Energia elétrica: Lula apaga o sol e acende o carvão

Governo oficializa contrato com empresa de Santana Catarina que produzirá energia elétrica a carvão mineral, a um preço 62% mais caro

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 03:25)
Legenda: Foto de uma termelétrica movida a carvão mineral no Complexo do Industrial e Portuário do Pecém , no Ceará.
Foto: Antonio Azevedo
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Um governo contraditório – é o mínimo que se pode dizer diante da mais recente decisão do presidente Lula e do seu ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, que sancionaram quarta-feira, 14, a contratação de energia gerada pelo Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, em Santa Catarina.  

Esse contrato contém dois escandalosos detalhes: o primeiro é o preço a ser pago por essa energia: 62% superior ao praticado em leilões do governo; o segundo é ainda mais surpreendente: essa energia é gerada pela queima de carvão mineral, o campeão dos campeões da poluição ambiental na área energética.  

É mais uma contradição, pois na recente COP30, realizada em Belém do Pará, discursando para a plateia mundial, o Brasil posicionou-se energicamente pelo fim das energias fósseis e tonitroantemente a favor das energias renováveis. Conversa fiada. 

A poluente energia a carvão do Complexo Jorge Lacerda custará R$ 564 por MW/hora, ou seja, muito acima dos R$ 347 por MW/h que são a média dos últimos leilões de energia para usinas a carvão. A usina desse complexo recebeu autorização do Congresso Nacional para operar até 2040.  

Reparem nos detalhes: o ministro Alexandre Silveira é correligionário de Gilberto Kassab, que é presidente do PSD e tio de Pedro Grünauer Kassab, que é sócio do Complexo. Vê-se que tudo está politicamente incorreto, mas familiarmente correto. 

Não se ouviu nem se leu, até agora, qualquer manifestação de ONGs ambientalistas contra esse contrato. O presidente Lula e o ministro Silveira posaram juntos no ato de validação do documento, realizado no Palácio do Planalto.  

O governo está dando um “viva o carvão” no exato instante em que o Ibama segue segurando, e já faz tempo, a análise do projeto de exploração industrial, pela iniciativa privada, da mina de urânio fosfatado de Itataia, no município cearense de Santa Quitéria, que tem reservas capazes de tirar a agricultura brasileira da dependência de fertilizantes importados da Rússia e da Ucrânia. Ora, isto é do interesse do agro brasileiro, o mais eficiente do mundo, mas não interessa, por motivos ideológicos, aos que trabalham contra o setor que é a locomotiva da economia nacional. 

O Brasil, por meio de sua iniciativa privada, tem feito investimentos pesados em projetos de geração de energias renováveis, máxime na eólica e na solar fotovoltaica. Exemplo disto é a região Nordeste, que hoje é exportadora de energia para outras regiões do país, graças exatamente a esses investimentos.  

Não tem, pois, o menor sentido esse esforço – com claros objetivos políticos – de beneficiar a geração de uma energia que polui o meio ambiente, que emite gases de efeito estufa, ajudando a aquecer este planeta já tão aquecido e a derreter as geleiras da Antártida e do Ártico.  

Quando surge o oportunista interesse político-eleitoreiro, vai para o espaço o discurso ambientalista, que também é oportunista.  

De costas para o interesse econômico do país, o Ibama tenta barrar o projeto da Petrobras de exploração das reservas de petróleo da Margem Equatorial, que se estende de Roraima ao Rio Grande do Norte. É dessa faixa do mar que a Guiana retira, estoca e vende para o mundo o petróleo que elevou em cinco vezes o seu PIB, tudo isso em menos de 10 anos. É dessa mesma área que a Petrobras poderá, igualmente, tirar do fundo do mar o petróleo que mudará, como na Guiana, a economia do Brasil, ampliando o seu PIB. Desde que, evidentemente, o resultado financeiro dessa exploração seja aplicado corretamente nos setores de baixa performance, como Educação, Infraestrutura e Segurança Pública. 

No caso em tela, isto é, na questão da autorização do governo da União para o uso do carvão mineral para a geração de energia elétrica em Santa Catarina, esta coluna lamenta que, em vez do sol e do vento, ativos naturais de que o Brasil dispõe graças à bondade divina, tenha o Palácio do Planalto optado pelo uso de uma fonte poluidora, de origem fóssil.  

Não se trata apenas de uma decisão equivocada, mas de uma oportunidade perdida para incentivar as empresas privadas a investirem mais na geração de energias renováveis. O Brasil tem sol o ano inteiro e conta, ainda, com grandes e importantes bancos de vento para a geração eólica, e a maioria deles está aqui, na região nordestina, o Ceará no meio. 

Este é um ano eleitoral, e parece que 2026 está escancarado para que se pratiquem as maiores loucuras, como esta de “apagar o sol e acender o carvão”, como comentou o engenheiro Fernando Ximenes, leitor desta coluna.  

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