Ação da prefeita de Beberibe (CE) no STF é citada em investigação da PF sobre venda de influência

Apuração aponta possível atuação do grupo do deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) em prol de reclamação judicial de Michele Queiroz.

Escrito por Marcos Moreira marcos.moreira@svm.com.br
18 de Setembro de 2026 - 18:16
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Legenda: Reclamação judicial da prefeita Michele Queiroz é citada em investigação que apura suposto tráfico de influência de Cezinha de Madureira.
Foto: Reprodução/Redes sociais | Divulgação/Câmara dos Deputados.

Uma reclamação judicial da prefeita de Beberibe, Michele Queiroz (PP), no Supremo Tribunal Federal (STF) foi citada na investigação sobre suposto tráfico de influência sobre magistrados de tribunais superiores, por parte do deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP)

O parlamentar foi alvo de mandados de busca e apreensão em 14 de setembro, por meio da operação da Polícia Federal (PF) contra crimes de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Em nota da defesa, ainda no dia da ação, Cezinha alegou ter “conduta sempre ilibada” e que “nenhuma irregularidade foi cometida”.

Na decisão que autorizou a operação, o ministro Flávio Dino aponta que Cezinha supostamente teria utilizado da “ascendência de sua função parlamentar” para simular “percepção de influência sobre magistrados”, com o objetivo de conseguir decisões favoráveis no STF, no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — os ministros não são alvos de investigação.

O despacho de Flávio Dino cita uma ação judicial da prefeita de Beberibe, protocolada em maio de 2025. Trata-se da reclamação 79545 — instrumento jurídico para preservar entendimentos da Corte —, na qual Michele tentava anular uma investigação do Ministério Público do Ceará (MPCE) sobre supostas irregularidades em contratos de merenda escolar, sob alegação de que não houve autorização prévia do Tribunal de Justiça.

Relator do caso no STF, o ministro Kassio Nunes Marques acabou anulando a investigação contra Michele por iniciativa própria, ou seja, sem o pedido das partes, em “habeas corpus de ofício”, mesmo não acatando a reclamação em si. A defesa da prefeita no STF contou com a atuação de uma advogada apontada como do grupo de Cezinha.

Em nota, Michele Queiroz informou que desconhece os fatos narrados e as informações da matéria sobre “apuração de responsabilidade envolvendo interferência ou influência em decisões judiciais que extrapolem o limite ético".

“Reitera sua confiança no trabalho das instituições e dos órgãos responsáveis pela investigação e segue concentrada no trabalho em prol de uma agenda positiva, voltada ao desenvolvimento de Beberibe e à melhoria da qualidade de vida da população”, finaliza a nota da prefeita.

Contrato de meio milhão

A defesa de Michele no STF contou com a atuação de Mariângela Fialek. Conforme a decisão de Flávio Dino, a investigação da PF aponta que a advogada é ligada ao grupo de Cezinha e atuava como captadora de clientes no suposto esquema de tráfico de influência.

Conversas captadas pela PF indicam que Mariângela Fialek teria negociado um contrato de R$ 500 mil com a prefeita de Beberibe, mediante decisão favorável no Supremo. O assunto foi tema de uma troca de mensagens entre Mariangela Fialek e outra advogada, Valéria Rodrigues Linhares, apontada como esposa de Cezinha.

Em conversas de 15 de maio de 2025, um dia após a ação de Michele ser protocolada no STF, Mariangela Fialek enviou a Cezinha o documento “peca1Rcl_79545.pdf”, relativo à reclamação. Já em 24 de maio daquele ano, as advogadas teriam tratado do “Contrato de Prestação de Serviços de Consultoria Jurídica e Advocacia”.

Ainda conforme as conversas reveladas pela PF, o grupo de Cezinha seguiu trocando mensagens sobre o andamento da ação. O parlamentar também chega a citar tentativas de conversar com o ministro do STF para tratar de casos que está acompanhando.  

