O luxo perdeu a graça? De símbolo de status a produto de massa
Entre ostentação digital, discursos de sustentabilidade e diretórios cheios de homens brancos europeus, a moda de alto padrão, que sempre vendeu exclusividade, agora vive uma crise de identidade.
Houve um tempo em que luxo era sinônimo de exclusividade, raridade e silêncio. Um relógio suíço que passava de geração em geração, um vestido de alta-costura que exigia 300 horas de trabalho manual, um carro que parecia mais escultura do que meio de transporte. Mas hoje, em 2025, o luxo parece ter perdido seu prestígio e valor.
Marcas que sempre venderam discrição agora disputam espaço nas redes sociais com logos cada vez maiores, campanhas “instagramáveis” e colaborações que beiram o kitsch. Ao mesmo tempo, consumidores jovens, formados num caldo de crise climática e desigualdade social, olham para o luxo com desconfiança.
Afinal, o que significa gastar dez mil dólares em uma bolsa quando metade do planeta debate como reduzir o consumo?
Não é que o luxo tenha deixado de existir. Pelo contrário: nunca se produziu e consumiu tanto “luxo” como agora. O problema é que a própria palavra perdeu clareza. O que é luxo hoje? Um tênis de edição limitada que esgota em minutos? Uma bolsa que custa o preço de um carro popular? Ou um produto artesanal feito em pequena escala que aposta mais em impacto cultural do que em ostentação?
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O setor tenta se reinventar: fala em sustentabilidade, resgate de técnicas artesanais, valorização da herança cultural. Mas, muitas vezes, são narrativas superficiais que não passam do famoso “greenwashing”.
As informações correm soltas por aí e essa percepção do público talvez explique a ascensão de outro tipo de desejo: experiências, não objetos. Viajar sem postar, jantar num restaurante minúsculo sem menu fixo, ter tempo (esse bem escasso) são coisas que nenhuma maison consegue produzir em série.
Há ainda outro ponto que gera incômodo: apesar de vender diversidade na passarela, o poder continua concentrado. A maioria das grandes casas de moda ainda é comandada por homens brancos europeus, guardiões de um cânone estético que pouco dialoga com a pluralidade do mundo. A moda de luxo fala em inclusão, mas sua mesa de decisões continua homogênea. Não seria justamente aí que reside a maior contradição?
E aí o luxo se vê diante de um dilema: continua apostando em peças de desejo facilmente replicáveis, transformadas em símbolo de status digital, ou resgata uma aura de exclusividade baseada em valores menos tangíveis, como tempo, silêncio, diversidade e impacto positivo?
Entre logomania e minimalismo radical, o luxo vive sua crise existencial. Talvez seja saudável, crises costumam obrigar a pensar.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora