Cearense espia o Céu e pergunta: E as chuvas? Onde estão as chuvas?

Agropecuária do Ceará depende 100% das águas pluviais. Ciência do clima indica que 2026 poderá ser ano de baixa pluviometria

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 05:51)
Legenda: Uma paisagem como a da foto acima é tudo que deseja o agricultor cearense. Mas a previsão é de pluviometria franciscana neste 2026
Foto: Kid Júnior / SVM
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Onde estão as chuvas? Esta é a pergunta que se fazem empresários da agropecuária do Ceará, cuja atividade depende 100% das águas pluviais. Na próxima semana, a Funceme divulgará suas previsões para a estação das chuvas deste 2026, que, pelas últimas notícias procedentes das agências que monitoram o clima no mundo, não são promissoras. O clima entre os que produzem e trabalham no agro do Ceará é de muita expectativa, pois, neste momento, as reservas hídricas estaduais estão no que se pode chamar de nível de preocupação. E põe preocupação nisso. 

Com efeito, os grandes açudes cearenses, como o Castanhão, o maior de todos, o Orós e o Banabuiú estão com 20% de sua total capacidade. Será necessária uma estação chuvosa extraordinária para a recarga desses grandes reservatórios, que podem acumular, juntos, 10 bilhões de metros cúbicos de água. Mas esta possibilidade não consta, neste momento, das planilhas da Funceme. Então resta orar a Deus por chuvas de agora até março. 

Um especialista em recursos hídricos, pedindo o anonimato com medo de errar seu cálculo, garante que “os três grandes açudes do Ceará têm hoje água suficiente para a travessia deste ano; o grande problema será para o próximo ano de 2027”. Ele tem razão: já passamos da metade do mês de janeiro e praticamente não choveu no Ceará, nem no seu litoral, cuja pluviometria, em bons anos, chega a 1,1 mil metros cúbicos, marca que o pequeno Israel – que planta e colhe com pouca chuva – nunca alcançou. 

Empresas do agro que produzem por meio da irrigação com água do subsolo podem até respirar aliviados, mas o lençol freático que lhes fornece esse valioso insumo precisa, também, de ser renovado a cada ano, e isto só é possível com as chuvas, e estas estão atrasadas. 

A tradição cearense estabelece o dia 19 de março como o “dead line”, ou seja, o prazo final, para a definição do “inverno” (a estação das chuvas). Se até lá não chover, será sinal celeste de que neste ano a temporada chuvosa terá índices raquíticos, franciscanos, minguados, mirrados, acanhados, atrofiados, nanicos, miúdos, mínimos. 

As chuvas terão de vir porque delas dependem os grandes projetos elaborados pela Federação da Agricultura e Pecuária (Faec) para incrementar a produção no campo. A Faec quer multiplicar as exportações cearenses de hortifrutis, pescados e camarão para que, dentro de no máximo cinco anos, “alcançemos a meta de US$ 1 bilhão de vendas para o mercado da Europa e das Américas”, como sonha o seu presidente Amílcar Silveira. 

Há boas notícias chegando, e a primeira delas é do Acordo de Livre Comércio celebrado pelo Mercosul com a União Europeia (UE), algo que cria o maior mercado consumidor do mundo ocidental, com quase 800 milhões de consumidores. O acordo ainda precisa de ser aprovado pelos parlamentos do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai e da maioria dos da UE, o que é garantido, mas demandará tempo, talvez oito meses, ou menos ou mais – mas todas as opiniões dizem que no próximo Natal tudo estará em vigência. 

Cristiano Maia, maior criador de camarão do Brasil, presidente da Camarão BR, entidade que congrega os maiores carcinicultores do país, aposta muito na reabertura do mercado europeu para o camarão brasileiro que é 90% produzido no Nordeste, sendo que o Ceará é o líder dessa produção, respondendo por 54% dela, vindo em seguida o Rio Grande do Norte com 28% e o Piauí e a Paraíba com o percentual restante.  

Os grandes projetos da carcinicultura cearense estão no litoral e usam a água marinha nos seus imensos tanques para a criação do camarão, mas os pequenos empreendimentos localizam-se na área sertaneja, utilizando-se da água salobra de poços artesanais, que secam se a chuva não vem. É por isto que a chuva é 100% a grande aliada da agropecuária nordestina. E atentem para o fato de que aqui estamos falando, apenas, da importância da chuva na atividade econômica.  

Mas a é chuva mais importante ainda, ela é vital para a vida humana. Com os açudes cheios, ou bem recarregados, será possível garantir água para o consumo da população de todos os 184 municípios do Ceará. Ela não pode faltar.