Concorrência chinesa cresce e ameaça a indústria têxtil brasileira
Presidente da Abit, Fernando Pimentel, diz que produtos chineses chegam aqui a preço incompatível com custo de produção. Isto pode ser dumping.
Fernando Valente Pimentel, diretor-superintendente e presidente emérito da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), elaborou, especialmente para esta coluna, o texto abaixo, que é uma profunda reflexão a respeito da crise por que atravessa, e já faz algum tempo, a indústria nacional, principalmente do setor que ele representa. As importações da China têm crescido, e os produtos chineses chegam aqui “em geral a preços incompatíveis com custos normais de fabricação”.
De acordo com Pimentel, em muitos casos, essas práticas configuram dumping, e isto causa um grave prejuízo à indústria brasileira. Pelo seu importante conteúdo, pela oportunidade e por ser o texto uma tempestade de informações e comentários que deixarão bem-informados os que o lerem, a coluna publica-o na íntegra, a seguir:
“A indústria mundial atravessa um dos momentos mais complexos das últimas décadas. Não se trata apenas de ciclos econômicos, avanços tecnológicos ou transições ambientais. O que está em curso é um desequilíbrio estrutural da produção global do setor, impulsionado principalmente pela sobrecapacidade da indústria chinesa, cuja escala fabril ultrapassa em muito sua própria capacidade de consumo interno.
“A China construiu, ao longo de muitos anos, um parque industrial robusto, altamente integrado, apoiado de modo muito forte pelo Estado e orientado por uma estratégia exportadora. Hoje, produz muito além do que seu consumo doméstico é capaz de absorver. O excedente é direcionado aos mercados internacionais, em geral a preços incompatíveis com custos normais de fabricação. Em muitos casos, são práticas que se aproximam ou configuram dumping, com efeitos profundos sobre a competitividade industrial global.
“Esse fenômeno não é abstrato nem fortuito. Traduz-se em pressão sobre preços, margens e investimentos, acelera processos de desindustrialização e compromete cadeias produtivas inteiras em diferentes regiões do mundo. Diante dessa realidade, países e blocos econômicos passaram a reagir. Estados Unidos e União Europeia, por exemplo, vêm redefinindo suas estratégias industriais, combinando políticas explícitas de reindustrialização, ampliação de instrumentos de defesa comercial e uso crescente de barreiras técnicas, ambientais e regulatórias. Não se trata de protecionismo puro, mas de proteção estratégica, voltada à preservação de capacidades produtivas consideradas essenciais à segurança econômica, tecnológica e social.
“Em nosso país, desde 2024, a Nova Indústria Brasil (NIB) representa um esforço relevante de reconstrução de uma política industrial moderna, estruturada em seis missões estratégicas, com foco em inovação, sustentabilidade, neoindustrialização e agregação de valor. A NIB vem acompanhada de instrumentos importantes de financiamento e apoio, com protagonismo de instituições como o BNDES, a FINEP e a EMBRAPII. Sem dúvida, é um passo necessário, especialmente se consolidar-se como política de Estado, com previsibilidade e horizonte de longo prazo.
“Ainda assim, é preciso reconhecer que esse esforço ocorre em um ambiente macroeconômico adverso. O Brasil convive há muito tempo com taxas de juros estruturalmente elevadas, dentre as mais altas do mundo em termos reais, o que limita a capacidade de investimento da economia. Hoje, os investimentos giram em torno de 17% do PIB, quando o patamar mínimo para sustentar crescimento, modernização produtiva e aumento de produtividade deveria situar-se em torno de 25%.
“Soma-se a isso uma carga tributária sobre a produção muito superior à chinesa, além de complexidade regulatória e insegurança jurídica. Ao contrário do que ocorre na China, o Brasil não dispõe de subsídios amplos, crédito barato ou incentivos sistêmicos equivalentes. A competição, assim, deixa de ser entre empresas e passa a ser entre modelos de Estado.
“É nesse contexto que a indústria têxtil e de confecção brasileira vê-se exposta de modo específico. O setor, no qual a China detém uma posição dominante na produção mundial, sofre de maneira direta os efeitos da sobrecapacidade chinesa. A entrada de volumes crescentes de produtos importados, a preços muitas vezes incompatíveis com as condições normais de mercado, pressiona toda a cadeia produtiva nacional, da fiação e tecelagem à confecção, comprimindo margens, reduzindo a utilização da capacidade instalada e desestimulando investimentos em modernização e inovação.
“O impacto é ainda mais preocupante quando se observa a relevância estratégica do setor para o nosso país. A indústria têxtil e de confecção brasileira está entre as cinco maiores do mundo, emprega diretamente mais de 1,3 milhão de pessoas e apresenta um faturamento de R$ 250 bilhões por ano, com forte capilaridade regional e elevada intensidade de mão de obra. A perda de competitividade não significa apenas a substituição de produtos nacionais por importados, mas também a erosão de empregos formais, aumento da informalidade, fechamento de empresas e enfraquecimento de cadeias produtivas inteiras, em especial nas regiões onde as fábricas são o principal vetor de desenvolvimento econômico e social.
“É importante deixar claro que não se trata de hostilizar a China, parceira comercial relevante e destino de cerca de 30% das exportações brasileiras. A relação bilateral é estratégica e deve ser preservada. O problema surge quando ela se torna assimétrica e dependente, sobretudo no fornecimento de bens manufaturados. A pandemia foi didática ao expor os riscos de cadeias globais excessivamente concentradas e frágeis. Nenhum país de dimensão continental, com aspirações de desenvolvimento, pode abrir mão de uma base industrial própria, moderna, competitiva e sustentável.
“O enfrentamento da sobrecapacidade chinesa não admite soluções simples ou únicas. Exige um conjunto articulado de decisões: política industrial consistente e de longo prazo, redução estrutural do custo do capital, sistema tributário menos nocivo à produção, uso legítimo e técnico de instrumentos de defesa comercial, inserção internacional mais estratégica e valorização da indústria como ativo nacional. Acima de tudo, é imprescindível clareza e eficácia do projeto de país que desejamos que o Brasil seja.
“Encerrar 2025 e iniciar o ano novo refletindo sobre esse tema não é pessimismo. É responsabilidade histórica. Ignorar o problema não o fará desaparecer. Enfrentá-lo com relativização do desafio tampouco ajudará. O debate é inevitável. Quanto antes for pautado e travado de modo qualificado, maiores serão as chances de o Brasil preservar e fortalecer sua capacidade industrial em um mundo cada vez mais competitivo e assimétrico.”
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