Análise: Reabertura gradual mostra preocupação paralela com economia do Ceará

Economia cearense deve recobrar algum fôlego, mas quadro da saúde ainda inspira muita atenção

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Legenda: Setor de comércio e serviços representa mais de 70% da economia cearense
Foto: José Leomar

Confirmada hoje (10) pelo governador Camilo Santana, a reabertura gradual do comércio e serviços evidencia a preocupação concomitante do Estado com o derretimento do quadro econômico em meio à pandemia.

Na intrincada gestão paralela das crises sanitária e econômica, o Palácio da Abolição julgou que a recente retração dos números da saúde permite a retomada parcial de algumas atividades.

Convém ressaltar que, apesar de observada uma branda melhora, a tensão sobre o sistema de saúde ainda é intensa mesmo após mais de um mês de isolamento social rígido em Fortaleza, em vigor desde o dia 5 de março e estendido para todo o Estado no dia 13 do mês passado.

Já na segunda-feira desta semana, havia expectativa de flexibilização do decreto e a não concretização dos pleitos elevou a pressão dos setores sobre o comitê.

Fôlego à atividade econômica

Reabrir comércio e serviços, responsáveis por uma grande fatia do PIB local, é um passo importante para reenergizar parte da economia.

O desemprego, o aumento da pobreza extrema e da fome são fatores que não podem passar ao largo na tomada de decisões, embora, por óbvio, não há medida milagrosa para sanar estes dramas sociais sem antes controlar a pandemia que mata 4 mil pessoas por dia no País.

Auxílio emergencial
Legenda: Auxílio emergencial voltou a ser pago, mas reflexo na economia deve ser menor que no ano passado
Foto: Brenda Rocha/Shutterstock

Aliás, é falacioso, reducionista e preguiçoso o discurso que se prolifera nas redes sociais de tentar dissociar inteiramente estas duas grandezas, saúde e economia, como se o correto fosse escolher uma e automaticamente abandonar a outra.

Pensamento estratégico

Na prática, não há o que escolher. Saúde e economia não são conceitos adversativos. Precisam ser pensadas simultaneamente, com base em dados, em projeções e parâmetros técnicos, científicos, médicos, sociais e econômicos, priorizando, claro, a preservação da vida.

Fugir deste espectro é incorrer em discussões apaixonadas que inundam grupelhos de WhatsApp, as quais costumam se resumir a dicotomias perfeitas (amor ou ódio, abrir ou fechar, 13 ou 17, etc). 

Mais de um ano depois, é obtuso não enxergar que a condução sanitária e a econômica estão umbilicalmente conectadas. Os países que resolvem a primeira consequentemente pavimentam o caminho para a segunda. Já o Brasil, disparadamente o lugar favorito do vírus no planeta, prolonga sistematicamente a instabilidade de ambas.

Ações de contingência

Em âmbito estadual, ações de socorro como a concessão de vale-gás e de auxílio cesta básica e o crédito de R$ 100 milhões a microempreendedores e autônomos tentam amenizar a penúria entre os mais vulneráveis, enquanto, em escala federal, o auxílio emergencial deve prestar algum alívio. Tais iniciativas são de imensa importância, mas diante do trágico panorama na saúde, terão efeito paliativo.

Quanto aos setores, uma série de providências fiscais já foi anunciada – falta o retorno do programa de redução de salários e jornadas, bastante cobrado pelos empresários –, mas o impacto delas é igualmente limitado se a tragédia sanitária seguir nesta marcha de letalidade.

Enquanto a vacinação se arrastar no atual compasso, a economia continuará cambaleante, mesmo com atividades liberadas.