Turismo com cavalos-marinhos em Jericoacoara é alvo de mobilização para encerrar contato humano

Espécie é ameaçada de extinção, mas segue como atração turística em Jericoacoara, apresentada em vasilhames

Cavalo marinho exibido em vasilhame de plástico durante passeio no mangue de Jericoacoara
Legenda: Cavalo marinho exibido em vasilhame de plástico durante passeio no mangue de Jericoacoara
Foto: Arquivo

Figuras públicas de proteção animal têm feito uma ofensiva nas redes sociais contra o turismo nos mangues do Parque Nacional de Jericoacoara onde existe um berçário de cavalos-marinhos. O passeio, tradicional na oferta de turismo em Jeri, inclui a retirada do animal da água com potes de vidro ou bacias plásticas para apreciação dos turistas. 

"Um simples toque remove a proteção natural (muco) que eles têm no corpo prejudicando a sua saúde, imagine só retirar da água pra colocar dentro de potes! Isso é um crime", ressalta o protetor animal Apollo Maychrovicz, representante do Abrigo São Lázaro, em Fortaleza.

Ele e o deputado Célio Studart (PSD) assinaram ofício da Câmara dos Deputados, pedindo esclarecimentos sobre a prática ao prefeito de Jijoca de Jericoacoara, Lindbergh Martins, ao Ministério Público e à Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa dos Animais (COANI).

Em nota, o prefeito da Cidade explicou que a gestão de atividades turísticas desse tipo não é responsabilidade da Prefeitura, mas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio; e que tomará providências sobre o caso.

"A referida atividade não está sob jurisdição municipal, tampouco foi concedido qualquer licença ou autorização municipal, sendo de competência exclusiva do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão do Governo Federal. Portanto, as referidas publicações não condizem com a verdade e devem ser corrigidas. Ainda assim, o Município está apurando as informações e notificará os responsáveis para que tomem as devidas providências para a imediata resolução da problemática", diz a nota.

O deputado Célio Studart disse também que cobrará providências do órgão.

"Vamos questionar o Instituto: por que permitir a utilização desses animais com essa finalidade? Não deve ser levado turista a esse tipo de contato, não é benéfico para os animais, em nada acrescenta, nem ao turismo do município muito menos a esses animais", disse o parlamentar. 

ICMBio

A coluna procurou por e-mail a assessoria do ICMBio e aguarda resposta sobre o caso. 

Passeios turístico e transporte de passageiros em veículos tipo buggy, quadriciclo e caminhonete jardineira no Parque Nacional de Jericoacoara são regulamentados por portaria do órgão de 2016.

"Eu estava aguardando a resposta do @icmbio e fiquei CHOCADA que realmente eles apoiam este tipo de abuso! (...) O ICMBio informa que os passeios que envolvem cavalos-marinhos no Parque Nacional de Jericoacoara, no Ceará, só podem ser realizados por condutores habilitados pelo ICMBio. Inacreditável", escreveu a protetora animal Luisa Mell, em publicação sobre a nota da Prefeitura.

Na Ficha Técnica da Unidade de Conservação do Parque, no Plano de Manejo, que data de 2011, consta como atividades de uso público a "observação de vida silvestre (cavalo-marinho); banhos em lagoas e no mar; caminhadas".

Espécie ameaçada

No ano passado, no Dia Mundial de Proteção aos Manguezais, publicação no site da Prefeitura ressalta que a espécie está ameaçada de extinção.

"Em Jijoca de Jericoacoara temos o Mangue Seco, onde acontece o Passeio Ecológico do Cavalo Marinho, feito de canoa pelo mangue, ecossistema que é um berçário natural pela riqueza de alimentos e calmaria de suas águas. A vegetação tem raízes escoras e respiratórias que produzem um emaranhado na lama onde vivem caranguejos e marias-farinhas. Em suas águas, vivem os incríveis cavalos-marinhos, ameaçados de extinção no mundo todo. Para preservá-los, nunca são apanhados com as mãos, somente em recipientes que evitem o contato com sua pele, sendo devolvidos ao seu habitat natural logo em seguida", diz o texto.

Um cenário de ameaça de extinção requer mudanças de protocolos, por melhores intenções que tenham as pessoas que trabalham se valendo da atração no Parque. Há outras maneiras de conscientizar e educar ambientalmente que não sejam estabelecendo contatos diretos que possam por em risco, ainda que seja por descuido, a vida animal.