O Fórum Econômico de Davos e o mundo fragmentado
O tecido social interno dos países esgarça-se, e a desigualdade já é identificada como o risco global mais interconectado para a próxima década.
Especialmente para esta coluna, o economista Célio Fernando, vice-presidente da Academia Cearense de Economia, elaborou o texto abaixo, que é uma reflexão sobre o tumultuado momento por que passa o mundo, sua economia, suas políticas ambientais, sua governança, tudo isto junto e misturado com guerras que não se acabam e outras que ameaçam eclodir.
Vale a pena a leitura do que escreveu Célio Fernando, que tem representado, e muito bem, o Ceará em fóruns internacionais que debatem desde o aquecimento global até a economia do mar.
Eis o texto:
“Com o início do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, nesta semana de 19 a 23 de aneiro, a atenção global volta-se para as montanhas nevadas onde líderes políticos e empresariais debatem o futuro do planeta. No entanto, o clima nos corredores do evento é marcado por uma apreensão inédita, refletida na divulgação da 21ª edição do Global Risks Report.
“O documento pinta um cenário onde a humanidade se equilibra em uma instabilidade perigosa e a cooperação internacional, historicamente celebrada nesse encontro, fragmenta-se sob o peso de uma nova ordem.
“Com base na opinião de mais de 1.300 especialistas, o relatório revela uma mudança drástica nas prioridades: a urgência das disputas geopolíticas e econômicas está perigosamente ofuscando crises existenciais de longo prazo. A atmosfera global descrita é de preocupação, com mais da metade dos líderes antecipando um cenário turbulento ou tempestuoso para a próxima década.
“Diferentemente dos anos anteriores, nos quais a recuperação pós-pandemia ainda trazia otimismo, 2026 marca a ascensão do confronto geoeconômico como a principal ameaça imediata. Superando riscos ambientais e sociais no horizonte de dois anos, as nações passaram a utilizar a economia como arma estratégica, resultando em um ciclo vicioso de sanções e protecionismo.
“O relatório descreve um mundo caracterizado pela multipolaridade sem multilateralismo, onde múltiplos polos de poder emergem em um ambiente fragmentado, travando as instituições tradicionais de governança e impedindo o diálogo necessário para gerenciar essa nova volatilidade.
“Uma das descobertas mais alarmantes apresentadas aos delegados em Davos é o paradoxo climático. Embora a realidade física das mudanças climáticas extremas continue agravar-se visivelmente, a atenção política e econômica desviou-se para crises mais imediatas. Houve uma repriorização para baixo dos riscos ambientais no curto prazo, revertendo a tendência dos relatórios de 2024 e 2025.
“O foco no aqui e agora, exigido para apagar incêndios econômicos e geopolíticos, está drenando os recursos vitais para a transição verde. Contudo, essa negligência cria uma armadilha perigosa, pois os riscos ambientais permanecem dominantes no horizonte de dez anos, sugerindo que a inação de hoje, motivada por urgências de curto prazo, pode garantir catástrofes irreversíveis no futuro.
“Diante dessa complexidade, torna-se evidente a necessidade imperativa de adotar uma visão sistêmica, interdependente e interconectada como bússola para a governança. Não há mais espaço para discussões monotemáticas ou isoladas; a ilusão de que podemos resolver a crise climática sem enfrentar a desigualdade social, ou estabilizar a economia global sem considerar as realidades locais, é uma falácia perigosa. Hoje, não se discute transformação digital e transição energética sem considerar as questões geopolíticas.
“A fragmentação Glocal, onde tensões globais colidem com vulnerabilidades locais, exige que entendamos que cada peça do quebra-cabeça afeta o todo. Para alcançarmos uma sociedade verdadeiramente mais justa, emancipatória e politicamente equilibrada, as soluções devem ser desenhadas considerando a teia inextricável que une esses desafios. Tratar sintomas isolados em um corpo sistêmico doente apenas transfere a crise de um órgão para outro, perpetuando a fragilidade.
“Enquanto as nações disputam poder no tabuleiro global, o tecido social interno dos países está se esgarçando, com a desigualdade sendo identificada como o risco global mais interconectado para a próxima década. Ela age como um motor de instabilidade, exacerbando a polarização política e a desconfiança nas instituições.
“A combinação de pressões econômicas e a percepção de injustiça está rompendo o contrato social entre cidadãos e governos. Este cenário é agravado pelo que o relatório chama de acerto de contas econômico, onde o medo de bolhas de ativos e dívidas impagáveis ameaça desproporcionalmente as populações vulneráveis, por desvios de prioridades, como infraestruturas, e corrupções, aprofundando o abismo social em meio a uma crise de custo de vida persistente.
“Simultaneamente, a aceleração tecnológica continua a ser uma faca de dois gumes, evoluindo mais rápido do que a capacidade humana de entendimento e direcionamento. Os resultados da Inteligência Artificial registraram o maior aumento de preocupação entre o curto e o longo prazo, transformando o que antes era teórico em uma ameaça sistêmica concreta com necessidade de recognizá-la em um novo modo de compreensão do conhecimento. De imediato, a tecnologia tem impulsionado a desinformação, corroendo democracias, enquanto novas fronteiras, como os saltos quânticos, prometem desestabilizar ainda mais a segurança global.
“O Global Risks Report 2026 deixa claro aos participantes do Fórum de Davos que a resiliência relativa dos últimos anos está se esgotando. O mundo enfrenta o dilema crítico de ter problemas globais e interconectados, mas soluções cada vez mais nacionais e fragmentadas. Somente por meio de uma reinvenção urgente da cooperação, fundamentada em uma visão sistêmica e integradora, será possível reverter a lógica destrutiva nesta Era da Competição e Polarização, transformando o abismo iminente em uma oportunidade de reconstrução coletiva antes que a disputa pelo poder sacrifique a própria civilização.”
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