Entre o silêncio e o barulho dos maracatus, justiça para Moïse

Todos os cortejos, baques e loas fazem barulho neste momento pelo congolês Moïse Mugenyi Kabagambe
Legenda: Todos os cortejos, baques e loas fazem barulho neste momento pelo congolês Moïse Mugenyi Kabagambe
Foto: Agência Brasil

Noite dos tambores silenciosos, como na cerimônia das nações de maracatu de Pernambuco para lembrar o lamento dos escravizados nos porões de navios e senzalas. Maracatus afro-brasileiros com origem no Congo. Em ritmo mais lento e cadenciado nas percussões, lá vem também a “congada” dos maracatus cearenses para marcar a memória de muitos carnavais.

Todos os cortejos, baques e loas fazem barulho neste momento pelo congolês Moïse Mugenyi Kabagambe, 24 anos, amarrado e morto a pauladas como seus conterrâneos no Brasil Colônia.

O coquetel tropical dos horrores. Um crime que junta racismo, xenofobia, poder de milícia e condições precárias de trabalho — a família de Moïse relata que ele havia ido cobrar 200 reais aos encarregados no quiosque Tropicália, na orla da Barra da Tijuca. Recebeu mais de 30 golpes de uma tora de madeira. Como se tivesse nas mãos de proprietários que acabaram de comprá-lo no Cais do Valongo, ali mesmo no centro da cidade do Rio de Janeiro.

Na noite e dia dos tambores silenciosos, ouvimos a fala de Lotsove Lolo Lavy Ivone, comerciante, mãe de Moïse: “Eles quebraram o meu filho. Bateram nas costas, no rosto. Ó, meu Deus. Ele não merecia isso. Eles pegaram uma linha, colocaram o meu filho no chão, o puxaram com uma corda. Por quê? Por que ele era pretinho? Negro? Eles mataram o meu filho porque ele era negro, porque era africano”.

Torcedor do Flamengo, peladeiro na praia e em Madureira, Moïse tinha devoção e agradecimento ao Brasil. Toda a família acreditava, apesar dos perrengues vividos pelos migrantes negros, em um país com alguma decência e hospitalidade. Silêncio dos tambores. O Brasil que mata a pau e pedra deu as caras no calçadão dos tristes trópicos.

Entre o barulho e o silêncio dos maracatus que reverberam a existência dos herdeiros do Congo no Brasil, também ouvi o som do mestre Silvio de Almeida, advogado, filósofo, autor do livro “Racismo Estrutural”: “Um homem negro foi assassinado quando reivindicava direitos trabalhistas e ainda há quem negue que racismo seja relação de poder e que tenha profundos laços com a economia. Certamente aparecerá algum inocente ou canalha (ou os dois) para dizer que ´não foi racismo´”.

Que o maracatu da justiça dos homens pese uma tonelada, para lembrar a música da Nação Zumbi e de seus ancestrais.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.



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