Tecnologia: Transformação Digital...para quem mesmo?

Para o professor Mauro Oliveira, do IFCE, especialista em Tecnologia da Informação, é preocupante o abismo digital que tem aprofundado, e de forma exponencial em alguns países, o "apartheid" social.

Legenda: Em vários países do mundo, os mais pobres, há um abismo digital, espécie de "apartheid" tecnológico
Foto: Diário do Nordeste

O que a caríssima audiência desta coluna lerá em seguida foi muito bem elaborado pelo professor Mauro Oliveira, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE).

Ele trata de uma questão cada vez mais instigante, o da transformação digital no universo da pobreza, no momento em que o mundo todo, incluindo o nosso mundo cearense e nordestino, ainda se recupera do knockdown da pandemia e, ao mesmo tempo, sente os golpes da nova e atordoante guerra na Europa. Boa leitura e boa reflexão. Com a palavra, Mauro Oliveira:

“Transformação Digital não se faz dentro de Gabinete! Urgi esta frase, recentemente, às margens da lagoa do Iate Clube numa entrevista animada pelo poeta e artista Totonho Laprovitera! 

“Lembrei-me, de imediato, de uma conversa com o saudoso Chico Bilas, lá nas beiradas dos anos 90, quando instalávamos no Diário do Nordeste a segunda página web em um jornal no Brasil. 

“Alertava o Bilas, ainda no século passado, quando a internet era um fusquinha, que ela poderia tornar-se uma Ferrari da desigualdade social. 

“Ideologias à parte (ou não), a verdade é que, neste filme de mocinhos do cotidiano, a internet tem sido agente duplo, jogando “pesado” em países subdesenvolvidos que tem a economia baseada em commodities e a favor dos big conglomerados hi-techs que vendem a preço de (milhares) bananas suas minúsculas rapaduras eletrônicas, para o bem geral da nação... deles.

 “A “vibe” agora é Transformação Digital, como se ela não tivesse se iniciado no após guerra pelo modelo (válido ainda hoje em nossos notebooks) do fantástico Von Neumann ao implementar a máquina do genial Alan Turing, especificada em um guardanapo, depois de um Bourbon duplo, escondido de homofóbicos na penumbra de algum bar londrino. 

“Transformação Digital apresenta-se, portanto, tranquila, assim, feita um cego em tiroteio num culto do Dataismo de Yuval Harari, essa entrega louca de nossa “autoridade” à Google, Waze e ao escambau digital. 

“Neste mundo de Harari, quem tem olho, computador e banda larga namora a filha do rei!

“Neste contexto, é preocupante o abismo digital que tem aprofundado, e de forma exponencial em alguns países, o ‘apartheid’ social reinante que coloca em xeque a sensatez de nossa trajetória Sapiens. Basta um clique na África e em nossas favelas urbanas. 

“A dialética a que se presta a tecnologia não é privilégio da internet, já nos provou Oppenheimer à revelia de Einstein. Não será diferente com o novo mantra Transformação Digital. Por isto, mister, se faz ficarmos atentos ao vermos políticas públicas de Transformação Digital sendo anunciadas com visões conservadoras, tecnicistas que desconhecem o princípio da Dignidade Humana de Kant. 

“Uma luz no final do túnel que anima vem de Célio Fernando, secretário Executivo da Casa Civil do Governo do Ceará, responsável pela articulação que resultou no Decreto sobre a Transição Energética do Estado. 

“Diz Célio Fernando que o Governo do Ceará se prepara para um Governo Digital em dois caminhos: o principal, o serviço ao cidadão, e o secundário, o atendimento e a integração na estrutura de suporte ao cidadão (secretarias, órgãos e vinculadas da administração direta e indireta). 

“Fernando defende a promoção da cultura da Transformação Digital e das bases para aplicação em favor da sociedade civil organizada, do analfabetismo digital à conversão no emprego formal em plataformas digitais. 

Diz ainda: “Importante colocar, em primeiro lugar, a maioria da população que participará da transformação digital e que nunca vai compreender as tecnologias embarcadas nos transportes e nas infraestruturas em geral, na educação, na saúde, na segurança pública e em todas as atividades da vida humana, fauna e flora, doravante sujeitos à Transformação Digital, inclusive para os desafios e impactos das mudanças climáticas”. 

“Neste ínterim, o Iracema Digital está construindo um ‘draft’ (esboço, rascunho, projeto) com sugestões na perspectiva de colaborar com o Decreto de Transformação Digital em curso no Governo. 

“Para tanto, o Iiarecma Digital fez uma consulta pública com seus participantes e parceiros. Seu presidente, Ricardo Liebmann, reforça a tese de que o objetivo maior do Decreto deverá ser ‘reduzir as desigualdades sociais através da Transformação Digital’". 

Reduzir o custo dos Governos, aumentando a qualidade dos serviços aos cidadãos, melhorar educação, saúde, serviços sociais, empregabilidade, transparência pública, meio ambiente, segurança são objetivos de uma Transformação Digital cidadã.

Diz Liebmann: “Se não for para isso, não tem motivo de ser”. 

Esse draft, colaborativo ao Decreto de Transformação Digital, será entregue à governadora Izolda Cela, representando o sentimento da sociedade civil que se quer partícipe e, por conseguinte, corresponsável pelas políticas públicas.”