PontoPoder

Antifeminicídio e uso de esposas: como candidatos a presidente buscam atrair voto feminino em 2026?

Mulheres estão ausentes das candidaturas mais competitivas, mas presentes nos discursos, nas propostas e nos demais códigos dos postulantes ao Planalto.

Ingrid Campos ingrid.campos@svm.com.br
19/09/2026 - 11:00

Não só as mulheres são maioria do eleitorado brasileiro (52,8% em 2026, segundo a Justiça Eleitoral), como também são as que mais comparecem às urnas (foram 49% contra 47% dos homens em 2024). É natural, então, que as campanhas majoritárias pensem em estratégias específicas para a atração do voto feminino nas eleições de 2026.

A demanda se torna central diante da inexistência de mulheres nas chapas à Presidência da República, entre os partidos com representação no Congresso Nacional. O cenário é inédito neste século: desde 2002, ao menos uma mulher havia sido cabeça de chapa ou candidata a vice-presidente em legendas competitivas.

Por outro lado, elas estão presentes nos discursos, nas propostas e nos demais códigos dos postulantes ao Planalto. O atual presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidatos mais competitivos em 2026, têm adotado acenos mais claros nesse sentido, mas a tática também é aplicada por outros postulantes. 

Vittor Sales/Flickr Flávio Bolsonaro.
Legenda: Flávio e Lula têm trabalhado simbolismo relacionados ao eleitorado feminino desde a pré-campanha.
Foto: Ricardo Stuckert; Vittor Sales e Werley/Flickr Flávio Bolsonaro.

Além de fatores essencialmente demográficos, o chamado "gender gap" – diferença de posicionamento político entre homens e mulheres – tornou-se um elemento relevante da disputa presidencial. Em escala mundial, pesquisas recentes apontam maior inclinação das mulheres a candidatos de perfil progressista, enquanto homens têm se mostrado mais receptivos a candidaturas conservadoras.

Apesar de o Brasil seguir essa tendência, isso não significa que o eleitorado feminino seja uniformeÉ o que explica Débora Campos, pesquisadora do Núcleo Interdisciplinar em Políticas Públicas e Opinião Pública da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). "O voto feminino pode ser decisivo, não por ser homogêneo, já que as mulheres não votam exatamente como um bloco próprio e têm diferenças de escolaridade, religião, raça, entre outras questões", comenta.

Mas, ao menos por ora, é Lula quem demonstra vantagem nesse segmento. Na pesquisa Quaest divulgada na última segunda-feira (14), o petista aparecia à frente de Flávio entre as mulheres no primeiro turno (37% das intenções de voto contra 29%), enquanto o candidato do PL apresentava desempenho superior em segmentos como eleitores evangélicos e de renda mais alta.

Contudo, além de esse resultado refletir apenas um retrato do momento, podendo sofrer alterações até o dia da votação, ainda há espaço para os candidatos trabalharem sobre o grupo feminino, já que 12% se disseram indecisas a respeito do voto a presidente, segundo o mesmo levantamento.

O levantamento em questão foi realizado com uma amostra da população, no total de 2.004 entrevistados com 16 anos ou mais, entre os dias 10 e 13 de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-03607/2026​ e foi contratada pela Globo.

Esta reportagem compõe o especial “Onde estão as mulheres no poder?”, focado na relação entre gênero e política nas eleições de 2026. Ao longo da campanha eleitoral, o PontoPoder abordará assuntos como o efeito das deepfakes nas campanhas femininas, o prognóstico de financiamento eleitoral para mulheres negras pós-PEC do Perdão, as mulheres nas eleições de 1933 no Ceará e outros temas.

Separador

Foco no combate à violência

No ano passado, o Brasil registrou o maior número de feminicídios desde a criação desse tipo penal, em 2015. Enquanto a violência contra a mulher escalava, o número de mortes violentas em geral chegava ao seu menor patamar em mais de uma década, conforme dados do Anuário da Segurança Pública.

1.571 feminicídios
foram registrados no Brasil ao longo de 2025, segundo o Anuário da Segurança Pública.

O levantamento feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou, ainda, que houve notificação de 502 casos de ameaça, 182 agressões físicas e 79 crimes de perseguição contra mulheres para cada feminicídio cometido no ano passado. 

O combate à violência contra a mulher ganhou, então, espaço nas propostas e discursos dos candidatos ao Planalto em 2026. O presidente Lula, por exemplo, tem focado na institucionalização da pauta nos seus três governos. Entre os destaques, está o lançamento do Pacto Nacional Contra o Feminicídio, em fevereiro, e a sanção do aumento da pena do crime de feminicídio para até 40 anos, atos ostentados nas suas agendas de pré-campanha e de campanha propriamente ditas.  