“As expressões “vou pedi a ele”, “eu preciso pedir expressamente” e a identificação nominal do interlocutor (“Ministro Kassio”) evidenciam, em juízo de cognição sumária, que o parlamentar não se limitava a encaminhar peças: comprometia-se a formular pedido pessoal e direto ao julgador, em favor de partes representadas por advogadas a ele ligadas por vínculo conjugal e por interesse econômico”
Decisão de Flávio Dino sobre o Caso Cezinha

Outro citados

No contexto envolvendo Michele Queiroz, a decisão de Flávio Dino traz também uma troca de mensagens entre Cezinha e Mariângela Fialek sobre um caso similar ao da prefeita: a reclamação 76831, de Bruno Gonçalves (PSB), prefeito de Aquiraz, protocolada em fevereiro de 2025.

Na ação, Bruno tentava anular uma investigação do Ministério Público do Ceará sobre suposto suposto aumento indevido de despesas no Município, também sob alegação de que não houve autorização prévia do Tribunal de Justiça. Outro fato em comum foi que Mariângela Fialek também atuou na defesa dele no STF.

O caso ficou sob a relatoria do ministro Edson Fachin, que negou o pedido do prefeito de Aquiraz. Contudo, após recurso da defesa de Bruno, a investigação foi anulada na Segunda Turma do STF, com votos de Nunes Marques, Dias Toffoli e Gilmar Mendes.

O despacho do ministro Flávio Dino não traz, porém, detalhamento de possíveis valores e datas da suposta atuação do grupo de Cezinha acerca do caso de Bruno Gonçalves.

O PontoPoder buscou, via assessoria, o prefeito de Aquiraz sobre a citação no caso de Cezinha Madureira, mas ainda não houve reposta. A matéria será atualizada em caso de retorno. 

Em outro diálogo obtido pela PF, Mariângela Fialek compartilhou o contato “Júnior Mano Dep JM1” com Valéria Rodrigues Linhares, que indagou: “1.4 k / Mesmo de pro? / Tudo igual?”. A troca de mensagens ocorreu em 23 de maio de 2025, um dia antes das advogadas tratarem do contrato de Michele Queiroz. 

O PontoPoder também acionou o deputado federal Júnior Mano acerca da citação nas conversas. “A prefeita (Michele) vota no deputado, é uma aliada política e pediu uma indicação. O deputado tão somente indicou um escritório de advocacia. Ele não acompanhou os desdobramentos do caso”, respondeu, via assessoria. 

Operação da PF

No último desdobramento da investigação, Cezinha de Madureira foi um dos alvos dos quatro mandados de busca e apreensão da terceira fase da Operação Transparência. A ação ocorreu em 14 de setembro, no Distrito Federal e em São Paulo.

A ação é desdobramento de investigação iniciada em dezembro de 2025 para apurar irregularidades na destinação de emendas parlamentares. 

As investigações apontam que integrantes do grupo de Cezinha teriam negociado com terceiros o pagamento de “valores expressivos”, condicionados ao resultado de processos em tribunais, com o intuito de influenciar decisões judiciais.

Conforme a Polícia Federal, não há elementos que indiquem a participação de integrantes do Poder Judiciário nos fatos apurados. A investigação segue em andamento. 

Cezinha nega venda de influência

Em nota da defesa, divulgada em 14 de setembro, Cezinha de Madureira disse que está à disposição das autoridades e prestará todos os esclarecimentos necessários. Defendeu, ainda, que “medidas de tamanha repercussão deveriam ter sido conduzidas com a devida distância de qualquer circunstância política ou eleitoral.”

“O deputado está certo de que, assegurados o contraditório e o amplo acesso da defesa aos elementos da investigação e à integra do processo, os fatos serão devidamente esclarecidos no devido processo legal, com a demonstração de que nenhuma irregularidade foi cometida”, diz a defesa de Cezinha. 

As defesas de Mariângela Fialek e Valéria Rodrigues Linhares não foram localizadas. O espaço segue aberto para manifestação.

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