curva ao afeto em todos os sentidos para aplacar a aflição da partida.

Os dias depois do adeus

A calmaria do dia posterior aos acontecimentos seguiu os passos de toda separação definitiva. Instalou-se nos lares, praças e escolas. Nestas últimas, foi possível constatar algo importante: em episódios dolorosos assim, os espaços tornam-se outros espaços. Casa vira rua, ginásio vira comunidade. Escola, por si só acolhimento, multiplica a razão de existir.

Na imagem, um close em cores foca na mão direita de uma pessoa, segurando uma medalha de ouro nas costas, logo abaixo da linha da cintura. A pessoa está usando uma camiseta branca esportiva com detalhes em vermelho e cinza, que é vista de costas, e uma calça escura. Seus dedos, com as unhas pintadas de preto, seguram a medalha dourada brilhante e sua fita laranja. A fita tem marcas sutis e letras, incluindo
Legenda: Jovem segura medalha de uma das vítimas do acidente em Tauá.
Foto: Ismael Soares.

Em uma delas – a Escola de Ensino Médio em Tempo Integral (EEMTI) Dom Antônio Campelo de Aragão, conhecida como CAIC – a diretoria fez questão de enfatizar que o retorno às aulas priorizaria escuta e abraço, tanto de estudantes quanto de professores. Assim aconteceu já no primeiro ato em respeito e homenagem às vítimas, na quarta-feira (17).

Oração, música, mural com fotos e declarações em voz alta incentivaram a liberdade de sentir: ninguém economizou no “eu te amo”, no “sinto sua falta”, no “gosto de você”. Talvez porque, a partir de agora, expressões feito essa passem a gostar de ocupar os dias. A morte não precisa acontecer para germinar carinhos; mas, quando assim ela ocorre, é consolador saber que os novos capítulos serão escritos com tinta de benquerença e afeição.

Na imagem, fotografia em plano médio capturada em ângulo diagonal. Duas pessoas se abraçam de forma consoladora nos degraus de concreto cinza de uma arquibancada. À esquerda, uma pessoa de costas veste uma camiseta preta com uma estampa geométrica ondulada em branco e vermelho que lembra o calçadão de Copacabana. Ela está com o braço esquerdo estendido sobre o ombro da outra pessoa, que veste uma camiseta azul-escura com detalhes geométricos mais claros e um brasão circular na manga. Ao fundo, detalhes em azul e amarelo completam a estrutura da arquibancada sob iluminação natural.
Legenda: Abraço trocado por amigos no ginásio onde acontecia o velório coletivo das vítimas do acidente.
Foto: Ismael Soares.

Duas escolas ainda não retornaram ao expediente, as que contavam com a maior parte das vítimas no quadro de alunos – a E.E.M. Governador Adauto Bezerra e a E.E.M.T.I. Presidente Geisel Polivalente. A proposta é que voltem gradualmente nesta semana que começa, mediante cuidados psicológicos intensificados com todo o corpo docente e discente. São formas possíveis de lidar, maneiras de concretizar o impalpável.

Outro passo para depois do adeus: saber que despedida nunca acontece de uma vez, e vai. Fica nos cantos, gritando em silêncio. 

O Cariri de quem sente

Na despedida da equipe à cidade – olhos da estátua de Padre Cícero em direção ao carro – havia energia de recomeço. A vida precisa encontrar meios para a saudade. A partir de agora, cabe a cada um, gente de perto e de longe, dignificar a presença e a memória de quem foi mas permanece. Fazer do Cariri enlutado um Cariri que celebra histórias de quem marca.

Na imagem, fotografia em plano aberto capturada de um ângulo elevado, mostrando uma aglomeração de pessoas em um ambiente externo ao lado de uma grande estrutura de concreto pintada de bege. Em primeiro plano, vistos de costas, quatro jovens estão enfileirados lado a lado com os braços apoiados nos ombros uns dos outros, em um gesto de apoio mútuo. Três deles vestem uniformes esportivos pretos com detalhes em branco e patrocinadores estampados, enquanto o último à direita, mais jovem, veste uma camiseta preta e carrega uma mochila de cordas azul. Ao fundo, uma grande multidão observa silenciosamente sob tendas brancas, cercada por árvores e prédios distantes sob uma iluminação natural de fim de tarde ou manhã nublada.
Legenda: Juazeiro do Norte se curvou ao afeto em todos os sentidos para aplacar a aflição da partida.
Foto: Ismael Soares.

Nunca esquecer o que passou, não – cada rosto, tom de voz, conquista e passo, cada sonho realizado e também os interrompidos. Mas, sobretudo, saber que a esperança é antídoto da tristeza. E que certas ausências, embora fiquem, potencializam outros encontros – às vezes conosco mesmos. Ou com um time, uma turma, uma cidade. Toda uma região.

Mudados, seguimos. 

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