Alegrias, cicatrizes e a nuvem por trás da máscara ensolarada de Portugal

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Estar em Lisboa é passear por memórias. Agora mesmo escrevo isto sentada num café entre o Chiado e o Terreiro do Paço. Descendo pela Rua dos Fanqueiros, passo pelas escadas ao lado do primeiro prédio em que morei e onde passei noites conversando com tantos amigos de diferentes países.

Na Praça da Figueira, além da vista do Castelo de São Jorge que admirei cotidianamente, vejo o banco em que sentei com minha mãe para comer morangos na primeira vez que ela veio me visitar, num verão quentíssimo. Na Praça Luís de Camões, vejo as ruas que eu subia e descia indo e voltando do Bairro Alto, nas noites em que garrafas de vinho barato eram minha principal refeição. Quando atravesso o Rossio, passando ao lado da estátua central, lembro que foi ali que vi meu marido pela primeira vez, numa noite quase fria de primavera. A cada rua estreita de Alfama ou da Graça, lembro da sensação indelével de liberdade, de voltar para casa sozinha ou acompanhada, sem qualquer medo.

Mas essas lembranças não vêm sozinhas. Na mesma Praça da Figueira, vejo a estação de metrô que eu pegava para ir à Universidade, aquele lugar em que o português que eu tanto me orgulho de falar era insuficiente, menor, indigno. Descendo a Rua do Alecrim rumo ao Tejo, vejo o bar em que, por rejeitar a investida de um rapaz português, fui encostada na parede enquanto ele perguntava se eu tinha documentos para viver aqui.

Reconheço as tantas ruas com diversas placas de aluguel para as quais eu ligava e ouvia costumeiramente: “Não arrendamos para brasileiros”. Lembro dos meus amigos há tantos anos vivendo, trabalhando e pagando impostos aqui, mas sem documentação por conta dos atrasos desumanos do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Desembarco no aeroporto em que uma amiga passou pelo trauma de ficar de calcinha e sutiã numa sala sozinha com um oficial, sem absolutamente nenhuma razão, enquanto ele olhava para o seu corpo com aquela perversidade que só os homens com algum poder exalam.

Portugal é uma alegria e um incômodo. Uma beleza e uma ferida. Um amigo e um algoz. Um poço de felicidade e dor, como são muitos lares. Foi aqui que construí algumas das melhores lembranças da minha vida e foi aqui, também, que experimentei ser alguém indesejada.

Dentre tantas primeiras vezes, neste país senti a rejeição em seu sentido social e político. Ninguém me conhecia o suficiente, me rejeitavam apenas porque eu carrego comigo, no meu corpo, na minha voz, no meu gesto, no meu sotaque, a marca de ter nascido no Brasil. Uma marca que nunca fiz questão de esconder. Um exemplo disso é que até hoje falo trem ao invés de comboio, ônibus ao invés de autocarro, café da manhã ao invés de pequeno-almoço, e – algo que certa vez me rendeu uma humilhação extra no SEF – falo meia ao invés de seis.

Revisitando algumas destas memórias num grupo de amigas no WhatsApp, me dei conta de que dizendo em voz alta eu tinha a dimensão das violências que já vivi aqui, mesmo as que chegaram em tons de brincadeira. Enquanto passeava por entre as dores, como que providencialmente, uma moça me mandou mensagem no Instagram perguntando se eu voltaria a morar em Lisboa, o que me fez pensar. Prometi responder por aqui.

Sim, voltaria. Não apenas porque amo este país que hoje é meu também, mas também porque com os anos aqui tomei valiosas lições: uma delas é que ocupar os lugares em que sou politicamente indesejada é meu dever. Que posso ser respeitosa sem jamais ser subserviente. Que, atrevida, tenho direito de fincar bandeiras e decretar meu dia do fico. Que o faço por mim, sim, mas também pelos meus amigos e amigas, por outros imigrantes, por pessoas que têm o direito de escolher viver onde quiserem, que a felicidade é mesmo uma busca e às vezes a encontramos longe do país em que nascemos. Que Portugal e Europa têm uma dívida eterna conosco, que eles é que deveriam abaixar suas cabeças enquanto passamos e não o contrário e que não, isso não é “mimimi de colonizado” como – pasmem – já ouvi tantas vezes por estas terras.

Hoje, as visitas rápidas a Lisboa me são suficientes. Mas se algum dia o vento virar e a bússola apontar novamente em direção portuguesa, volto. E entre alegrias e tristezas, trago comigo a célebre frase de Zagallo: eles vão ter que me engolir.

 

OBS.1: Desde o primeiro dia, cheguei a Lisboa com visto e documentos, estudei e tive um bom trabalho. Nada do que passei se compara ao que passam pessoas sem documentação ou visto. Como também nada disto se compara ao que vivem imigrantes pobres e/ou negros, vindos de países africanos ou asiáticos.

OBS.2: Este texto não é uma generalização. Há muita gente em Portugal que luta pelo fim da xenofobia e que se envergonha do que citei aqui. Fui muito bem tratada e acolhida pela maioria dos portugueses e na maior parte do meu tempo neste país. Entretanto, não se cura uma doença focando no que está saudável, mas remediando os sintomas ruins. E isto, este pedaço de Portugal, está doente há longos séculos.

 

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora