Metrofor: na Linha Leste um túnel avançou, o outro parou
Uma das duas tuneladoras está em processo de resgate desde julho do ano passado; a outra segue adiante, e já passou pela Praça Luiza Távora
Deixemos de lado a incrível invasão da Venezuela por forças dos Estados Unidos, que – na madrugada de sábado, 3, aproveitando-se de bombardeios estratégicos concomitantes a alvos militares localizados em três importantes cidades da, digamos assim, Grande Caracas – voaram, de helicóptero, do Caribe até a capital venezuelana, chegaram à residência do ditador Nicolás Maduro, capturaram-no e, junto com sua esposa, o embarcaram numa das aeronaves e o levaram preso para uma penitenciária de Nova Iorque, onde agora se encontra. Algo surpreendente e estranho, porque, cercando o ditador e protegendo o país e sua capital, estavam um sofisticado sistema de defesa antiaérea e soldados cubanos que lhe davam proteção, alguns dos quais morreram no enfrentamento.
Dito isto, cuidemos de outra invasão, frustrada, que, cinco meses antes, teve e tem tudo a ver com a infraestrutura do transporte público e com a vida da população de Fortaleza, a nossa paróquia.
Aconteceu o seguinte: no dia 4 de julho deste ano, uma das duas tuneladoras que, há mais de 12 anos, perfuram os túneis pelos quais passarão os trens da Linha Leste do Metrô de Fortaleza – o Metrofor – errou o alvo: por uma falha de posicionamento, a máquina distanciou-se 2,5 metros do ponto que deveria chegar na estação do Colégio Militar. Um erro grosseiro, porque a tecnologia do georreferenciamento é hoje usada com praticamente zero de insucesso. Resultado: desde julho permanece inoperante a tuneladora. Mas há uma boa notícia, transmitida ontem com exclusividade a esta coluna:
A Secretaria de Infraestrutura do governo do Estado informa que, “na Estação Colégio Militar, a tuneladora TBM 01 (a do insucesso) já está em processo de resgate” (a nota não explica o que isto significa, mas certamente deve referir-se ao trabalho de reposicioná-la na direção certa mirando o alvo correto). Agora, o detalhe relevante da mesma nota, que é o seguinte:
“Previsão de que em abril de 2026 (daqui a 120 dias) já esteja pronta para iniciar o processo de escavação rumo à estação Nunes Valente”.
Mas há, ainda, outra notícia, também muito importante, transmitida pela Seinfra a respeito da mesma questão:
“A outra tuneladora, a TBM 02, está operando normalmente. Neste momento, ela acabou de passar pela Praça Luiza Távora e deve chegar à estação Nunes Valente no fim de março de 2026”, ou seja, daqui a 90 dias.
Deve ser lembrado que esse trabalho de perfuração se realiza 30 metros abaixo do chão da Avenida Santos Dumont, sob a qual deslizarão as composições refrigeradas da Linha Leste.
A falha da TBM 01 causou um grande atraso no cronograma das obras, frustrando todo o time de engenheiros, técnicos e operários do Consórcio FTS, integrado pelas empresas Agis Construção, brasileira, e Sacyr, espanhola, que apostavam num “gran finale”, ou seja, as duas tuneladoras cruzando juntas a linha de chegada.
De acordo com a Seinfra, dos 7,3 quilômetros da Linha Leste do Metrofor, já foram perfurados 3 quilômetros (no túnel da TBM 02), o que representa 45% de execução física total. Repita-se: faz mais de 12 anos que essa perfuração começou; pelo andar da carruagem, pelo menos outros cinco anos e muito mais dinheiro serão necessários para a sua conclusão.
Mas isto não surpreende, pois as obras públicas brasileiras, sem exceção, são feitas para atender a muitos interesses, o último dos quais é o do seu usuário final, isto é, todos nós, os contribuintes.
Na nota que a Seinfra enviou a esta coluna, há outras informações muito interessantes, que são estas:
“A Linha Leste do Metrô de Fortaleza vai conectar o Centro da cidade ao bairro Papicu, por meio de duas vias de túneis subterrâneos. O trajeto terá 7,3 km. Após a conclusão das obras, a linha terá capacidade para movimentar cerca de 150 mil pessoas por dia.
“O tempo de viagem entre o Centro de Fortaleza e o bairro Papicu será de 15 minutos. Trata-se da primeira linha de metrô 100% subterrânea da região Nordeste. A primeira escavada com tuneladoras foram do eixo Rio-São Paulo”.
Esta coluna acrescenta o que a nota da Seinfra olvidou:
A Linha Leste é a primeira de um metrô nordestino a sair, literalmente, do eixo na sua construção. Uma fonte do Sindicato da Indústria da Construção Pesada do Ceará revelou que o caso da TBM 01, que errou o alvo, ainda não foi solucionado. Motivo: o consórcio responsável pela construção não quer assumir o prejuízo. Surge a pergunta: quem é o culpado pela falha do GPS?
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