Não consigo escrever e a culpa é do fim de Janeiro

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Foto: Shutterstock

Três meses depois de iniciar minha coluna aqui, aconteceu: sentei na cadeira, liguei o computador, abri o Word e não tinha a menor ideia sobre o que eu iria escrever. Isso depois de passar a semana inteira sofrendo pelo problema.

Fiz caminhadas pelo meu bairro esperando o click. Na busca por alguma luz, ouvi podcasts enquanto lavava a louça - que se junta numa ostensiva pilha com uma rapidez impressionante. Vi BBB louca por alguma pauta que me empolgasse, mas empolgação é uma palavra difícil considerando o atual elenco do reality show. Vi séries e filmes e tive ideias, mas achei tudo cansativo, desinteressante. Vi o documentário da Nara Leão e depois daquela avalanche de beleza, quem tem sequer força para escrever. Tentei puxar alguma coisa que havia falado na terapia, algum tapa virtual que a psicóloga havia me dado. Nada. Olavo de Carvalho morreu, meu sobrinho nasceu. Nada. Nem uma letra sequer saiu.

Não era o mundo que não me dava opções. Há muito o que escrever, o tempo inteiro, em qualquer esquina, aliás, dentro de casa, até. O problema era mesmo esse fantasma que assombra escritores: o nada pairando.

Aconteceu o mesmo com o livro que estou escrevendo. Não adicionei à história uma única linha, não fiz ou refiz nenhum parágrafo, não melhorei ou piorei frase alguma. Estanquei. Empaquei. Paralisei. Bati a cabeça na parede, espremi o cérebro e não pingou uma gota sequer, nada que preste ou - para servir de consolo - que não preste.

Quando comentei com meu marido, já no limite do prazo de envio do texto, que eu escreveria sobre não conseguir escrever, ele adicionou uma camada de pressão à minha agonia. “Tem certeza? Melhor ter porque você só pode usar esse recurso uma vez. Da próxima já fica chato”. Bom, o fato é que eu não tinha certeza, nem isso eu tinha.

Passei longuíssimos minutos rolando a barra do Instagram, olhando pela janela, depois buscando assunto no Twitter, folheei com atenção as páginas do livro que estou lendo, como que pedindo desesperadamente por um caminho. Parei nas minhas lembranças do Facebook e, ironicamente, havia uma postagem de 28 de Janeiro de 2010 - o dia de hoje, doze anos atrás - em que reproduzi uma frase da música ‘Socorro’, do Arnaldo Antunes: “qualquer coisa que se sinta, tem tanto sentimento deve ter algum que sirva”.

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Era o sinal verde que, enfim, me faltava para escrever sobre não escrever. Saber que me senti mais ou menos como hoje anos atrás era a desculpa que eu precisava para colocar minha apatia na conta do misticismo, do desconhecido. Para fortalecer minha teoria, lembrei que uma amiga lamentou os pesadelos da semana, outra se queixou de um cansaço inexplicável, outra disse que astros estão em isso ou aquilo retrógrado no momento. Então, concluí, triunfalmente: a semana foi estranha, eu assisti o mundo acontecer sentindo pouco ou nada e a culpa nem é minha. Deve ter alguma coisa insólita com os finais de janeiro. Só pode ser.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora

 



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