Vírus que causa 'doença do beijo' pode desencadear esclerose múltipla, diz estudo

O vírus tipo herpes afeta cerca de 95% da população adulta do mundo

Jovem sentada em uma cadeira de roda
Legenda: A esclerose múltipla pode causar incapacidade grave, mas também pode ser leve
Foto: Shutterstock

Um estudo da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, indica que o vírus Epstein-Barr (EBV, na sigla em inglês) — tipo de herpe comum — possui um papel fundamental no desencadeamento da esclerose múltipla. As informações são da BBC

O micro-organismo já era associado com a doença, no entanto, a pesquisa realizada com mais de 10 milhões de militares norte-americanos, durante 20 anos, demostrou, pela primeira vez, evidências de que a teoria pode ser verdadeira. A descoberta foi publicada na revista Science em 13 de janeiro. 

"Nosso grupo e outros investigam a hipótese de que o EBV causa esclerose múltipla há anos, mas este é o primeiro estudo a fornecer evidências convincentes de causalidade", declarou o cientista italiano Alberto Ascherio, professor de Epidemiologia e Nutrição de Harvard e principal autor da pesquisa.

"Este é um grande passo que sugere que a maioria dos casos de esclerose múltipla pode ser prevenida com a interrupção da infecção pelo EBV e que pode levar à descoberta de uma cura para a esclerose múltipla." 
Alberto Ascherio
principal autor da pesquisa

A esclerose múltipla é uma doença inflamatória crônica do sistema nervoso central que afeta 2,8 milhões de pessoas no mundo. Na condição, o sistema imunobiológico ataca a bainha de mielina — capas de tecido adiposo —, responsáveis por proteger os neurônios do cérebro e da medula espinhal. 

neurônios afetados pela esclerose múltipla
Legenda: O sistema imunobiológico ataca a bainha de mielina responsáveis por proteger os neurônios do cérebro e da medula espinhal
Foto: Shutterstock

Quando a estrutura adiposa é danificada, os impulsos nervosos diminuem ou param. A patologia pode causar uma série de sintomas, incluindo problemas de visão, movimentos, sensações ou de equilíbrio. A doença é vitalícia e pode causar incapacidade grave, mas também pode ser leve. 

A causa dela é desconhecida, mas uma das principais suspeitas é o EBV, tipo de herpes vírus que é um dos mais comuns em humanos, cerca de 95% dos adultos já foi afetado por ele.  

O micro-organismo é transmitido através da saliva, como ao beijar outra pessoa infectada ou beber no mesmo copo que ela. Ele pode causar a mononucleose infecciosa, também chamada "doença do beijo" ou febre glandular, e causa uma infecção latente ao longo da vida do hospedeiro. 

Relação entre o vírus e a doença

A principal dificuldade de associar o micro-organismo à condição é que enquanto ele infecta cerca de 95% dos humanos, a esclerose múltipla é relativamente rara. Segundo o estudo de Harvard, os sintomas da patologia surgem cerca de 10 anos após da infecção pelo EBV.

Para estudar a conexão entre o vírus e a doença, os pesquisadores analisaram amostras coletadas a cada dois anos. Desta forma, eles conseguiram determinar o status do EBV no momento da coleta da primeira amostra e a relação entre a infecção pelo vírus e o início da esclerose múltipla nos voluntários.

Os cientistas constataram que um biomarcador de degeneração nervosa típica da esclerose múltipla só aumentou após a infecção pelo EBV. O risco de esclerose múltipla cresceu 32 vezes após a infecção pelo EBV, mas não mudou após a infecção por outros vírus.

Esses resultados "não podem ser explicados por nenhum fator de risco conhecido para esclerose múltipla e sugerem que o EBV é a principal causa" dessa doença, conforme os pesquisadores.

O que significa a descoberta? 

"Atualmente, não há como prevenir ou tratar efetivamente a infecção pelo EBV, mas uma vacina contra o EBV ou medicamentos antivirais específicos podem prevenir ou curar a esclerose múltipla", afirmou Ascherio.

Os pesquisadores William Robinson e Lawrence Steinman, da Universidade Stanford, escreveram um artigo de comentário que acompanha o estudo de Harvard. Eles observam que "essas descobertas fornecem dados convincentes que implicam o vírus Epstein-Barr como o gatilho para o desenvolvimento da esclerose múltipla".

Atualmente, vários laboratórios estão pesquisando uma vacina contra o vírus Epstein-Barr.

Para a pesquisadora principal da Sociedade de Esclerose Múltipla do Reino Unido, Clare Walton, o estudo não prova conclusivamente uma relação causal.

"Há evidências substanciais sugerindo uma ligação entre o vírus Epstein-Barr e a esclerose múltipla, especialmente quando a infecção sintomática [ou seja, febre glandular ou mononucleose infecciosa] é observada", declarou Walton em um comunicado.

"Como este novo estudo mostra, também estão surgindo evidências para sugerir que a ligação pode ser causal. No entanto, um ou mais fatores adicionais devem ser necessários para desencadear a esclerose múltipla, uma vez que, apesar do fato de que nove em cada dez pessoas em todo o mundo estão infectadas com EBV, a maioria não desenvolve esclerose múltipla."

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