Favela do Jacarezinho chora por mortos em operação; número de vítimas subiu para 28

Moradores da comunidade no Rio de Janeiro fizeram um protesto após o massacre

manifestação após morte de 28 moradores na favela do jacarezinho, no rio de janeiro
Legenda: Protesto tomou as ruas da comunidade na noite desta sexta-feira (7)
Foto: Mauro Pimentel/AFP

Os trens do metrô criavam um som abafado e grave enquanto centenas de pessoas caminhavam ao lado da comunidade do Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro, na noite desta sexta-feira (7). A linha de metrô passa ao largo da favela onde 28 pessoas foram mortas em uma operação da Polícia Civil nesta quinta (6). E onde manifestantes – a maioria jovens, como os mortos – se reuniram para protestar após o massacre.

Nesta sexta, o número de mortos na operação policial na favela subiu para 28, segundo o Governo do Rio de Janeiro. Segundo o estado, 26 dos 27 civis mortos tinham registro na ficha criminal. De acordo com o Governo, as novas três vítimas morreram no hospital.

O ato, organizado pelos movimentos sociais da comunidade, se concentrou por volta das 17h na escola de samba Unidos do Jacarezinho, em frente à qual cinco carros da  Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) estavam estacionados.

Com mães de pessoas mortas pela polícia, como as Mães de Manguinhos, puxando a manifestação, três faixas principais foram erguidas: "Contra o genocídio rebelar-se é justo", "25 mortes não é operação, é chacina" e "Para nós só tiro, fome e morte. Basta de genocídio do povo negro".

O grupo andou até a Cidade da Polícia, maior complexo de delegacias da corporação fluminense, que fica colada na comunidade. Ali, pararam em frente a agentes do Recom, Batalhão de Rondas Especiais e Controle de Multidões da Polícia Militar, e gritaram "justiça".

Também cantaram um trecho do funk "Eu Só Quero É Ser Feliz" e entoaram palavras de ordem como "Chega de chacina, polícia assassina", "É hipocrisia, essa polícia mata pobre todo dia" e "Foi execução, sem direito de prisão".

Depois, o grupo entrou na rua principal da comunidade, onde duas grandes faixas pretas foram estendidas com apelidos das pessoas mortas na operação: "Descansem em paz" e "Saudades eternas".

Em uma esquina, pararam, fizeram uma roda e acenderam velas enquanto parentes das vítimas falaram emocionadas, antes de entoarem uma reza do candomblé.

"Mataram ele a sangue frio", disse, chorando, Thacyane, irmã de Isaac Pinheiro de Oliveira, 22, e de outro jovem, Gabriel. Segundo ela, que não quis dar seu sobrenome, "os dois estavam dentro de uma casa. Um deles havia sido baleado duas vezes nas costas, mas estava bem, poderia sobreviver, mas os policiais entraram dentro da casa, tiraram os moradores e mataram os dois na sala", falou no microfone.

A namorada de Isaac está grávida de quatro meses do primeiro filho, segundo amigas.

A sogra de outro morador morto, chamado Omar, disse que ele estava dentro de uma casa baleado no pé, mas policiais atiraram nele em frente a um colega e à mãe desse colega. "Eu estava do lado de fora com minha filha pedindo socorro", afirmou.

Os moradores gritaram os nomes de alguns seguidos da palavra "Presente". Nem todos os 27 civis foram citados, uma vez que a identificação de cada um deles ainda não foi divulgada. Deram as mãos e terminaram com um Pai Nosso e músicas cristãs: "Se a doença vier, Ele é Deus. Se curado eu for, Ele é Deus. Se tudo der certo, Ele é Deus. Mas se não der, continua sendo Deus".

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