A justiça social também pode ser feita com o estetoscópio
A justiça social é baseada no princípio de promover uma sociedade mais justa para todas as pessoas, na qual todos possam usufruir plenamente dos seus direitos, como educação, saúde, trabalho, segurança e lazer, independentemente de sua origem, raça, gênero, orientação sexual, religião ou qualquer outro marcador social.
No entanto, quando se pensa na luta pela efetivação desse princípio, geralmente pensa-se que ela está reservada apenas aos juristas, assistentes sociais e membros de movimentos sociais. Porém, a luta e a busca pela justiça social também podem ser feitas dentro de um consultório, com um jaleco branco e um estetoscópio.
Muitas vezes, médicos e outros profissionais de saúde tendem a achar que sua prática se restringe apenas ao ato individual do cuidado em saúde, mas ela vai bem além disso e pode - e deve - contribuir para uma sociedade mais justa. Mas como isso pode ser feito na prática?
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A justiça social por meio da saúde pode ser promovida, primeiramente, pelo acesso oportuno para todos, papel que o Sistema Único de Saúde (SUS) realiza, mas também pode ser construída compreendendo o paciente como um todo e para além de apenas uma queixa, como dor de cabeça ou dor no estômago.
É entender que o paciente é um ser humano atravessado pelo seu contexto, pelo seu território, pelas suas condições de vida, pelas desigualdades que vivencia e pelas suas histórias. Que não se trata apenas de prescrever o melhor medicamento para o tratamento da pressão alta (hipertensão arterial) para um paciente hipertenso, mas de compreender o seu contexto, a sua condição financeira, se pode pagar aquele medicamento, se ele está disponível no SUS, se aquele paciente sabe ler e irá entender os horários para tomar a medicação.
É entender que aquele paciente pode trabalhar 8 horas por dia, em uma escala 6x1, passar duas horas no transporte público até o trabalho e mais duas horas para voltar para casa. É compreender que talvez o medicamento receitado aumente a vontade de urinar, mas que ele não consiga ir ao banheiro com facilidade porque passa grande parte do dia no ônibus ou no deslocamento. E que, por isso, pode acabar interrompendo o tratamento.
Nesse caso, cabe ao profissional ter um olhar atento para a realidade daquele paciente, para perceber que talvez seja necessário escolher uma alternativa terapêutica que provoque menos esse efeito, considerando a rotina e as condições de vida daquele indivíduo, para que o tratamento seja possível e não apenas prescrito.
É entender que talvez aquela senhorinha que chega relatando dor de cabeça não precise apenas de um analgésico, pois pode ser que ela esteja sobrecarregada em casa, cuidando dos afazeres domésticos, dos filhos, dos pais doentes, do trabalho ou de qualquer outro cenário de sobrecarga.
O processo saúde-doença não está restrito apenas ao ato de perceber a doença, fazer o diagnóstico e prescrever o tratamento, pois isso até mesmo algumas inteligências artificiais (IA) conseguem realizar, dependendo do caso. É preciso entender o paciente como parte de um todo e como um ser humano que é moldado pelo seu contexto e por suas vivências.
A Medicina de Família e Comunidade, que é uma especialidade médica centrada no cuidado integral e contínuo, que acompanha do pré-natal à velhice e que realiza promoção, prevenção, tratamento e reabilitação em saúde, compreende isso muito bem.
E, assim, com cuidado, escuta, atenção e acompanhamento, a medicina e a assistência à saúde como um todo contribuem diretamente para a justiça social, porque o cuidado passa a ir além da doença. Ele entende que, para devolver a qualidade de vida de quem procura assistência, é preciso compreender para além dos sintomas, é necessário entender sobre seres humanos e ter, sobretudo, humanidade.
Pois, como disse o psiquiatra Carl Jung: “conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.