O que revelou a parada das redes sociais

Legenda: O exagerado uso das redes sociais é razão para reflexão
Foto: Shutter

A queda das redes sociais mais usadas pela humanidade, na última segunda-feira, 4 de outubro, representou um colapso mundial na comunicação, atingindo quase 3 bilhões de pessoas. Fiquei a pensar nos seus impactos e o que se revela por trás dessa parada.

Michel Foucault, renomado filósofo francês que, embora desconhecido para a maioria dos mortais, na favela, muitas pessoas conhecem na prática - e na pele -, o significado de sua obra “Vigiar e Punir” que, ao meu ver, é a melhor de todas. Um exemplo disso, infelizmente, são as atitudes corriqueiras de alguns policiais, como os de Minas Gerais, que agrediram covardemente o líder da Cufa de Belo Horizonte, André Cavaleiro, nesta semana. É o controle dos corpos.

Entretanto, a queda das principais redes sociais me trouxe uma reflexão sobre outro tipo de controle. A partir disso, fiz um paralelo com a obra do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, nomeada de “A Sociedade do Cansaço”. Nesta obra, o autor aborda criticamente como é realizado o controle das nossas mentes pelo paradigma da positividade permanente e
problematiza a supervalorização do excesso de conectividade em prol da hiper produtividade.

No dia em que a rede parou, muita gente se sentiu descansada e aliviada com a ausência de notificações do Zap. Mas já outras, como o seu Gerônimo da favela de Heliópolis, em São Paulo, teve um enorme prejuízo porque o aplicativo travou e as marmitas não saíram para venda.

Adilson, meu amigo motoboy da Brasilândia, também ficou sem fazer suas entregas. E até minha amiga que atua no mercado de conteúdos de prazer visual estava sem saber o que fazer, pois os “close friends” e os “only friends” fecharam. As mais espertas migraram para a rede quase irmã, o Telegram, no intuito de reduzirem os impactos na economia dos views e desejos.

Regina, uma amiga que dá aulas de ginástica pela rede social para mais de 200 alunas, ficou sem sua “sala de aula”. Demonstrando o quanto o tal do monopólio da propriedade dos meios de produzirmos nossa existência, é prejudicial para a vida coletiva. Se as monarquias absolutas baseiam seu poder na privação - da liberdade, dos bens, da vida e etc - e da sujeição do súdito a um senhor, a revolução industrial aprimorou o controle do corpo. Ou seja, da nossa força produtiva pela propriedade dos meios de produzir e existir.

Aliás, a ideia de liberdade e desejo é cada vez menos verdadeira. Acho que hoje muitas vezes  não passam de realidades forjadas. Antes vivenciávamos a sofrência decorrente de maneira mais reservada e íntima, no máximo, no auge da embriaguez, dividíamos com o garçom aquele ombro amigo, como bem narrou o ícone Reginaldo Rossi. Isso sem falar da pressão de vidas perfeitas, corpos perfeitos, carreiras bem-sucedidas, equilíbrio e vida saudável numa sociedade doente e em crise.

O prejuízo dos mais simples foi enorme! Mas, por outro lado, o “bug” representou a folga mundial na produção de dados que acaba por nos moldar para a produção e o consumo, seja de mercadorias, seja de ideias, condutas ou opiniões, mas também a folga do carrasco que mora dentro de nós e que, todos os dias, busca bonificação e aprovação da rede mundial ou nos conduz ao emaranhado do novo empreendimento que temos que responder.

Os excessivos estímulos produzem a “sociedade do cansaço” que nos empurra, cotidianamente, para uma agonizante corrida à procura de mais seguidores, views e exposição. Então, que aproveitemos esta folga para refletir o quanto de “liberdade” temos, ou se somos apenas meros dados em alguma planilha no Vale do Silício, e que sigamos o conselho da Dona Fátima, minha mãe, no trato com as redes: nem 8 e nem 80. Tudo demais é veneno.

Ah, aproveita que voltou tudo e compartilha esse texto na rede vizinha.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.



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