Está no Ceará o Atlântico da Inteligência

Segue o debate sobre o Data Center que se constrói no Complexo do Pecém. O professor Mauro Oliveira, doutor em Informática, reaparece e levanta novas questões a respeito do projeto

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 12:38)
Legenda: No lado esquerdo da foto, a energia renovável que abastecerá o Data Center do Pecém, que está no lado direito. No meio deles, o debate.
Foto: SVM
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Outra vez, agora sob um novo ângulo, o professor Mauro Oliveira – doutor em Informática pela Sorbonne University, de Paris, mestre em Engenharia Elétrica pela PUC-Rio e eletrotécnico pelo IFCE, tendo sido secretário de Telecomunicações do Ministério da Comunicações – retoma o projeto do Data Center em construção no Complexo do Pecém. Ele elaborou para esta coluna um texto em que pormenoriza questões relacionadas ao meio ambiente, e levanta dúvidas sobre o que o Ceará, seu povo e sua economia ganharão com esse gigantesco empreendimento, consumidor intensivo de energia. 

O texto de Mauro Oliveira é de leitura obrigatória por todos quanto seguem o debate a respeito do assunto, uma vez que afirma que um Data Center “é um tarado energético (nem Red Bull resolve), um egoísta científico (não emprega pesquisador), um sovina tecnológico (não transfere conhecimento) e um agente secreto de dados (não deixa auditar)”.  

Por esta e outras razões, a coluna publica a seguir, na íntegra, o texto do professor Mauro Oliveira:  

“Diz o outdoor de uma revenda em Fortaleza que ali ‘um pneu é um pneu’. Usando a mesma lógica, uma nuvem deveria ser apenas uma nuvem. Branca, leve e sem boleto. O vício da metáfora é enganoso: nuvens meteorológicas são passivas, não consomem nada, não aquecem nada e não competem com ninguém. Ao contrário, são o mungunzá esperançoso do sertanejo do meu Padim a aguar o plantio. 

“Já a ‘nuvem’ da Inteligência Artificial (IA), porém, não habita o céu, habita o território. Quando pousa, não levita: demanda megawatts, água, licenciamento ambiental, subestação, fibra óptica, redundância, PPAs (Power Purchase Agreements) e diplomacia energética. No mundo físico, nuvem de IA não flutua ... compete. É uma disputa territorial e material, não celestial. 

“O porto do Pecém, por dentro, ainda é contêiner, Transnordestina chegando e ZPE; por fora, ingressa em sua puberdade digital: baixa latência, energia renovável e tráfego internacional de dados. Esse combo raro tornou-o peça estratégica na geopolítica da IA e alvo natural de big techs e investidores globais. 

“Por que isso pode ser uma grande oportunidade para o Ceará? 

“Nos últimos cinco anos, o Ceará passou a ocupar uma posição de destaque no mapa global de IA e de seus datacenters ao combinar um conjunto singular de ativos estratégicos: energia limpa, porto estratégico internacional, entrada nacional dos cabos atlânticos, a ambição de se tornar corredor atlântico de hidrogênio verde etc. 

“Por que isso exige nossa atenção estratégica? 

“Historicamente, o Estado brasileiro apresenta baixa exigência de contrapartidas estruturantes nas negociações de grandes investimentos tecnológicos. Essa assimetria torna o território altamente atrativo ao capital global, mas insuficiente para promover desenvolvimento nacional sustentável caso as negociações das contrapartidas não sejam acompanhadsa de estratégias claras de governança, sustentabilidade e captura de valor. Sem esses instrumentos, há o risco de converter vantagens comparativas em oportunidades perdidas. 

1. Qual o problema na geopolítica? Na geopolítica da IA, o principal gargalo já não é o algoritmo, mas o megawatt. A energia necessária para treinar e operar modelos de IA generativa (essa do ChatGPT e similares) cresce de forma exponencial, enquanto a infraestrutura de geração, transmissão e distribuição elétrica não avança no mesmo ritmo, criando um ponto cego estratégico. 

“Enquanto o mundo discute invasões do ‘mais porreta no Norte’ no quintal do vizinho na América Latina e da longínqua Groenlândia, as big techs operam em outro tabuleiro: firmam contratos de fornecimento de energia de longo prazo (PPAs de 15 a 20 anos), assegurando acesso estável e previsível a um insumo que se tornará cada vez mais escasso nesta década. Elas sabem disso, mas no Sul Global ainda não caiu a ficha. 

“Se o Sul Global insistir em jogar na retranca, o conflito energético da IA deixará de ser geopolítico e se tornará doméstico, impondo dilemas cotidianos e duros como escolher: zap ou chuveiro quente. Casos internacionais mostram que datacenters sem governança geram atritos: no Texas houve protestos por tarifas e subsídios; Irlanda e Holanda adotaram moratórias por saturação elétrica e ambiental; Singapura pausou autorizações por falta de água e energia; a Índia atraiu demanda energética, mas pouca indústria; e países africanos receberam capex estrangeiro sem retenção de valor local. A América Latina também joga na divisão errada: trata datacenter como renúncia fiscal, não como política industrial. 