O PT tem que ter coragem, o meu governo tem que ter coragem de dizer em alto e bom som. Não tem problema que eu perca algum voto, mas não é necessário e não é possível. O cara vai ter que escolher: ou ele vota em mim ou ele bate na mulher. Se bater na mulher, não precisa votar em mim. Pega a sua mão e vota em quem você quiser.
Presidente Lula (PT)

Já Flávio Bolsonaro utiliza uma retórica de endurecimento penal máximo, defendendo medidas como a castração química para estupradores e a concessão de medidas protetivas imediatas por delegados. Eventualmente, ele une o discurso categórico a uma estratégia de sensibilização, ao mencionar as mulheres da família.  

Eu sou casado, pai de duas princesinhas, que são a razão do meu viver. E eu imagino a dor dessas famílias que têm uma mulher agredida ou assassinada por um covarde. E a gente não vai mais tolerar isso neste país. As mulheres serão, de verdade, abraçadas e protegidas, sem hipocrisia.
Senador Flávio Bolsonaro (PL)
Em ato na avenida Paulista, no mês de março.

Ronaldo Caiado, candidato ao Planalto pelo PSD, também se utiliza da retórica de endurecimento no campo da violência de gênero. Ele baseia quase toda a sua interlocução com as mulheres na sua experiência como governador de Goiás, adotando o discurso de "mão pesada" e afirmando que "em briga de marido e mulher, se mete algema”.

Augusto Cury (Avante), por sua vez, aposta na tecnologia para essa finalidade. Sua proposta mais emblemática na área defende o uso de drones para uma ofensiva emergencial em casos de violência contra a mulher. O equipamento, segundo o candidato, seria acionado pelas delegacias e chegaria ao local do crime antes dos policiais, emitindo um alerta sonoro para intimidar o agressor

Política do cuidado ganha espaço

Ainda que o tema da violência contra a mulher seja predominante nestas eleições, assuntos relacionados à política do cuidado também têm ganhado evidência nas campanhas ao Palácio do Planalto. 

Além da institucionalização de um Plano Nacional de Cuidados, que estabelece metas para áreas como saúde, educação e assistência social, a campanha petista exibe uma estratégia específica para a maternidade no contexto eleitoral. O partido criou o Comitê Nacional Mães com Lula para discutir pautas como a universalização de creches e a exaustão materna.

Flávio Bolsonaro também tem investido nessa discussão, dando à economista Daniella Marques a responsabilidade de conduzir o programa "Brasil por Elas", que busca integrar o trabalho de cuidado com propostas de microcrédito e empreendedorismo feminino, visando atrair mulheres que sustentam lares.

Romeu Zema (Novo) propõe regras distintas no Bolsa Família, mantendo ou ampliando benefícios para mães solo, enquanto exige qualificação de homens jovens.

‘Primeiro-damismo’ é estratégico

Os candidatos têm se utilizado, ainda, de figuras estratégicas com apelo familiar para segmentar a campanha. As esposas de Lula (Janja da Silva), de Flávio (Fernanda Bolsonaro) e de Ronaldo (Gracinha Caiado) têm sido usadas para aproximar os candidatos do eleitorado feminino. 

Na avaliação de Deniza Gurgel – jornalista e pesquisadora de imagem política –, essa movimentação tem sido comum também em campanhas para governos estaduais.

"Há várias 'candidatas a primeiras-damas' com estruturas tal qual o candidato cabeça de chapa, às vezes até maiores do que as dos vices, para fazer a comunicação delas. As primeiras-damas falam com um público com o qual o candidato, na maioria das vezes, não fala. Elas têm uma liberdade de falar sobre assuntos do dia a dia que, muitas das vezes, não vão caber na agenda da campanha do candidato", avalia a profissional.

A atual primeira-dama do País tem presença ativa nas agendas eleitorais, inclusive com estrutura própria de campanha. "A figura de primeira-dama tem uma simbologia de identificação com determinados segmentos sociais e também pode trazer uma imagem mais humana do candidato. Ela pode atuar politicamente, mobilizando pautas e redes próprias", aponta a pesquisadora Débora Campos. 

O mesmo vale para Michelle Bolsonaro (PL), figura presente nas campanhas do marido, Jair, em 2018 e 2022. Ela deve seguir influente na campanha de Flávio, seu enteado, em 2026, após a superação pública de uma crise entre os dois. Contudo, a atuação na atual campanha presidencial pode ser mais limitada à circunscrição do Distrito Federal, pelo qual ela lançou candidatura ao Senado.

