Anistia é revisitada em filme que resgata registros dos anos 1970 considerados perdidos

Confira crítica do documentário "Anistia 79", de Anita Leandro, em cartaz em 17 cidades brasileiras.

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
Legenda: "Anistia 79" venceu o principal prêmio da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Foto: Velso Ribas / Divulgação.

As imagens mais ligadas ao período da ditadura militar no Brasil, ocorrida entre 1964 e 1985, são quase sempre aquelas marcadas por cenas de violência — decerto uma característica norteadora do regime. O que ocorre, no entanto, após a repressão, a tortura e a perseguição?

“Anistia 79”, documentário da cineasta Anita Leandro atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros, proporciona um vislumbre ao resgatar imagens, consideradas perdidas, de uma conferência internacional sobre a luta pelo perdão oficial do Estado e os direitos políticos plenos de presos políticos e exilados.

Em vez de se construir somente a partir desses registros, o filme convida figuras ligadas ao processo de luta pela anistia — sejam agentes que participaram do evento, realizado em Roma em 1979, ou familiares de quem esteve lá — a assisti-los

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Estruturalmente, então, “Anistia 79” se organiza como um documentário no qual vemos pessoas convidadas assistindo às filmagens da Conferência Internacional pela Anistia no Brasil. A proposta é visualmente solucionada, por exemplo, com momentos de tela dividida entre as imagens e as reações a elas.

Relações íntimas

Tal acesso que temos, mediado pelas respostas dessa plateia específica aos registros da época, abre espaço para uma rica costura entre aspectos mais íntimos daquelas pessoas e as discussões políticas de então — cujos ecos, ressalte-se, permanecem hoje. 

Mães de presos políticos que se tornaram lideranças do movimento de resistência ao regime, deputados de diferentes vertentes da esquerda brasileira da época, líderes de sindicatos de trabalhadores urbanos e rurais, entre outros perfis, povoam as imagens que os espectadores — tanto nós quanto os registrados pela câmera — veem.

Um homem sentado em uma sala escura observa uma grande tela de cinema, vista de costas em silhueta. Na tela iluminada, é exibido o retrato em preto e branco de uma mulher jovem de cabelos curtos.
Legenda: "Anistia 79" convida figuras ligadas ao processo de luta pela anistia no Brasil para assistir imagens consideradas perdidas de um evento pela causa realizado no fim dos anos 1970.
Foto: Maria Flor Brazil / Divulgação.

Foram registrados não apenas os discursos oficiais na tribuna da conferência, mas também momentos de conversas fora da programação oficial, abraços e saudações trocados entre as pessoas presentes. 

Da mesma forma que falas contundentes sobre a demanda por uma anistia irrestrita e plena aos presos políticos têm impacto em quem assiste, há momentos marcados por ternura nos quais filhos reconhecem os pais nas imagens vistas.

Mais de uma vez, os espectadores no filme utilizam a palavra “festa” para descrever os momentos, registrados ali, de sorrisos, reencontros e descobertas mútuas de que um amigo ou conhecido seguia vivo apesar da ditadura.

Se haver com aquelas imagens, então, espelha o processo do próprio País de se haver com as memórias e os ecos não somente do período mais duro do regime militar, mas também os resultados tortos da luta pela anistia, que acabaram blindando os próprios militares.

"Volta pra trás, que eu queria ver tudo de novo", diz um dos espectadores do filme dentro do filme. A frase simboliza, de dada forma, o gesto empreendido em “Anistia 79”. “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”, diz José Saramago. 

É o que o filme faz e convida o público a fazer: ver e, então, reparar — gesto esse que, infelizmente, muitos insistem ainda hoje em não fazer.

"Anistia 79" em Fortaleza

  • Quando: dia 23, às 19h30, e dias 25 e 26, às 20 horas
  • Onde: Cinema do Dragão (rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema)
  • Mais informações: no site Ingresso.com
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