“Como destaca Tiago Guimarães, Coordenador da AJE Fortaleza, em seu artigo “H2V e Datacenters” (DN, 10/jan/26): ‘... aceitar a instalação de data centers no Ceará sem contrapartidas claras significa repetir um modelo histórico conhecido: ceder território, energia e recursos naturais enquanto o valor agregado é produzido fora.’ 

2. Aplicando a 1ª Lei de Seu Toim - Totonho Laprovitera, nosso querido arquiteto-poeta de marca maior, conta que Seu Toim, lá no frio de Pacoti, vira uma fera quando alguém joga entulho no terreno de sua bodega ‘Pague Mais’. OPA! Mas Seu Toim faz uma exceção: se o dono do entulho ‘pagar bem’… aí, então, ele conversa! 

“O Ceará poderia aprender com Seu Toim: considerando que datacenter é um tarado energético (nem Red Bull resolve), um egoísta científico (não emprega pesquisador), um sovina tecnológico (não transfere conhecimento) e um agente secreto de dados (não deixa auditar), vale a 1ª Lei de Seu Toim: sem contrapartida, transparência e auditoria séria, datacenter pode ser um ‘entulho no terreno’ ... a menos que ‘paguem bem’! 

“Na ausência de cláusulas robustas de soberania, o investimento ingressa como capex estrangeiro (cerca de 80% é importação de tecnologia com isenção tributária) utilizando o território como base energética intensiva e infraestrutura subsidiária do Sul Global. O risco é termos o ‘Datacenter de Troia’ (ou de Shenzhen, ou do Texas etc): chega com o presente do investimento e parte levando energia limpa barata, dados sensíveis e deixando os passivos ambientais para o anfitrião. 

“Vale destacar que a ‘energia que nos sobra hoje’, e que talvez fique escassa lá adiante, não pode ser o único argumento para atrair datacenters. Com isenções do Redata (Regime Especial de Tributação para Data Centers), é preciso exigir contrapartidas e garantias ambientais. É o que propõe o documento ‘Datacenter de IA no Ceará’ entregue ao Governo do Ceará, dia 13/jan/26, pelo Instituto Iracema Digital, universidades e entidades do setor de TIC. 

“É preciso entender, ‘de vera, que energia será a commodity geopolítica mais cobiçada desta década. Se antes (ano passado) se invadia por petróleo, agora poderá ser por megawatts. Quem controlar energia firme controlará a indústria, a IA e ... quase tudo. 

“3. Data center consome energia? Datacenter não ‘consome energia’. Ele ‘disputa energia’ no tempo e no território. Compete com indústria, agricultura, cidades, pequenas e médias empresas e com a própria agenda ambiental. E disputa, ainda, com o ritmo da transição energética, cuja equação entre geração, armazenamento, transmissão e preço segue em aberto. 

“Eólica e solar são limpas e baratas, mas intermitentes: brilham e sopram quando querem, não quando os servidores precisam. Assim, em quase todos os mercados com datacenters de grande porte, a ‘reserva firme’ ainda vem de fontes fósseis, discretas e resilientes, acionadas silenciosamente quando o ‘algoritmo’ não pode parar. 

“O paradoxo é evidente: a nuvem se vende verde no marketing, mas exige térmica na contingência. Daí a defesa da participação de entidades representativas e da academia especializada, ao lado do governo, no planejamento e na negociação de contrapartidas para não virarmos ‘colonizados úteis’. Por isso, é preciso negociar transparência e auditagem na operação dos datacenters. É o que propõe o documento ‘Datacenters de IA no Ceará’, entregue ao Governo do Ceará, elaborado pelo Iracema Digital. 

4. A métrica que importa: PUE - Se no artigo anterior (‘A Água Invisível dos Datacenters: quando a nuvem pousa no semiárido’), aqui na coluna do Egídio Serpa no DN, discutimos o problema hídrico dos datacenters de IA, agora o tema é energético ... ‘last but not least’. 

“Agora, o WUE (Water Usage Effectiveness) cede o pódio ao PUE (Power Usage Effectiveness). O discurso da ‘energia limpa’ esbarra no mundo real dos megawatts: quem provê, quem paga, quem prioriza, quem audita e quem lucra? O PUE mede a eficiência energética dos datacenters ao relacionar o consumo total de energia com a energia efetivamente utilizada pelos equipamentos de TI. Quanto maior o PUE, menor a eficiência da infraestrutura. Mas aqui vem a sutileza: 

“PUE baixo não é sinônimo de ‘verde’; é sinônimo de eficiência. Um PUE 1,12 alimentado por carvão é eficiente e sujo. Um PUE 1,25 alimentado por eólica é menos eficiente e muito mais limpo. Além disso, sustentabilidade de datacenters não pode ser avaliada por um único indicador. Ela exige a leitura conjunta de PUE, matriz energética e métricas ambientais complementares. Sem auditoria, métrica vira marketing. WUE e PUE só geram governança quando são monitorados com transparência e penalidade. E narrativa não alimenta IA, alimenta LinkedIn. 