"A crise foi publicamente contornada, mas não necessariamente apagada. Essa reconciliação é importante para a campanha porque existe uma divisão interna da família Bolsonaro, porque se imagina: 'Se eles não estão resolvidos ali dentro, imagina como vão comandar o Brasil'. Essa questão da figura da família para os Bolsonaros e o público mais conservador é muito importante, de modo geral. Então é importante separar essa pacificação pública de uma eliminação de divergência. A própria Michele voltou à campanha, mas deixou claro que algumas discordâncias continuam", pondera Campos, citando lamento da ex-primeira-dama sobre a ausência de uma mulher na chapa presidencial do PL.

Diante dessa limitação, o PL tem preparado a esposa de Flávio, Fernanda, para reforçar o vínculo do candidato com o público feminino. Deniza Gurgel, contudo, é cética quanto aos efeitos dessa alternativa, em comparação à Michelle.

"Ela (Michelle) de fato tem um capital político que é só dela. Você não consegue transferir esse capital político para a Fernanda. Por mais que ela se esforce, as pessoas ainda vão precisar conhecer Fernanda, descobrir quem é Fernanda, criar intimidade com Fernanda, se identificar com ela para daí entender que ela é uma liderança e ter a vinculação afetiva e emocional que as apoiadoras de Michele Bolsonaro têm por ela", aponta.  

Quem também vai apostar na dobradinha Governo Federal-Senado é Ronaldo Caiado. A esposa, Gracinha Caiado (PSD), é candidata à Casa Alta pelo estado de Goiás e figura de proeminência no público evangélico. Ela é apresentada frequentemente não apenas como companheira de vida, mas como uma parceira política e gestora com capital próprio.

Em agenda de pré-campanha no Rio de Janeiro, durante o Congresso da Confederação de Irmãs Beneficentes Evangélicas Mundial (Cibem), ele rebateu indiretamente declarações do blogueiro bolsonarista Paulo Figueiredo sobre mulheres votarem "estatisticamente muito mal, principalmente as solteiras", já que as casadas seriam influenciadas pelos maridos.

"Às vezes, a gente ouve algumas colocações que são totalmente improcedentes, quando dizem que talvez a mulher não opine em algumas decisões do país, que muitas vezes ela está ali seguindo o raciocínio do marido. É exatamente o contrário. Da mesma maneira que a Bispa Neusa, a minha esposa Gracinha são muito mais influentes nas nossas decisões, muito mais certeiras", disse. A ideia foi reforçada em evento posterior, realizado em São Paulo.

Em apenas sete anos do governo, na parceria com a minha mulher, Gracinha, e toda a estrutura de governo, nós fomos o estado que mais tirou pessoas da condição da pobreza e da extrema pobreza.
Ronaldo Caiado (PSD)
Candidato ao Planalto

Em outras candidaturas presidenciais, o uso de uma figura feminina estratégica não se restringe às primeiras-damas. No caso de Renan Santos, candidato do Missão ao Planalto, quem coordena a sua campanha é a vereadora de São Paulo, Amanda Vettorazzo (União Brasil). Ela também é liderança nacional do Movimento Brasil Livre (MBL).

Presente nos compromissos eleitorais do candidato pelo Brasil, Vettorazzo pode ajudar a quebrar a resistência de Santos no segmento feminino, após polêmicas envolvendo um áudio vazado por Arthur do Val, conhecido como "Mamãe Falei", com comentários degradantes de cunho sexual sobre mulheres ucranianas em contexto de guerra.

Com um eleitorado numericamente majoritário e mais presente nas urnas, as mulheres ocupam uma posição estratégica na disputa pelo Planalto em 2026. O desafio dos candidatos, avaliam as especialistas, será transformar esses acenos em identificação política efetiva – sobretudo diante de um eleitorado feminino heterogêneo, que não responde a uma única agenda nem vota de forma homogênea.

Afinal, mais do que falar para as mulheres, as campanhas precisarão demonstrar capacidade de disputar suas preferências em um cenário no qual cada segmento desse eleitorado pode fazer diferença para o resultado.

Créditos

Ingrid Campos, Repórter | Jemmyle Cunha, Lincoln Souza e Louise Dutra, Equipe de Arte | Jéssica Welma e Wagner Mendes, Editor de Política | Victor Ximenes, Coordenador de Jornalismo | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo

Este conteúdo é útil para você?