Economista português: “Ceará é protagonista da economia azul no Brasil”
Miguel Marques, especialista na economia do mar, sugere que os cearenses invistam na qualificação da mão de obra
Empresários, acadêmicos, estudiosos e jornalistas reuniram-se ontem, em Fortaleza, com o presidente e integrantes da Câmara Setorial da Economia do Mar, que opera no âmbito da Adece. A reunião, realizada no auditório de um escritório de advocacia de Fortaleza, teve a presença do economista Miguel Marques, que é hoje a voz mais influente de Portugal na remodelada área da atividade econômica que explora, de modo sustentável, as riquezas marinhas.
Saudado por Rômulo Soares, presidente da Câmara Setorial, Miguel Marques abriu sua palestra, dizendo, com outras palavras, que o estado do Ceará “está na posição de protagonista da economia azul no Brasil”.
Ele explicou que, aqui, se juntaram a academia, o empresariado da indústria e do agro e o governo do estado para colocar o Ceará em movimento na economia do mar, e uma das boas consequências desse esforço conjunto é a seguinte informação: o Ceará já é o maior exportador de pescados do país, “e o seu futuro é muito promissor”.
Ouvido com muita atenção pelos presentes, Miguel Marques despejou uma avalanche de informações e opiniões a respeito da economia azul, “que está em quase toda a vida humana, a começar pela pesca que nos alimenta a todos”. No seu entendimento, o mar é uma “soma de impressões digitais que estão na nossa cultura”, citando como exemplo o que se passa no seu país.
“Em Portugal, cada praia tem seu tipo característico de embarcação destinada à pesca, e isto é uma marca cultural”, disse.
Além da pesca, Miguel Marques alinhou a aquicultura, a indústria conserveira, a extração do sal, os esportes náuticos, o turismo com seus cruzeiros, a indústria naval e o transporte de mercadorias como atividades também diretamente ligados à economia azul, mas chamando atenção para o setor da Defesa Naval como aquele que está a crescer com mais desenvoltura pela fabricação de novos e modernos navios mercantes e de guerra e de novos submarinos. Ele disse, porém, algo que surpreendeu:
“O mar, porém, não está hoje tão bem protegido quanto esteve antes”, esquivando-se de qualquer referência ao que se tem passado nos últimos meses nos diferentes mares do mundo onde persiste um clima beligerante, como no Mar da China ou nos do Oriente Médio.
Miguel Marques deu resposta a várias perguntas, a primeira das quais foi sobre a indiferença da indústria cearense, que ainda não quis investir na produção e no beneficiamento de algas marinhas, cuja rentabilidade é várias vezes maior do a produzida, por exemplo, pela criação de camarão.
Na sua opinião, trata-se de algo que diz respeito ao interesse do empreendedor, mas ele disse que o industrial cearense é muito competente e saberá decidir sobre assunto “no momento oportuno”.
Para garantir o melhor sucesso aos novos empreendimentos ligados à economia azul, o Ceará e os cearenses – disse Marques – devem investir na qualificação de sua mão de obra, uma vez que “é preciso qualificar as pessoas, que só aceitarão esse desafio se estiverem apaixonadas pela atividade ligada ao mar, tendo em vista que, na economia do mar, tudo é muito difícil”.
Depois, incentivado por mais perguntas, Miguel Marques emitiu opiniões sobre o Acordo de Livre Comércio celebrado pelo Mercosul com a União Europeia. Ele não titubeou, e logo disse que o Ceará e sua economia azul tirarão proveito rapidamente desse acordo, pois já são líderes na exportação de pescados e de frutas.
No fim de sua fala, Miguel Marques, para acentuar a importância da economia azul na vida das pessoas, lembrou que, há muito tempo, em Viana do Castelo, em Portugal, as autoridades municipais e a população deram-se as mãos e decidiram que cada habitante do lugar tem de aprender a nadar, a ser um surfista e, também, a remar.
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