“5. Soberania não se negocia sozinho - A provisão energética para datacenters de IA deve ser estruturada por meio de contratos soberanos, capazes de internalizar externalidades territoriais, mitigar assimetrias e converter megawatts em valor econômico, tecnológico e social. Sem contrato, há promessa; com contrato, há obrigação com métricas e penalidade. Na IA, contrato não é só jurídico, é geopolítico: define tarifas, prioridade energética, governança, riscos, captura de valor e ‘accountability’. 

“Se a IA é considerada uma infraestrutura civilizatória, a sociedade precisa estar à mesa. Isso exige governança multissetorial envolvendo academia, ICTs, setor elétrico e produtivo, entidades empresariais, sociedade civil e diplomacia científica. 

“Um contrato inteligente para datacenters deveria contemplar, além dos pontos acima: auditoria independente, contingência térmica + elétrica, transparência pública periódica, contrapartidas territoriais estruturantes (formação, P&D, indústria, dados públicos, certificação, transferência tecnológica). 

“Sem academia, perde-se a ciência, o rigor metodológico, a comparação internacional. Sem entidades, enfraquece-se a voz do setor produtivo. Sem sociedade civil, desaparece a conexão com a economia real. Sem território, compromete-se a soberania. E sem soberania, o Estado vira fornecedor de energia barata para capital estrangeiro, enquanto valor econômico, ciência e indústria saem pelo cabo. A diplomacia energética da IA exige governança, negociação e desenvolvimento sustentável, mesa ampla, método claro, contrato soberano, coordenação federativa, a chamada quadrúplice hélice e métricas auditáveis. 

“Nesta década, quem controla a energia controla a IA. Quem controla a IA é candidato a controlar o século... com ou sem Groelândia. 

“6. E o ‘futuro, esta astronave que tentamos pilotar’ - O futuro não é um lugar para onde viajamos, é um território que disputamos. No século XXI, essa disputa não será travada por bandeiras, mas por megawatts, cabos submarinos, negociações, arranjos de governança, contratos e cérebros. É nesse tabuleiro que o Ceará entrou sem pedir licença e sem perceber, talvez, que estava desenhando uma tese estratégica rara para o futuro: IA, energia, Atlântico. 

“Poucos territórios do planeta concentram, na mesma geografia, vento, sol, porto, cabos, juventude, ciência ... Atlântico. O Ceará, moldado por vento e teimosia, reúne todos esses atributos. O que ainda faltava era reconhecer que isso não era apenas paisagem ... era geopolítica. A questão não é mais receber ou não datacenters, mas para quem, com que finalidade e sob quais contrapartidas. Datacenter deixou de ser infraestrutura de TI para virar infraestrutura estratégica, afetando soberania digital, política industrial, diplomacia energética e desenvolvimento territorial. Bombeia megawatts, captura dados, demanda pesquisa e reconfigura mercados. Por isso, é justo negociar bem as contrapartidas (1ª Lei de Seu Toim). 

“O desafio não é só atrair, é negociar. E negociar não é só dar isenção, é definir o padrão de troca. 

“7. Ceará, o Atlântico da Inteligência - A proposta ‘Datacenters de IA no Ceará’, levada pelo Iracema Digital, universidades e entidades, fez o que era preciso: tirou o debate do conforto técnico de um ‘grupo de sonhadores & realizadores’ e o reposicionou onde realmente importa, na governança democrática da infraestrutura digital, entendida aqui como infraestrutura crítica. Não é mais parecer, é uma provocação. Não é um checklist, é política de futuro. 

“A reação foi imediata e significativa. O Governo do Ceará sinalizou a intenção de reajustar a política de CT&I a este novo ciclo tecnológico, abrindo uma janela rara de convergência entre pesquisa, inovação, energia e desenvolvimento territorial. Está em construção o maior ecossistema de IA do Nordeste e, possivelmente um dos mais estratégicos do país. 

“E como sempre aconteceu nas viradas desse território, o Estado convocou seus próprios cérebros. Filhos e netos da tradição que vai de Bárbara de Alencar ao ITA de Casimiro Montenegro, de Rodolfo Teófilo ao Centec de Ariosto Holanda. Gente que pensa no verde do reuso, no vento do Atlântico e no sol de mil gigawatts, ... gente capaz de ‘mudar o Saara’, como Garcia Marques diante da pirâmide. 

“Em compreendendo essa nova equação (IA + energia limpa + Atlântico + ciência + juventude) antes dos demais, o Ceará poderá não apenas liderar o Nordeste na economia inteligente, mas consolidar-se como referência nacional em governança de datacenters e inaugurar um corredor atlântico próprio de desenvolvimento... o Atlântico da Inteligência.” 

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